Japão em três tempos

Fotos de Haruo Ohara, gravuras ukiyo-e e obras contemporâneas de Madalena Hashimoto estão em grande mostra em homenagem ao centenário da imigração japonesa

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

"Hoje você vê a flor. Agradeça a semente de ontem", sempre escrevia em seus diários e suas cartas o imigrante japonês Haruo Ohara (1909-1999), que chegou ao Brasil em 1927, quase uma década depois de o navio Kasato Maru ter aportado em Santos com as primeiras famílias japonesas que imigraram para o País. Ohara, que se estabeleceu em Londrina, no Paraná, era lavrador - como tantos outros imigrantes japoneses -, mas também foi um fotógrafo amador - de maneira alguma no sentido pejorativo. Ele se dedicava à fotografia de forma intensa e natural, valorizando o registro poético e perspicaz da natureza à sua volta, de momentos e do ambiente de sua família (fez belos retratos de seus nove filhos, sua esposa e também auto-retratos), do trabalho na lavoura e das transformações da cidade. Até o abstracionismo ele experimentou, com sua Rolleiflex, criando, na década de 1950, imagens da mesma linha da de fotógrafos modernos como German Lorca e Geraldo de Barros. Ohara não era um recluso, participou do Foto Cine Clube Bandeirantes de São Paulo e foi um dos fundadores do fotocineclube de Londrina tal era sua ligação com a fotografia.Em janeiro deste ano, a família de Ohara doou sua preciosa coleção fotográfica para o Instituto Moreira Salles: cerca de 18 mil negativos, álbuns originais, cadernos, documentos e objetos pessoais relativos à imigração, como conta Sergio Burgi, coordenador da área de fotografia da instituição. Ohara, apesar de sua trajetória antiga como fotógrafo, teve reconhecimento tardio, apenas em meados da década de 1990, quando participou da Bienal de Curitiba e teve obras suas incorporadas à Coleção Pirelli de Fotografia. Mas abre-se a oportunidade de se ver uma ampla seleção de mais de 160 imagens em preto-e-branco realizadas por Haruo Ohara entre a década de 1940 e início dos anos 80, todas elas presentes na mostra Japão: Mundos Flutuantes, que será inaugurada hoje para convidados e amanhã para o público na Galeria de Arte do Sesi.Japão: Mundos Flutuantes já seria boa se somente exibisse as obras poéticas, documentais e experimentais de Ohara, fotógrafo que tão bem dá a lição de que viver no campo não conferiu a ele uma visão arcaica das coisas, que ele foi bem contemporâneo, como diz Burgi. Mas Japão: Mundos Flutuantes é ainda muito mais, formada também por outras duas belas mostras: uma com 155 gravuras ukiyo-e, datadas dos séculos 18 e 19 pertencentes ao Instituto Moreira Salles; e outra que é um passeio pela produção contemporânea (raramente vista) da artista e professora nissei Madalena Hashimoto Cordaro - sua mostra, com curadoria do gravador Claudio Mubarac, é formada por obras realizadas desde a década de 1980. São três mundos que se confluem no mesmo espaço; artes que refletem o Japão em tempos diferentes, da tradição ao modernismo e à contemporaneidade com pés no Brasil - e vale dizer que cada uma das mostras merece ser visitada individualmente dadas as suas abrangência e qualidade.A exposição de gravuras ukiyo-e, as "pinturas do mundo flutuante" que foram populares no Período Edo no Japão (1603-1867) - e que teve como dois grandes expoentes os artistas Hokusai e Hiroshigue -, revela uma das maiores coleções do gênero no Brasil, com grande força na temática do teatro kabuki. Nos últimos cinco anos a professora e artista Madalena Hashimoto, curadora da atual mostra, pesquisou aprofundadamente esse acervo, identificando as obras, autores e os temas presentes nas obras."O ukiyo-e não é xilogravura, é obra em que o pintor desenha a imagem e supervisiona o trabalho ainda do entalhador e do impressor", diz Madalena, lembrando que, dentro desse trabalho em que a autoria é diluída, outra figura importante era a do editor das gravuras. As gravuras ukiyo-e, populares, tinham relação direta com a poesia; falavam de narrativas sobre "lugares famosos", "figuras bonitas" e peças de teatro políticas e relativas a temas do cotidiano - e algumas delas eram espécies de "pôsteres" que os fãs de autores e espetáculos compravam para guardar. "O ukiyo-e elevou a pessoa comum", diz a curadora e artista. ServiçoJapão: Mundos Flutuantes. Galeria de Arte do Sesi. Av. Paulista, 1.313, 3146-7405. 10h/20h (2.ª, 11h/20h; dom., 10h/19h). Grátis. Até 1º/3. Abertura hoje, 19h30, para convidados

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