James Gray exibe sua melhor obra

Diretor fala de Two Lovers, que concorre à Palma de Ouro em Cannes, e a influência do mestre Visconti

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2008 | 00h00

James Gray revela que Rocco e Seus Irmãos não foi seu primeiro Luchino Visconti. O primeiro filme do grande diretor italiano a que ele assistiu foi a adaptação de Noites Brancas, de Dostoievski - Um Rosto na Noite. Ele tinha 18 anos quando viu Rocco. Durante uma hora e meia ele não conseguia entrar no filme. Achava aquilo tudo ''a faillure'' (um fracasso). E, então, na briga a socos entre Alain Delon e Renato Salvatori, Rocco e Simone, após o estupro de Nadia, como ele diz, ''a luz se fez'' e tudo começou a fazer sentido. Hoje, Rocco é um de seus filmes favoritos. Toda essa conversa sobre Visconti surgiu porque o repórter do Estado acusou - amigavelmente - James Gray de haver roubado uma seqüência inteira do mestre.Logo no começo de Two Lovers, o melhor filme de Gray, em competição aqui em Cannes, Gwyneth Paltrow briga com quem se supõe que seja seu pai. Não se vê o sujeito, apenas se ouve sua voz nos corredores do prédio e ela entra correndo na casa de Leonard (Joaquin Phoenix), exatamente como Annie Girardot fazia ao entrar na cada (e na vida) da família Parondi. James Gray confessa - ''É correto, a seqüência inteira saiu de Rocco, mas não foi meu único roubo de Visconti. A briga a socos entre Joaquin Phoenix e Mark Wahlberg em Os Donos da Noite também repete a briga dos irmãos em Rocco. É uma raridade - e um prazer - poder falar com um diretor norte-americano como James Gray. Ele tem cultura, humanidade e um conhecimento profundo do cinema, em geral, e do italiano, em particular. Martin Scorsese também tem, mas ele, afinal, é de origem italiana. James Gray é de ascendência judaico-russa. Um bom ponto de partida para uma conversa a dois, no Grand Salon do Hotel Carlton.Como um cineasta americano de ascendência russa (e judaica) consegue se interessar tanto pela família, e de uma forma tão próxima ao que fazem os grandes diretores italianos?Realmente, todos os meus filmes tratam de relações familiares, mas eu nunca penso em fazer um comentário consciente sobre isso. Mas são as histórias que me interessam, as que me permitem ir fundo na densidade emocional de meus personagens, o que o cinema norte-americano raramente faz. Temos hoje Hollywood interessada nos blockbusters e o cinema independente interessado em se tornar parte de Hollywood. Eu persigo um terceiro caminho. O que me interessa são as pessoas, as relações entre elas, sejam familiares ou não. Não creio que uma família russo-judaica seja muito diferente de uma família italiana. Todos temos mães fortes e um tipo de estrutura familiar em que as pessoas podem tanto se apoiar quanto destruir. Essa é a base da tragédia grega, em que tudo também se passa em família.E o cinema italiano?Acho que o cinema italiano, a partir da experiência neo-realista, foi o que melhor soube refletir sobre a densidade e intensidade dessas relações. Os autores vão mais fundo na alegria e na dor associadas à vida familiar. Para os norte-americanos, a família é a família, ponto. O que me interessa é ir um pouco mais além. Não sei se consigo, mas é o que me move, enquanto diretor.Two Lovers conta a história de um solitário que se envolve com uma mulher, mas a família quer que ele se case com outra e ela também tem uma relação complicada com um homem casado. O filme poderia se chamar Quatro, em vez de Dois Amantes...É verdade, mas os demais personagens viram desdobramentos de Joaquin e Gwyneth. O ponto num filme como este é tornar as relações humanas verdadeiras. Não creio que pudesse ter atingido esse objetivo sem o elenco fantástico que conseguimos reunir. Joaquin, em especial, não precisa de palavras para expressar o que se passa no interior dos personagens. E, depois, temos trabalhado tanto juntos que não precisamos nem mais falar. Quando vou lhe dizer alguma coisa, ele se antecipa - ''OK, vamos fazer assim''. E, quase sempre, é do jeito que estou imaginando.Não só a entrada de Gwyneth é roubada de Visconti - a entrada de Nadia na casa dos Parondi, observada pela mãe -, como Leonard tem algo do caráter sacrificial de Rocco.Absolutely (com certeza). Rocco é um personagem que se sacrifica pela família, e a interpretação de Alain Delon, uma das maiores da história do cinema, torna ainda mais dolorosa a experiência de ver como ele se destrói. Mas, para mim, Rocco não é só sobre família. É sobre o conflito entre o Norte industrializado e o Sul agrário, numa Itália ainda em transformação. Não tenho um quadro assim tão amplo, mas espero ter criado personagens mais do que unidimensionais.Este é seu melhor filme.Também penso assim. Em certo sentido, a ambientação deste filme romântico parece menos abrangente do que a dos policiais mais sombrios (NR: noir - ele diz), que fiz antes. Mas acho que aqui consegui ser mais justo com a humanidade dos personagens.Uma curiosidade: você chegou a falar com Isabella Rossellini, que faz a mãe, sobre Katina Paxinou, a mãe genial do filme de Visconti?Falamos de Visconti, mas não desse detalhe, que guardei para mim. Isabella conheceu todos os grandes diretores que me são caros: Visconti, Fellini, seu pai Rossellini, claro. Falamos mais de As Noites de Cabíria, que é outro de meus filmes favoritos. Aquela melancolia de Giulietta Masina, condenada a seguir em frente no fim. O cinema encerra uma experiência humana extraordinária e essa é a lição que absorvi dos italianos.

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