AP /Antonio Calanni
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Itália homenageia Dante Alighieri com partituras musicais e exposições em museus

Eventos, que incluem também leituras diárias na tumba, homenageiam o escritor 700 anos após sua morte

Colleen Barry, AP

25 de maio de 2021 | 15h00

Como fez todas as noites durante os últimos oito meses, Giuliana Turati abriu seu velho exemplar da Divina Comédia de Dante quando o último dos 13 toques do sino de uma igreja reverberou sobre o túmulo do grande poeta italiano. No 700º aniversário de sua morte, a Itália está homenageando Dante Alighieri - que morreu no exílio de Florença em 13 de setembro de 1321 - de inúmeras maneiras, como novas partituras e concertos de gala, exibições e leituras dramáticas em cenários deslumbrantes em todos os cantos do país. O Papa Francisco escreveu uma carta apostólica, a mais recente de um papa, falando sobre a relação de Dante com a Igreja Católica Romana.

Mas em nenhum outro lugar a homenagem é mais íntima que diante de seu túmulo - restaurado para o aniversário - todos os dias quando o crepúsculo cai na cidade de Ravenna, uma antiga capital bizantina. Turati, moradora de Ravenna por toda a vida, vem ouvir os amantes de Dante lendo um canto, acompanhada da cópia da Divina Comédia com o ano em que ela estudou a obra-prima do poeta na escola: 1967.

“Sempre tem algo novo”, disse Turati. “Mesmo que você tenha lido e relido, Dante sempre tem algo novo para nos dizer.”

A leitura diária, parte de uma celebração de um ano que começou em setembro, tem como objetivo conectar pessoas comuns - locais e turistas, acadêmicos e não iniciados - com a Divina Comédia como uma homenagem da cidade que ele adotou no exílio.

“Ler Dante talvez seja a homenagem mais verdadeira e profunda que podemos oferecer”, disse Francesca Masi, secretária-geral do comitê organizador do Dante 700 de Ravenna. “É necessário que todos se esforcem para ir em direção a Dante, e muitas vezes pedimos a Dante que venha em nossa direção, quem sabe esticando um pouco sem entendê-lo. Mas esta forma solene de leitura, sem comentários, é respeitosa”.

Dante passou anos compondo a Divina Comédia durante seu banimento de sua Florença natal, o lar do vernáculo que ele elevou a uma língua literária por meio de sua poesia.

Se Dante foi abraçado como símbolo da unificação da Itália em 1861, Florença e Ravenna continuam a batalha por seu legado. Disputas sobre quem tem o direito de reivindicar seus restos mortais ainda explodem nos jornais sete séculos após sua morte.

Florença, ao que parece, teria desistido de suas reivindicações ao condenar Dante ao exílio, com seu retorno punível com morte.

A sentença foi escrita num registro de tribunal do século 14, agora em exibição até 8 de agosto como parte de uma exposição sobre a relação de Dante com Florença no Museu Nacional Bargello. O museu está instalado num palácio medieval que Dante teria conhecido e visitado como a residência do mais alto magistrado judicial, onde foi condenado na mesma sala abobadada que agora exibe um famoso bronze de Davi do escultor renascentista Donatello.

O museu também possui um afresco de Dante, pintado por seu contemporâneo Giotto após a morte do poeta, e também de Lúcifer, retratado com as imagens do próprio Dante: três cabeças e asas de um morcego. “É muito importante, porque significa que a iconografia introduzida por Dante foi imediatamente recebida em Florença nas artes figurativas”, afirmou a diretora do Museu Nacional Bargello, Paola D'Agostino.

Outra exposição no Museu San Domenico de Forli, perto de Ravenna, reúne 300 obras de todo o mundo para contar a história de Dante ao longo dos tempos, desde peças que o influenciaram até aquelas que ele influenciou, disse o diretor do museu, Gianfranco Brunelli.

A exposição, realizada em conjunto com o Uffizi de Florença e que vai até 4 de julho, inclui arte contemporânea a Dante, manuscritos elaborados de sua obra, retratos do poeta e peças inspiradas em seu poema épico e monumental feitas por artistas como Picasso, Giotto, Tintoretto e Michelangelo.

Brunelli disse que não é surpresa que Dante continue a fascinar as pessoas ao longo dos séculos.

“Os temas de Dante são os do céu e da terra. Ele fala de salvação e perdão, de coisas muito fundamentais para a vida humana”, Brunelli disse. Por esta razão, a arte não poderia deixar de retornar um número infinito de vezes a Dante e seus temas”.

Depois de ser condenado ao exílio em 1302, Dante passou grande parte do resto da vida em Verona e depois em Ravenna, onde chegou em 1318 ou 1319. Morreu de malária após uma missão diplomática à República de Veneza, 100 quilômetros ao norte.

Em Ravenna, Dante teria visitado as antigas basílicas bizantinas e os famosos mosaicos da cidade, e acredita-se que estes inspiraram algumas passagens de sua obra-prima. Masi, num tour semanas atrás, indicou a ‘Procissão das Virgens’ dentro da Basílica de Sant’Appolinare Nuovo, que se reflete num verso do Purgatório, a segunda seção de sua obra-prima: “E elas vestiam um branco-brancura que neste mundo nunca se viu”.

Para o aniversário, em 12 de setembro, outro notável cidadão adotivo de Ravenna, Riccardo Muti, planeja reger uma nova partitura orquestral, inspirada no Purgatório e escrita pelo compositor armênio Tigran Mansurian, como parte do Festival de Ravenna dedicado a Dante. Também haverá apresentações em Florença e Verona.

As festividades de encerramento em setembro incluirão uma peregrinação anual de autoridades de Florença, que chegam a Ravenna com uma oferta de óleo para manter acesa a chama do mausoléu de Dante por mais um ano.

“Dante encontrou sua paz nesta cidade”, Muti disse à Associated Press, acrescentando que ele acha “reconfortante” viver a apenas 200 metros do local do descanso final “desta alma extraordinária”.

“Eu, pessoalmente, sinto esta proximidade com seus ossos como um privilégio, como se desse túmulo emergisse um senso de honestidade, de retidão, um bom presságio do povo italiano de Ravenna para o mundo”, disse Muti.

Tradução de Renato Prelorentzou

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