Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Ismaïl Bahri abre exposição individual com nove videoinstalações em São Paulo

Mostra do artista franco-tunisiano passou pelo museu Jeu de Paume, em Paris, no ano passado

Pedro Rocha, Especial para O Estado

23 Maio 2018 | 06h00

Depois de passar pelo Jeu de Paume, em Paris, no ano passado, a exposição Instrumentos traz, pela primeira vez com uma mostra individual na América Latina, o artista franco-tunisiano Ismaïl Bahri ao Brasil. Com nove videoinstalações, a exibição será aberta ao público em geral nesta quarta-feira, 23, no Espaço Cultural Porto Seguro, em São Paulo. 

Aos 40 anos, o artista trabalha com desenhos, fotografias e instalações, além de vídeos. Mas o audiovisual permite que ele utilize em seu trabalho uma matéria-prima importante, o tempo. “Quando você faz vídeos, você trabalha com o tempo, com duração e com projeções da sua mente”, esclarece Bahri, ao Estado, em passagem pelo Brasil, para participar da abertura da sua exposição. 

Além da relação óbvia com o tempo na duração dos vídeos, a arte de Bahri, geralmente capturada em ruas da Tunísia, apesar de não falar diretamente sobre o assunto, trata da efemeridade ao captar contextos. Um dos trabalhos, Orientações, por exemplo, traz a câmera focada num copo plástico com tinta na mão do artista. Ao longo da filmagem, inúmeras pessoas param Bahri para saber o que ele está fazendo. “Acredito que isso aconteça também no Brasil, se você está filmando algo na rua, pessoas se aproximam e perguntam o que você está fazendo.”

Para o artista, a curiosidade das pessoas é algo especial. “Deixo essas intervenções porque são curiosas e deixam o trabalho com aspectos mais sociais e políticos”, explica o artista. “Esses aspectos aparecem porque as pessoas trazem a mim. Há o contexto de quando o vídeo é gravado, o que está acontecendo no mundo árabe.” Situações como a de Orientações tiram de Ismaïl o controle sobre o trabalho, mas o artista gosta que seja assim. “As surpresas e os acidentes quando estou filmando algo banal são muito importantes para mim.”

Um desses “acidentes”, como define o artista, é visto em Esboço, vídeo em que filma uma bandeira negra em praia do Mediterrâneo. Por um descuido, Bahri deixou a câmera com uma abertura de luz grande. “A câmera ficou superexposta e a bandeira e a paisagem ficaram brancas. Foi algo interessante, o tecido se tornou uma bandeira universal, que diz algo sobre a paisagem e também sobre o Mar Mediterrâneo.”

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No trabalho de Ismaïl, os objetos como o copo ou a bandeira se tornam, no vídeo, os protagonistas e instigam curiosidade. Em Linha, o foco é uma simples gota d’água num braço humano. Em Reverso, o artista amassa e desamassa, repetidamente, uma folha de jornal. Já em Foco, a única coisa visível é uma tela branca. “O olho procura por pistas ou sinais e se esforça para encontrar uma maneira de compreender a imagem, enxerga-a como um enigma a ser resolvido”, afirma, em comunicado, a curadora Marie Bertran, que assina a mostra com a diretora do Jeu de Paume, Marta Gili.

Um elemento que também ajuda a instigar a curiosidade no trabalho de Bahri é o áudio, ou a ausência dele, já que nem sempre o som está presente nas obras. “Às vezes o áudio é importante, mas ele também pode ser aparente nas imagens que você vê. Para mim, o som pode ser um pouco demais para o vídeo.”

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Com cerca de 10 anos de carreira, o artista acredita ser importante ver seus trabalhos, feitos em períodos distintos, condensados em uma exposição. “Quando revejo os vídeos juntos, encontro novos links entre os trabalhos. Cada um deles mostra um diferente experimento, e toda a questão de tempo e espaço é uma obsessão para mim.”

Apesar de não ser tão valorizado por colecionadores, Bahri exalta a importância do trabalho artístico em vídeo. “É um problema de mercado. Comprar vídeos é estranho porque eles estão na internet o tempo inteiro. Por isso, se tornaria algo menos precioso”, analisa o artista. “Mas para mim vídeo é algo muito importante, especialmente por ser parte tão fundamental em nossas vidas nos dias atuais.”

Para preparar a exposição, Ismaïl Bahri veio pela primeira vez ao Brasil há dois meses. Agora, ele espera descobrir se o público do País vai se relacionar com a sua obra. “A exposição é um experimento, para ver se o público se relaciona ou não. Estou curioso”.

ISMAÏL BAHRI

Esp. Cult. Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 610. Tel. 3226-7361. 3ª a sáb., 10 às 19h. Dom., 10 às 17h. Gratuito. Até 22/7.

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