Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Ismael Nery é relembrado em exposição no MAM, que reúne mais de 200 obras

Obra do artista paraense na mostra 'Feminino e Masculino' é marcada por ambiguidades e contradições

Pedro Rocha, Especial para O Estado

08 Maio 2018 | 06h00

Já beiravam 18 anos desde a última grande exposição sobre o paraense Ismael Nery, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil em comemoração ao seu centenário de nascimento, em 2000. A obra do pintor, porém, será agora relembrada no que deve ser a maior mostra já realizada sobre ele. Ao todo, 220 trabalhos seus desembarcam no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM, a partir desta terça-feira, 8, para relembrar sua trajetória de contradições e ambiguidades.

“Há toda uma geração que nunca teve a oportunidade de entrar em contato profundo com a obra dele”, diz o curador da mostra, intitulada Ismael Nery: feminino e masculino, Paulo Sergio Duarte. “Por isso se explica uma exposição desse porte.” A coletânea contempla praticamente todo o período de atividade do pintor até a sua morte, aos 33 anos - idade que ele soturnamente previu. 

“A exposição vem num momento importante, em relação a duas questões muito contemporâneas”, explica Duarte. Uma delas seria a constante busca de Nery por uma arte cosmopolita, diferente de outros nomes do modernismo no País, que procuravam uma linguagem nacional. “Ele estava sintonizado com movimentos internacionais. Queria ser mais cosmopolita que local.”

Não por acaso, além de períodos expressionistas e cubistas, sua obra ficou conhecida por sua característica surrealista. “Sua família possuía recursos e ele teve chances que outros artistas brasileiros não tiveram, de viajar para a Europa por temporadas longas”, relembra o curador. Na França, Nery conheceu André Breton pessoalmente, após o manifesto surrealista. Marc Chagall também virou grande influência. Um dos quadros em exposição no MAM, tem, inclusive, referência ao colega: Como meu amigo Chagall.

Por conta, também, do afastamento dos modernistas, a obra do pintor foi isolada e esquecida pelo menos até os anos 1960, quando foi ele incluído pela primeira vez na Bienal de São Paulo. “Ele tentou fazer exposições em vida, mas foram um fracasso. As pessoas não entendiam.” 

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A outra questão atual da obra de Ismael Nery é a discussão sobre gênero e sexualidade - esta, talvez, sua maior contradição. “O Ismael era católico apostólico romano, membro da Terceira Ordem Franciscana, mas um narcisista profundo, que explorou temas absolutamente ambíguos e ambivalentes na questão da sexualidade”, analisa Paulo Sergio. Tão narcisista, brinca o curador, que até um quadro com a imagem de Jesus possui suas feições. Em muitas das pinturas, Ismael se retratava de forma andrógina, assim como à sua esposa, a poeta Adalgisa Nery. Figuras masculinas e femininas se misturam.

Obras com orgia são isoladas

A exposição de Ismael Nery no MAM será dividida em grupos temáticos. Primeiro, os nus, seguidos de figuras em grupos e então os retratos e autorretratos. Por fim, obras surrealistas. Separados, porém, estão ainda desenhos de cenários teatrais, que nunca saíram do papel, e uma ala que foi criada após um pedido da assessoria jurídica do museu, com classificação indicativa de 12 anos, para apresentar desenhos que tratam de atos sexuais, o que o curador Paulo Sergio Duarte chama de “partouse”, nome francês para orgia. A preocupação, claro, vem da polêmica gerada no ano passado no MAM, com a performance La Bête, de Wagner Schwartz, quando uma criança, acompanhada da mãe, interagiu com o artista, que estava nu.

A importância das oito obras que integram a seção é justamente a discussão sobre sexualidade. “Não somente ele desenhou uma partouse, como ainda representou a ele próprio, Adalgisa e amigos como Murilo Mendes e Antônio Bento, que frequentavam sua casa”, explica Duarte. A questão ambígua do pintor está presente também na obra em maior destaque na mostra, Autorretrato (1927), em que Nery aparece, ao meio, sendo beijado por figuras atribuídas à Adalgisa e ao poeta Murilo Mendes, seu grande amigo. “É um trabalho chagaliano, que mostra como a cabeça dele oscilava entre Paris e Rio de Janeiro.” O quadro é destaque não por decisão curatorial, mas dos colecionadores - é a única protegida por uma estrutura de acrílico. “Só está aqui graças à família colecionadora, que pagou o seguro de 60 milhões de reais, muito elevado para o orçamento da exposição. ” 

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