Isaac Bábel, mestre do fragmento

Coletânea amplia possibilidade de contato do leitor com o ainda pouco conhecido escritor russo

Bruno Gomide, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Aos poucos, uma bibliografia babeliana vai se formando no Brasil. No contexto internacional, a recepção desse extraordinário escritor judeu de expressão russa ganhou corpo, com idas e vindas, desde a edição norte-americana de 1955, que contém uma famosa introdução de Lionel Trilling (um texto brilhante e problemático). Bábel se tornou um autor cultuado por pesquisadores da literatura soviética e da cultura judaica, e alguns livros e artigos excelentes lhe têm sido dedicados. Ainda pairam muitas dúvidas de caráter biográfico, mas a abertura de arquivos russos e o surgimento de memórias ajudaram a iluminar a sua esquiva personalidade. Bábel cultivou uma imagem de franqueza e força, pautada na valorização de um modo de vida sábio e vital. Ao mesmo tempo, foi uma figura altamente fugidia, cheia de mistérios, criadora de uma teia de ficções autobiográficas. Sua persona foi conscientemente moldada no mesmo registro de contraste e paradoxo que é a alma de seus contos.Despontou por aqui na década de trinta, em meio a uma embaralhada de citações de nomes. Nas parcas referências que lhe eram feitas, Bábel foi apresentado como um inequívoco exemplo da nova literatura soviética. A Revista Acadêmica, por exemplo, no número de julho de 1935, trazia um informe intitulado "Os escritores revolucionários nos falam de si mesmos: I. Babel e Boris Pilniak". Um "falar" de tons bastante ambíguos, diga-se, dado o ambiente do primeiro congresso dos escritores soviéticos, realizado um ano antes, e no qual Bábel se valeu de sofisticados circunlóquios para explicar o porquê de, afinal, não se manifestar artisticamente. O percurso continuou de forma mambembe em meados dos anos quarenta, quando apareceu uma tradução de A Cavalaria Vermelha atribuída de modo duvidoso a Jorge Amado. De lá para cá, Boris Schnaiderman o comentou e traduziu, e surgiram algumas dissertações de mestrado e coletâneas de contos, culminando com a recente tradução do rebatizado O Exército de Cavalaria (CosacNaify). A trajetória local de Bábel foi sem dúvida ajudada pelo fato de ele ter se tornado personagem de algumas narrativas ficcionais contemporâneas, como os romances Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca, e A Majestade do Xingu, de Moacyr Scliar. Aliás, essa ficcionalização local da figura de Bábel é um fenômeno bastante interessante e que mereceria um estudo.A esta pequena tradição vem somar-se este volume, Contos Escolhidos, traduzido do inglês por Cecília Prada, que tem o mérito de apresentar alguns contos inéditos em edições anteriores e de proporcionar uma visão de conjunto válida, além de bons aparatos críticos (de Cynthia Ozick, Nathalie Babel, a filha do escritor, Peter Constantine, tradutor do texto original, e uma cronologia de Gregory Freidin, professor de literatura russa em Stanford). A edição, contudo, mereceria uma revisão que eliminasse inconsistências na grafia de nomes, repetições de notas de rodapé e algumas palavras deixadas inexplicavelmente em inglês.O título da coletânea é enganador. Muitas editoras brasileiras já tiveram o vezo de vender coleções lacunares por obras completas. Aqui, temos um caso curiosamente inverso. O "escolhidos" não dá conta da abrangência apresentada, já que toda a prosa de ficção de Bábel está reunida neste volume, salvo umas poucas variantes e esboços. Nele figuram as narrativas que compõem os ciclos do exército de cavalaria e de uma colorida Odessa tramada à feição mediterrânea, além dos contos dispersos, escritos no período anterior e posterior à revolução. Talvez a escolha de um título modesto para a edição tenha sido inspirada pela dimensão exígua do material, mas é isso mesmo: tudo o que restou da obra de Bábel cabe em um único volume. Mesmo levando-se em conta que muita coisa deve ter sumido nos porões soviéticos, e esses manuscritos certamente se contam entre os mais procurados do século 20, é de se supor que a produção efetiva de Bábel, se restituída milagrosamente à integralidade, primaria pelo econômico. Somem-se os roteiros de cinema, algumas peças, o diário da campanha russo-polonesa, uma correspondência que é um primor de linguagem cifrada (uma mistura inquietante e complexa de elogio à perspectiva flaubertiana e ao "escrever para a gaveta" ditado pelos tempos soviéticos), e eis tudo. Sabe-se bem que Bábel é um mestre da concisão e do fragmento. Essa dimensão se tornou quase lendária, e foi sempre enfatizada pelo próprio escritor. Certa vez declarou que, enquanto Tolstói podia narrar minuto a minuto tudo o que lhe acontecera ao longo de um dia, ele preferia partir para os cinco minutos mais interessantes. Os cubo-futuristas queriam jogar os clássicos russos para fora do navio da modernidade. Bábel, de modo igualmente desafiador, queria condensá-los, e, assim, produzir aquele aguardado Messias literário banhado pelo sol da litorânea Odessa. Bruno Gomide é professor de literatura russa na Universidade de São Paulo

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