Irreverência no país das maravilhas

O cineasta gaúcho Jorge Furtado brinca até com hinos oficiais em sua versão da Alice de Lewis Caroll

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2008 | 00h00

Há traduções de Alice no País das Maravilhas destinadas ao estudo acadêmico, como a do poeta Sebastião Uchoa Leite, citada na capa deste caderno, e adaptações dirigidas ao público infanto-juvenil, entre as quais está incluída a de Monteiro Lobato, de 1931, que, se não chega a ser um exemplo de fidelidade, ao menos teve o mérito de apresentar às crianças brasileiras a menina curiosa de Lewis Carroll - que assume as feições de sua enfezada e impaciente Emília na versão do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Outros tradutores, entre eles Ana Maria Machado, tentaram abordagens diferentes, sendo a última mais reverente que a de Lobato.Em todo caso, foi a versão de Lobato que o tradutor Jorge Furtado buscou como modelo para trazer Alice à realidade brasileira. Não, ela não foi parar no Complexo do Alemão e nem está servindo de ''avião'' para traficantes de drogas. É a mesma Alice de sempre - embora sem o aventalzinho original, nas ilustrações da jovem designer carioca Mariana Newlands. Furtado e sua professora de inglês simplesmente não poderiam conservar objetos, expressões, poemas e canções que só fariam sentido para uma criança da época vitoriana. O cineasta dá um exemplo dessa dificuldade de adaptação, mencionando a seqüência em que Alice, chorando após espichar dois metros, afoga-se no lago de lágrimas até encontrar um rato nadador. ''Alice julga estar na praia, por causa da água salgada, mas não tem certeza, porque não vê cabines de banho dentro d''água, objetos da época vitoriana que serviam para manter a privacidade das senhoras e que uma criança brasileira jamais saberia o que é'', diz Furtado, que substituiu a anacrônica ''cabine de banho'' por guarda-sóis e esteiras.Já sua professora de Inglês, Liziane Kugland, observa que o pior mesmo foi traduzir os trocadilhos de Carroll sem ter que afogar as crianças num mar de notas de pé de página, como alguns tradutores de Alice. Existem, pelo menos, 15 traduções do clássico disponíveis no mercado brasileiro, desde adaptações para crianças, como a de Ruy Castro (Companhia das Letrinhas, ilustrações de Laura Beatriz, R$ 35) até edições anotadas e comentadas por intelectuais, como a organizada pelo americano Martin Gardner e traduzida por Maria Luiza Borges (Jorge Zahar Editor).Martin Gardner é matemático e, talvez, a maior autoridade em Lewis Carroll, bastante maluco para acreditar em pseudociência e discos voadores, mas suficientemente lógico para responder a seus opositores - Katherine Leach, entre outros - quando o tema sonho-dentro-do-sonho é evocado por literatos para explicar as recorrências por inversão em Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. Gardner foi pioneiro ao decifrar os trocadilhos e charadas de Carroll e localizar Alice num contexto científico, demonstrando que o crescimento randômico da garota não é apenas uma metáfora do seu desenvolvimento psicológico, mas um caminho para revelar as especulações do autor sobre um universo em expansão ou contração, que resultaria numa diminuição constante até sumir no nada. Anti-matéria não seria um tema ausente da Alice de Carroll, que, do outro lado do espelho, vê uma Alice invertida, que em tudo lembra os vestígios da garotinha engolida por um buraco negro - ou a toca do coelho que ela descobre no começo do livro.A tradução de Furtado não privilegia nem a visão científica nem a dicusssão de caráter lógico-semântico dos acadêmicos. Como se disse, essa tradução tenta criar, como a de Lobato, uma Alice brasileira, inserindo referências culturais nacionais. A professora Liziane cita um exemplo da liberdade antropofágica andradiana da dupla ao verter a história: a dança da Tartaruga Falsa, cujo tema musical, traduzido por Augusto de Campos e composto por Cid Campos, foi cantado por Adriana Calcanhotto e é facilmente memorizado pelas crianças. É a única nota de pé de página num livro de 170 páginas.Como se sabe, a história de Lewis Carroll - pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson - foi concebida também com o objetivo de criar exercícios de memorização para crianças em idade escolar, a despeito do gênero eleito pelo autor, um cruzamento híbrido de nonsense literário e conto fantástico. Escrito para três irmãs pelo reverendo Dogson - uma delas a ninfeta Alice Liddell, então com 10 anos -, o livro já foi traduzido em 125 línguas, incluindo o esperanto. A tradução de Furtado respeita a estrutura dos 12 (número cabalístico) capítulos de Alice, começando com sua descoberta do coelho branco, sempre atrasado e consultando o relógio, a perseguição ao bicho dentro da toca, a queda de Alice num poço sem fundo e a descoberta de uma pequena porta que desperta nela a curiosidade e a faz beber um líquido capaz de reduzir seu tamanho. Finalmente, após sobreviver a um naufrágio das próprias lágrimas, Alice entra no país das maravilhas, onde lagartas usam narguilé, chapeleiros malucos tomam chá e cartas de baralho são ameaçadas por uma rainha autoritária.Se a Rainha de Copas parece mandona na história, o Grifo (animal com cabeça de águia e garras de leão)é ainda mais fascista. Acordado pela tirana para levar Alice à presença da Tartaruga Falsa, o impertinente dá ordens para a menina cantar ''qualquer coisa'', sob protestos de Alice, reclamando que parece estar na escola. Na tradução de Furtado, Alice canta o Hino Nacional Brasileiro com letra trocada. ''Ouviram das pitangas, bergamota/Eu vi a tua vó virar cambota/Em cima de uma lata de compota/Eu vi a tua vó de cara torta!'' O Grifo, obviamente, não entende nada, como não entenderia mesmo se Alice estivesse cantando a letra original de Joaquim Osório Duque-Estrada. Esse tipo de brincadeira é muito comum em escolas que obrigam crianças a cantar hinos oficializados por decreto, cujas letras quilométricas não parecem fazer sentido para baixinhos do século 21.Tudo o que Jorge Furtado e sua professora Liziane Kugland não queriam era justamente assinar uma tradução impossível de ser compreendida sem notas de pé de página e longas explicações que fariam dormir um acadêmico da época vitoriana. No ano em que o mundo presta homenagem aos 110 anos da morte de Lewis Carroll, a dupla reverencia o autor de Alice com uma versão moderna, contemporânea, para a qual muito contribuem as sintéticas e originais ilustrações de Mariana Newlands.Trecho- Concordo plenamente com você - disse a Duquesa. - E a moral disso é... Seja o que parece ser... ou, se você quiser que eu fale de uma maneira mais clara... Nunca imagine não ser outra coisa senão o que possa parecer aos outros que você foi ou possa ter sido senão o que você tinha sido pareceria aos outros ser outra coisa.- Acho que eu entenderia isso melhor - Alice respondeu com toda a educação - se você me desse por escrito. Mas assim, falando, não estou conseguindo acompanhá-la.- Isso não é nada perto do que eu poderia falar, se quisesse - respondeu a Duquesa, num tom muito satisfeito.- Por favor, não se incomode de dizer nada mais comprido que isso - disse Alice.- Oh, incômodo nenhum! - disse a Duquesa. - Pode pegar para você tudo o que eu falei até agora, é um presente.''Que porcaria de presente!'', pensou Alice. ''Ainda bem que ninguém dá esse tipo de coisa de aniversário!'' Mas ela não teve coragem de falar isso em voz alta.- Pensando de novo? - perguntou a Duquesa, dando mais uma cutucada com seu queixinho pontudo.

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