Ironias digitais

Antigamente, antes da era digital, a indústria do disco era uma das mais poderosas e lucrativas do mundo. Em comparação com o livro, eram o primo rico e o primo pobre. Mesmo no gigantesco mercado americano, a desproporção era imensa: enquanto um raro best seller podia vender 1 milhão de livros, muitos discos vendiam facilmente mais de 5 milhões, vários chegavam a 10, 15 milhões.Agora o jogo está virando. Com a digitalização e a pirataria, no Brasil, hoje são poucos os artistas que chegam a vender 50 mil discos, enquanto a maioria, e mesmo nomes famosos, que vendiam 100 ou 200 mil, agora se dão por felizes com 20 mil. O livro, como não sofreu os efeitos da pirataria, conseguiu crescer. Hoje, um grande e merecido sucesso editorial como 1808 já vendeu mais de 500 mil livros e faz de Laurentino Gomes a nossa Ivete Sangalo, que é a número 1 do disco brasileiro e fica longe dessa marca em venda de CDs. Quem diria, hein? Que um dia, no Brasil, um livro, e ainda mais de História!, venderia mais do que um disco popular de sucesso?O público parece que gosta mesmo de História: os best sellers de Eduardo Bueno, A Viagem do Descobrimento e Náufragos, Traficantes e Degredados, só foram superados em vendas por raríssimos discos de sucesso no mesmo período.O grande livro de Ruy Castro sobre Carmen Miranda, além de informar, divertir e emocionar, vendeu muito mais do que os CDs com os maiores hits de Carmen. E, sorry pela autorreferência, os 120 mil livros da biografia de Tim Maia, com todo respeito, jamais seriam atingidos por qualquer disco do Síndico hoje em dia. São números que muito poucos lançamentos musicais de 2008 alcançaram. Apesar de um livro custar em média o dobro do preço de um CD.Agora, com o sucesso dos leitores digitais Kindle, da Amazon, o mercado literário vai passar por uma grande transformação. Os livros digitais terão incontáveis títulos disponíveis, serão muito mais baratos e acessíveis, mas também poderão ser copiados e pirateados como o bom e velho CD. Ou baixados online. E tudo voltará a ser como antes. Só que bem menorzinho.

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