Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Irmãs Márcia e Beatriz Milhazes preparam ocupação artística

Projeto vai unir cartas de amor e até música barroca

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2015 | 03h00

RIO - Pintora, gravadora e ilustradora, Beatriz Milhazes é um dos nomes da arte contemporânea de maior ressonância no mundo, classificada como a artista brasileira viva mais cara da atualidade, com obras vendidas na casa dos milhões de dólares em leilões internacionais. Bailarina e coreógrafa, Márcia Milhazes conduz uma das companhias de dança mais constantes do País, que conta 20 anos de espetáculos, passagens por palcos mundo afora e uma coleção de prêmios. 

As duas irmãs cariocas nasceram com apenas um ano e três meses de diferença - a primeira é de março de 1960 e a segunda, de junho de 1961 - e começaram a traçar suas trajetórias artísticas na mesma década de 1980. Desde então, a força poética das criações de Beatriz se junta às investigações físicas e sensoriais de Márcia na forma de cenário. Em dezembro, elas dão um novo passo nessa trajetória artística paralela. É quando será aberta a Ocupação Milhazes nos três andares do Oi Futuro do Flamengo.

Curiosamente, uma não vê o que a outra está criando para decidir em que direção seguir. “A parceria se dá de forma cuidadosa. Ela nunca se afasta da sua linguagem, mantém as questões dela, e as minhas são discutidas na coreografia. Nunca assistiu a um ensaio geral, só vê na estreia”, conta Marcia, que também agrega a mãe, Glauce Milhazes, responsável pela luz e coordenação de palco. “A gente não escapa de onde saiu. Eu e Beatriz não nos vemos uma sem a outra, o que é algo muito especial, porque não necessariamente a sua irmã vai ser sua melhor amiga.”

Beatriz tem se preocupado mais com a interação entre os elementos cênicos e os bailarinos - a altura, se o cenário é suspenso, a profundidade, se estão apoiados sobre o palco - desde que começou a “invadir” com mais ousadia o espaço usado por eles. “O cenário em espetáculo de dança está muito mais ligado ao conceito do que propriamente à movimentação dos bailarinos. Em geral, pode tudo. Dessa vez, resolvi ser o mais pacífica, ou passiva, possível, porque o prédio já tem muita indumentária. Será uma atuação de ritmo cromático nas paredes”, adianta a artista.

Uma concepção a princípio bem diferente da última parceira com Márcia, o espetáculo Camélia, para o qual criou uma instalação imponente: cinco enormes móbiles cromáticos, com cerca de 900 elementos pendurados, entre cristais, mandalas e flores, sob os quais os bailarinos se movimentavam em trio, duo ou solo. 

Na Ocupação Milhazes, que conta também com intervenções do pintor Chico Cunha, as cores e formas de Beatriz irão dialogar com a estranheza causada pela invasão da Márcia Milhazes Dança Contemporânea num espaço que não é da dança, uma vez que o centro cultural do Flamengo, antigo Museu do Telefone e atual abrigo do Museu das Telecomunicações, é focado nas artes visuais e na fotografia. 

Prédio inteiro. A ideia foi do curador Alberto Saraiva. “Já tínhamos um festival de videodança, mas queríamos a ocupação do prédio inteiro com uma reflexão sobre dança contemporânea. Márcia, Beatriz e Chico estão presentes cada um com sua identidade, dialogando, mas sem sair dos seus percursos”, diz Saraiva.

O olhar atento às raízes culturais brasileiras é um traço comum nas investigações das duas irmãs - enquanto o carnaval e as cores tropicais fazem parte do repertório de Beatriz, a caçula é ligada à música (na segunda metade dos anos 1980, rodou a China, França e Venezuela com Dançando Villa-Lobos) e à língua portuguesa (a obra de Machado de Assis a moveu a criar uma trilogia de espetáculos nos anos 2000). 

Nesse trabalho para o Oi Futuro, Márcia usa música barroca (três músicos vão tocar viola de gamba, violino, gaita de fole e cravo), com a qual vem trabalhando nos últimos anos, e se inspira em livros de reunião de cartas, por ver nelas “o lugar da verdade, onde você realmente é o que é”, ela define. 

“Medo, dor, alegria, liberdade, degraus de intimidade, é disso que se trata a Ocupação. Não me interessa olhar a forma, mas através dela. Dança não é só a questão plástica. A plástica precisa ter sentido para mim, é um acúmulo de sensações. Eu não uso texto, a minha voz é o corpo dos meus bailarinos, o gesto é o peso das palavras”, explica.

Beatriz confessa que só mantém a parceria em nome do afeto envolvido. “Se não fosse minha irmã e não houvesse essa boa comunicação, eu não faria. Eu gosto de dança, teatro e música como espectadora. Não tenho interesse em trabalhar nessas áreas, porque a minha própria já me consome de forma suficiente. Não sei se vai ser para sempre assim”.

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