Irmãos Coen levam quatro Oscars na festa dos 80 anos

Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen, foi o grande vitorioso da noite: melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante, para Javier Bardem

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

25 Fevereiro 2008 | 00h00

E o Oscar de direção foi para... os irmãos Coen, por Onde os Fracos Não Têm Vez, que também venceu a estatueta principal. Até o anúncio final, foi o Oscar mais pulverizado dos últimos anos - faltando pouco mais de meia-hora para o fim da cerimônia de entrega das estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o campeão da noite era O Ultimato Bourne, de Paul Greengrass, com três prêmios técnicos (melhores efeitos sonoros, melhor mixagem de som e melhor montagem). Outros filmes com mais de um prêmio eram Piaf - Hino ao Amor, de Olivier Dahan, vencedor nas categorias de melhor atriz (Marion Cotillard) e maquiagem; e justamente Onde os Fracos Não Têm Vez, que ganhou os prêmios de melhor roteiro adaptado (para os Coens, a partir do romance de Cormac McCarthy) e ator coadjuvante (Javier Bardem). Tudo sobre a entrega do 80.º Oscar A eles veio somar-se Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, que ganhou os Oscars de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e fotografia. Haviam grandes perdedores - Desejo e Reparação, de Joe Wright, com apenas um prêmio, o de melhor partitura (para Dario Marianelli) e Sweeney Todd, o Demoníaco Barbeiro da Rua Fleet, de Tim Burton, que ganhou a estatueta de melhor direção artística. Faltavam, a esta altura, as frases mágicas - relativas às categorias de melhor direção e filme, a última a ser anunciada. Os Coens venceram por seu western de crime e horror, que virou o favorito dos críticos - mas que no ano passado havia concorrido e nada levado no Festival de Cannes. Terminou sendo uma distribuição de prêmios inovadora. Melhor filme e direção para os norte-americanos e os quatro prêmios de interpretação para atores estrangeiros - mesmo que dois deles, os ingleses Daniel Day-Lewis e Tilda Swinton sejam figuras carimbadas de Hollywood. Os outros dois, que representam o cinema de língua não inglesa, a francesa Marion Cotillard e o espanhol Javier Bardem fizeram os agradecimentos mais emocionantes da noite. Ainda no tapete vermelho, a vencedora do prêmio de melhor atriz do ano passado, Helen Mirren - de A Rainha - , disse que o ano passado foi marcado por filmes fortes e grandes interpretações, mas que os homens estiveram melhores do que as mulheres. A própria vitória de Marion, por sua memorável criação como a ?môme? Piaf, desmentiu a afirmação da rainha. O Oscar de Piaf foi o primeiro de uma atriz francesa desde que Simone Signoret foi premiada por Almas em Leilão, de Jack Clayton, há quase 50 anos - mas o filme antigo era em língua inglesa. Foi um ano de muitas vitórias européias - a produção austríaca Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky, que já havia sido premiada no Festival de Berlim de 2007, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, apresentado por Penelope Cruz. John Stewart, apresentador de um programa de entrevistas satírico na CNN, confirmou-se um âncora muito divertido e perspicaz. Suas piadas foram invariavelmente políticas. Ele lembrou que o Oscar, como está fazendo 80 anos, vira automaticamente um forte candidato à indicação republicana para a presidência dos EUA. Comentando a atuação de Julie Christie em Longe Dela, de Sarah Polley, Stewart foi sarcástico. Disse que o filme conta a história de uma mulher (vítima de Alzheimer) que esquece o próprio marido. Foi uma grande inspiração para Hillary Clinton - sua piada provocou ondas de riso na platéia. O ano foi grande, acrescentou o âncora, menos para os filmes sobre a Guerra do Iraque, que fracassaram na bilheteria. Precisamos lutar, disse ele, mas se você esperava ver John Stewart advogar pela retirada dos EUA do Iraque enganou-se. O que ele disse é que não podemos deixar o público vencer. Os filmes sobre o Iraque precisam de tela. Sobrou até para Eddie Murphy. O vencedor, na noite de sábado, de três Framboesas de Ouro - como pior ator, pior ator coadjuvante e pior atriz coadjuvante, por Norbit - motivou outro comentário ferino de John Stewart. Ele achou legal que Norbit tivesse sido indicado (para melhor maquiagem) - afinal, a Academia de Hollywood nunca se lembra dos maus filmes. Mas Stewart brincou com sexo, também. Depois de observar que Cate Blanchett e Jessica Alba estão grávidas - mais tarde, ele acrescentou Nicole Kidman à lista -, acrescentou que a noite ainda era criança, Jack Nicholson estava na platéia e no fim da noite era bom fazer as contas de novo, para ver se não houve nenhum acréscimo. Brincadeiras à parte, a cerimônia já antecipou uma tendência logo no primeiro prêmio. O primeiro Oscar foi para os figurinos de Elizabeth - A Era de Ouro, de Alexandra Byrne - e a armadura de Cate Blanchett, na pele da lendária rainha inglesa, venceu o sexy vestido verde de Keira Knightley em Desejo e Reparação. O belo filme que Joe Wright adaptou do romance de Ewan McEwan configurava-se como foi - o grande perdedor da noite. Ratatouille, de Brad Bird, foi a melhor animação do ano. Bardem, claro, o melhor ator coadjuvante - não havia outro, mas aquele penteado exótico, parecendo uma armadura, certamente contribuiu, e muito, para a estranheza do personagem que representa o mal sem justificativas no filme dos Coen. A melhor canção foi Slowly, de Glen Hansard e Marketa Irgova, do musical irlandês Once. O Oscar de efeitos visuais foi para A Bússola de Ouro. A Academia deve ter brincado conosco. Os efeitos de Transformers, de Michael Bay, outro indicado, dão de dez nos da Bússola. Duas categorias que o espectador brasileiro raramente tem condições de conferir - o melhor curta do ano foi Le Mozart des Pickpockets e o melhor curta de animação, Pedro e o Lobo. O Oscar de Tilda Swinton, o único de Conduta de Risco, de Tony Gilroy, consagra a trajetória da atriz em Hollywood. No começo de sua carreira, ela foi musa de diretores de vanguarda como Derek Jarman. Tilda faz hoje pequenos papéis de prestígio em filmes de grande orçamento (e que em geral precisam de uma atriz classuda para se legitimar).

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