Inverdades verdadeiras

Romeu e Julieta, que se saiba, nunca existiram, o que não impede que milhares de turistas por ano parem numa calçada para admirar o balcão da casa dos Capuletos, onde a doce Julieta ouviu as primeiras juras de amor do inflamado Romeu, em Verona. Parece que ninguém em Verona jamais disse, oficialmente, que aquela era a sacada mais famosa do mundo. Um guia turístico empreendedor, e criativo, teria decidido que o balcão poderia ser o do quarto da Julieta, conforme a descrição do Shakespeare, e o incluído no seu roteiro. Afinal, uma ficção completava a outra. As pessoas que não se conformavam em visitar Verona e sair sem nem uma lembrança do casal de amantes, finalmente tinham o que contar em casa. Por que desmentir uma história tão bonita? O endereço de Sherlock Holmes era 221B, Baker Street. O endereço não existia quando Conan Doyle escreveu as histórias do seu detetive infalível. A numeração em Baker Street ia só até 100. Mais tarde, depois da Segunda Guerra Mundial, em que Londres foi bombardeada e muitos prédios da rua foram destruídos, um novo prédio localizado mais ou menos no local em que ficaria o apartamento de primeiro andar onde Holmes tocava seu violino, consumia sua cocaína ou sua morfina sob olhares de reprovação do dr. Watson - e resolvia seus casos, muitas vezes sem sair da poltrona - pediu permissão para usar o número 221B. E é neste prédio que continua a chegar, todos os dias, correspondência dirigida a Sherlock Holmes. Os turistas que visitam Baker Street também podem entrar no Museu Sherlock Holmes (que disputa com o outro prédio o direito de usar o 221B) para ver os objetos pessoais, incluindo os cachimbos, os bonés e, supõe-se, os chinelos de alguém que nunca existiu. Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, acreditava em espíritos, duendes e forças paranormais, coisas que seu herói super-racionalista desprezava . Doyle poderia alegar, numa discussão póstuma com sua criatura, que afinal estava certo: uma invenção literária cujos chinelos continuam reais depois de tantos anos é um exemplo indiscutível do poder da metafísica. A cidade de Cherbourg, no norte da França, ficou internacionalmente conhecida depois do filme Les Parapluies de Cherbourg, dirigido pelo Jacques Demy, com a Catherine Deneuve, música do Michel Legrand - que no momento está no Brasil. Um dos cenários do filme era a loja de guarda-chuvas da mãe da Catherine Deneuve, e quem visitava Cherbourg depois de ver o filme invariavelmente pedia para conhecer a loja. Não só não existia a loja do filme como não havia nada parecido com uma indústria de guarda-chuvas em Cherbourg para aproveitar a propaganda grátis. Cherbourg se tornara famosa por ter o que não tinha. Foi quando um comerciante local, que se lembrava de acompanhar as filmagens com 11 anos de idade, teve o estalo. Abriu uma loja que vende "les veritables" guarda-chuvas de Cherbourg, que ele mesmo fabrica e que já alcançaram o renome mundial que o nome da cidade garantiria. Ele nos contou que comercializa linhas de guarda-chuvas simples e mais elaborados para celebridades, políticos, nobres e quem mais quiser um "parapluie de Cherbourg" autêntico. Não está vendendo uma inverdade. Vende uma verdade que ainda não tinha se lembrado de acontecer. Dica: na região de Barneville-Carterel, perto de Cherbourg, tem dois hotéis, um maior chamado "Hotel des Isles", outro mais aconchegante chamado "Hotel des Ormes", ambos administrados pela gaúcha Flavia Araújo Santos e o marido, que, como dizem os guias turísticos, valem um desvio. De verdade. ''O fato de Romeu e Julieta não terem existido não tira o ânimo de milhares de turistas em Verona''''Museu Sherlock Holmes tem bonés,cachimbos e chinelos do personagem fictício de Conan Doyle''

Verissimo, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

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