Interpretação vale mais que texto

Essa é a premissa da rara - e esplêndida - montagem de Cymbeline, de Shakespeare, em cartaz no Sesi com grupo inglês

Crítica Mariângela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2008 | 00h00

Mais fiel ao espírito do teatro shakespeariano do que à letra, o espetáculo apresentado pela companhia inglesa Kneehigh Theatre é também mais profundo do que sugere o nome do grupo. Diante da tarefa de encenar Cymbeline, peça de trama complexa entremeada por digressões poéticas que exigiriam dos intérpretes e do público um estado anímico reflexivo, a direção de Emma Rice não se deixou afligir pela reverência. A poesia de Shakespeare foi desbastada para que a trama pudesse fluir agradavelmente, sem que os resumidos apartes, os extensos solilóquios e os diálogos meramente situativos atrapalhassem o andamento da narrativa. Desapareceram personagens, cenas inteiras e trechos de diálogos. O leitor que tenha entesourada na memória sua antologia shakespeariana pode deixar de lado a esperança de ver representado aquele pedacinho predileto. Trata-se de uma adaptação feita pela diretora sob a atualíssima bandeira da teoria que considera a interpretação mais importante do que o texto.Neste caso, a leitura da diretora não parte diretamente da peça, mas toma como ponto de referência o campo maior do teatro shakespeariano. Tal como o ilustre antecessor, esses artistas dos palcos de hoje querem se dirigir ao público com a candura de quem vive no mesmo tempo e partilha um repertório comum de conhecimento e preocupações. Para obter esse efeito de cumplicidade, as convenções do teatro elisabetano são traduzidas para o vocabulário da cultura popular. Trata-se, antes de tudo, de ser compreendido e uma senhora amável e não muito inteligente é introduzida no espetáculo com a função de mediar a estranheza da ficção.Trechos enxertados em diálogos e intervenções musicais que, no texto original, permitiriam ao espectador o devaneio entre o particular da história e a condição universal de todos os que vivem situações análogas são traduzidos na adaptação por vigorosas canções pautadas por ritmos contemporâneos e executadas por uma banda de jovens músicos que faria sucesso em qualquer parada. Está claro que o efeito desejado não é o de oferecer uma pausa para que o espectador possa esimesmar-se. Bem ao contrário, a música neste espetáculo tem o apelo de uma concepção poética que se endereça antes aos sentidos e, secundariamente, às emoções. Como referência ao espaço cenográfico do final do século 16 na Inglaterra, os músicos se situam na parte mais elevada da cena. Neste século, contudo, fazem mais do que secundar a ação dramática. A música tornou-se uma linguagem tão poderosa quanto a dramaturgia.Não só isso. A Kneehigh (e igualmente outras companhias inglesas de prestígio na atualidade) está encantada com a possibilidade de transmitir por meio do corpo dos intérpretes várias informações extraídas do texto. Legado fundamental para a cultura inglesa, o teatro elisabetano parecia depender unicamente da elocução e nesse particular os atores ingleses tornaram-se insuperáveis. Desde o fim dos anos 50 do século passado, alertados pelos teóricos franceses, os ingleses começaram a exercitar o signo corporal no maior dos seus autores dramáticos. Até hoje estão encantados com a novidade e este espetáculo é um primoroso exemplo da graça corporal aperfeiçoada, a ponto de tornar-se elemento de composição privilegiado para o efeito cômico. Não há complicações para definir as personagens, ou seja, são todas tratadas com um desenho de traços grossos, semelhante à máscara farsesca. A injustiçada e maltratada Imogen, por exemplo, namora e choraminga com a mesma voz fininha de uma moça infantilizada e submissa. É diversa a composição física, mais muscular e ágil do que a fala, preparando a personagem para centralizar, no final da peça, a energia amorosa do grupo familiar.Algumas das belas metáforas de Shakespeare ainda soltam faíscas aqui e ali, mas de um modo geral os jovens da peça praguejam como marinheiros bêbados, o casal real dialoga com termos prosaicos e tanto o ambiente cortesão quanto o cenário guerreiro têm importância diminuta. Emma Rice enraíza o simbolismo dessa confusão na família nuclear. Todos os símbolos, desde o quarto da menina até o aposento do casal real, remetem à casa fragmentada cujos filhos se distanciam em tramas rocambolescas e sem muito sentido. O fascínio da aventura romanesca consiste em dispersar para que os peregrinos, por rotas diferentes, conheçam a variedade do mundo e possam retornar ao ponto de partida espiritualmente engrandecidos. Acabou-se o romance, ao que parece. A casa paterna é o território desertado e, para velho rei Cymbeline, pouca importância têm a luxúria e o poder que se agregam à coroa. Por essa razão, a esplêndida alegoria final irmana personagens e público em uma celebração da história para ninar crianças. Uma história muito bonita recontada com a graça impertinente e a malícia a que as crianças de hoje têm direito. ServiçoCymbeline. 165 min. (intervalo de 25 min.). 12 anos. Teatro Popular do Sesi (456 lug.). Avenida Paulista, 1.313, 3146-7405. 3.ª a 6.ª, 20 h.; sáb., 16h e 20 h; dom., 17 h. R$ 5 (grátis 3ªa 5ª e dom.). Até 30/3

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.