Interessa a Belmonte a experiência humana

Há um cinema brasileiro, o melhor, que pretende ser autoral, investigativo da realidade (e da linguagem). O brasiliense José Eduardo Belmonte opera nessa vertente. Não representa pouco dizer que ele faz um cinema de equipe - seus filmes apostam na força do coletivo e até de realização ao ?grupo?, mas quem é do meio sabe que a autoria é dele. Com Belmonte, ocorre algo curioso. Durante boa parte da história do cinema brasileiro - e até mundial - o personagem muitas vezes foi tratado como sintoma social e/ou porta-voz das angústias e preocupações do diretor, instalado por trás das câmeras. Belmonte se interessa mais pelo humano. Ele não está sozinho, na nova geração, ao buscar no personagem a vivência, a experiência humana, e não a metáfora. Mas ele radicaliza, com sua criação coletiva.Personagens e situações nascem nos próprios locais em que o filme é feito (e respira). Se Nada Mais Der Certo é basicamente um filme de quatro personagens. Cauã Reymond, melhor ator no recente Cine Ceará, faz um jornalista que vive em São Paulo, enfrentando problemas no emprego. Ele não apenas ganha pouco, como não recebe, ou recebe atrasado, seu dinheiro. Cauã se liga a Luisa Mariani, que tem um filho e vive meio isolada, quando não sai para a noite, em busca de diversões radicais. Há também esta garota andrógina, que parece um menino (Carolina Abras) e um taxista (João Miguel). Esse grupo heterogêneo se une em torno de Carolina para aplicar um golpe.Formam uma estranha família, suprindo e, às vezes, agravando carências. Um pouco por trabalhar em grupo - talvez -, Belmonte faz filmes que refletem sobre o próprio coletivo. Esses personagens sozinhos são uma coisa. Em contato com os outros, se transformam. A crítica se constrói em duas linhas. Olha o interior desses personagens e sua inserção (ou falta de) no social. A Concepção sofria de um defeito um tanto infantil. Era um filme que queria agredir, escandalizar e, à força de tanto buscar o efeito, prejudicava a própria humanidade das figuras. Se Nada Mais Der Certo revela a força desse método. É uma história de gente despreparada, frágil demais para ser marginal. ServiçoSe Nada Mais Der Certo (Brasil/2008, 120 min.) - Drama. Dir. José Eduardo Belmonte. 16 anos. Cotação: Ótimo

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

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