Inteligência diluída em linguagem de baixo impacto

Saneamento Básico, se for preciso defini-lo, ajusta-se a uma comédia romântica e satírica, gênero bastante testado na televisão. O pressuposto é que a proximidade a uma linguagem com a qual o grande público está habituado (para não falar no elenco familiar em novelas e programas) irá atraí-lo para o cinema. A testar.Essa equação mercadológica determina a linguagem do filme. A ordem é não introduzir elementos perturbadores da comunicação, tais como movimentos de câmera inusitados, descontinuidade no texto narrativo, saltos de montagem, complexidade dos personagens, etc. Mesmo o recurso metalingüístico é usado com parcimônia, em registro já aceito pelo gosto médio brasileiro.Por outro lado, Saneamento Básico é exemplo acabado do ''''pragmatismo'''' detectado pelo crítico Ismail Xavier em determinadas produções. Ele as associa ao pragmatismo do próprio governo Lula, o ''''fazer o que for possível'''', expurgando a intervenção no real de qualquer dimensão utópica. Assim, em Saneamento temos, ao mesmo tempo, a denúncia da estrutura comprometida de financiamento ao cinema, e a aceitação, com êxito, dessas mesmas regras do jogo. Não cabe aos jogadores contestar regras e sim atuar dentro do campo que lhes é proposto. Se para conseguir o que seria de direito (condições sanitárias mínimas) for preciso trapacear com leis de incentivo, tudo bem e vamos em frente.Também é preciso dizer que existe aí uma sutileza, que procura desmontar o eterno dilema: como se justifica o dinheiro público aplicado em cultura em um país como o Brasil? Sabemos a resposta. O País, se quiser crescer mesmo, tem de investir tanto na construção de moradias populares como no incentivo à leitura e à feitura de filmes. Nessa visão estratégica, o feijão é tão imprescindível quanto o sonho. Essa é uma discussão que se precisa levar e, de preferência, sem preconceitos. Ela está nas entrelinhas deste filme inteligente, porém de baixo impacto pelas limitações auto-impostas de repertório cinematográfico.

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