Washington Alves/ Estadão
Entre janeiro e agosto de 2019, já computadas, portanto, as férias de janeiro e julho, o total de visitantes no Instituto Inhotim foi de 174.938. O fluxo anual considerado normal é de 350 mil visitantes Washington Alves/ Estadão

Instituto Inhotim está ameaçado, aponta auditoria

Relatório levanta dúvida quanto à continuidade do instituto que sofre queda de receita após tragédia de Brumadinho

Leonardo Augusto, Especial para 'O Estado'

01 de outubro de 2019 | 05h00

BRUMADINHO - As obras de artistas brasileiros e estrangeiros esparramadas pelos 140 hectares de jardins coloridos e lagos exuberantes do Inhotim já não são mais tão vistas. O maior centro de arte contemporânea a céu aberto do Brasil, e um dos mais importantes do mundo, registra hoje o que pode ser o pior momento financeiro de sua história, com queda nas receitas de ingressos e de contratos de projetos e convênios. A julgar pelos números, o cenário é dramático. A tal ponto que a empresa de auditoria Ernest & Young, responsável pela realização do balanço financeiro do Inhotim, alerta para a possibilidade de fechamento do museu.

Todos os indicadores que apontam para o quadro preocupante das finanças do centro, localizado em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte, são referentes a 2018 e anos anteriores, portanto, não refletem o impacto do rompimento da barragem da Vale no município, em 25 de janeiro de 2019. Isso torna o futuro do museu ainda mais nebuloso. Em relatório enviado aos administradores e conselheiros do Inhotim em 8 de julho, a E&Y afirma que o rompimento da barragem da Vale “afetou e tem afetado diretamente o Instituto Inhotim”. Entre janeiro e agosto de 2019, já computadas, portanto, as férias de janeiro e julho, o total de visitantes foi de 174.938. O fluxo anual considerado normal é de 350 mil visitantes. 

Em outro relatório, de 30 de julho do ano passado, elaborado com base no balanço de 2017, a empresa de auditoria, em tópico chamado de “Incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”, abordou pela primeira vez a possibilidade de fechamento do Inhotim. O texto diz: “Chamamos a atenção para as demonstrações contábeis, que indicam as ações tomadas pelo instituto diante da redução das doações recebidas no ano. Essas condições indicam a existência de incerteza significativa que pode levantar dúvida significativa (sic) quanto à capacidade de continuidade operacional do instituto”.

O presidente do Conselho de Administração do Inhotim, Ricardo Gazel, afirma que a nota “é praxe”, colocada quando ocorre mudança maior em algum fluxo de receita. O executivo confirma quedas nas receitas do instituto, influenciadas pelo surto de febre amarela no final de 2017 e em 2018, pela crise econômica e pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, mas nega que o Inhotim vá fechar.

A E&Y diz ainda que as “demonstrações contábeis foram preparadas no pressuposto de continuidade normal dos negócios do instituto, e não incluem quaisquer ajustes que seriam requeridos no caso de eventual paralisação e/ou descontinuação de suas atividades. Nossa opinião não contém ressalva relacionada a esse assunto”, finaliza a Ernest & Young. Em 2017, o Inhotim registrou doações de R$ 8,3 milhões, menos da metade do ano anterior: R$ 17,2 milhões.

A mesma nota de alerta foi colocada no relatório da Ernest & Young enviado ao comando do Inhotim em 8 de julho, relativo ao balanço de 2018. O alerta permaneceu, mesmo depois de as doações, naquele ano, terem atingido R$ 11,1 milhões - R$ 2,8 milhões a mais que em 2017. Por outro lado, a receita com ingressos caiu no mesmo período de R$ 8 milhões para R$ 6,3 milhões. Nos patrocínios e convênios, também em 2018 ante 2017, a redução foi de R$ 16,3 milhões para R$ 10,5 milhões.

Colocados de lado os números de balanços, apontados sempre como tão frios, passemos aos que não precisam de análises profundas para ser interpretados. Na rodoviária da capital, o ônibus que parte para o museu saiu, na sexta, 20, com 10 passageiros. No sábado, 19. E, no domingo, 13. Um homem, frequentador das plataformas de embarque da rodoviária de Belo Horizonte, comentou: “O dia que mais enche é quarta. Às vezes, saem dois ônibus”. Às quartas, a entrada no Inhotim é grátis. O veículo tem capacidade para 42 passageiros.

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Inhotim aposta em shows para melhorar o fluxo de turistas

Secretaria de Turismo de Brumadinho acredita que nomes famosos da música podem atrair público de volta

Leonardo Augusto, Especial para 'O Estado'

01 de outubro de 2019 | 05h00

BRUMADINHO - O estacionamento do Instituto Inhotim, com cerca de 900 vagas, tinha, por volta do meio-dia do domingo, 22, 94 veículos de passeio, um ônibus, um micro-ônibus e quatro vans. Na entrada, três dos seis guichês para compra de bilhete estavam em operação. Um aviso alertava para manutenção de seis galerias. Apesar da queda na receita, banheiros estão limpos, lixo recolhido e não há sinais de má conservação.

Também não há indícios de demissões. “Só sai quem quer”, diz uma funcionária, que pede para não ser identificada. Quem trabalha há mais tempo no Inhotim, no entanto, confirma o que está no relatório da Ernest & Young. “O movimento caiu por causa do rompimento da barragem. As pessoas têm medo de visitar o Inhotim”, afirma outro funcionário. O relato do mesmo contratado pelo museu mostra que ainda há falta de informação em relação à tragédia da Vale em Brumadinho. “Outro dia, um visitante me pediu para mostrar no mapa do museu o local em que a represa rompeu”, diz. O mapa a que se refere é o do Inhotim, recebido na entrada do museu. 

Reação. O secretário de Turismo de Brumadinho, Marcos Paulo de Andrade Amabis, diz que Inhotim pode, sim, fechar. “O custo operacional é muito alto”, aponta. O secretário relata os motivos que, conforme acredita, fizeram com que o instituto chegasse a essa situação. A incidência de febre amarela em Minas Gerais, entre o final de 2017 e o ano de 2018, reduziu a frequência de visitantes. Quanto ao recuo nos convênios e projetos, a culpa, segundo Amabis, é da crise econômica vivida pelo País no período.

“O Inhotim vinha se recuperando, mas aí veio a tragédia da Vale”, afirma o secretário, mencionando a última ponta do tripé que, acredita, prejudicou e vem prejudicando o museu. Conforme o representante da prefeitura, com o rompimento da barragem da Vale, que deixou 250 mortos e 20 desaparecidos, o turismo no município caiu 90%.

Para tentar aumentar o movimento no Inhotim foi criada uma campanha publicitária chamada “Abrace Brumadinho”, que durou do final de maio até agosto. “Demos muita ênfase ao museu. É o principal indutor do turismo no município”, realça o secretário. Outra tentativa de melhorar o fluxo de turistas é o aumento da frequência no número de shows no Inhotim, com espetáculos de músicos de renome.

“É uma apresentação a cada mês e meio. O ingresso é o mesmo para entrar no Inhotim, mas com número limitado de espectadores entre 3 mil e 3,5 mil pessoas”, informa também Amabis. Alcançado o limite, os turistas podem, no mesmo dia da apresentação, continuar acessando o museu, mas sem ver o show, conforme explica o secretário. “Dessa forma estamos tentando fazer com que as pessoas percam o medo de ir ao Instituto Inhotim”, diz ainda o secretário. As apresentações são feitas por patrocinadores via lei de incentivo à cultura. 

Procurado pelo Estado, Bernardo Paz, criador do Instituto Inhotim, não foi localizado.

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‘Não há risco de fechar, estamos conseguindo equilibrar as contas’

Ricardo Gazel, presidente do Conselho de Administração do Inhotim, minimiza efeitos da crise

Entrevista com

Ricardo Gazel

Leonardo Augusto, Especial para 'O Estado'

01 de outubro de 2019 | 05h00

BRUMADINHO - Ex-funcionário do Fed, o Banco Central dos EUA, o presidente do Conselho de Administração do Inhotim, Ricardo Gazel, afirma que o posicionamento da empresa de auditoria Ernest & Young sobre a possibilidade de fechamento do museu é praxe. “Quando tem mudança maior em algum fluxo de receita, colocam essa nota.” Gazel afirma que o museu não vai fechar. “Em nenhuma instituição cultural no Brasil sobra dinheiro. Estamos sempre buscando formas de cobrir despesas e racionalizar gastos. Ter estrutura mais enxuta”, diz Gazel, que acredita que o fluxo de visitantes está começando a se normalizar.

 

Relatório da E & Y sobre os balanços de Inhotim relativos a 2017 e 2018 aponta para a possibilidade de fechamento do instituto. O que levou o museu a essa situação financeira?

 

É praxe de toda companhia de auditoria. Quando tem mudança maior em algum fluxo de receita, eles põem essa nota. Não há nenhum risco de fechar. 

Inhotim registra constantes quedas nas receitas de ingresso e de projetos e convênios. 

A queda nos ingressos ocorreu por conta da febre amarela em 2018. Houve redução no fluxo de visitantes, que só foi se restabelecer por volta de outubro. A crise econômica obviamente teve impacto em algumas das receitas, mas tivemos aumento em outras, o que nos possibilitou fechar (o balanço) sem endividamento. 

 

Qual o impacto do rompimento da barragem da Vale no movimento em Inhotim?

Ficamos fechados por 15 dias. Depois disso muita gente imaginou que o Inhotim continuava fechado, que Brumadinho estava debaixo de lama. Depois teve a campanha “Abrace Brumadinho” para tentar retomar o fluxo de visitantes. Tem de lembrar que em qualquer museu do mundo ou instituição cultural, o fluxo de visitantes, a receita de entradas fica por volta de 20%, 25% do custo de manutenção. Agora, claro que quanto mais visitantes, mais empresas querem ter sua imagem associada à instituição. Houve redução de receita de ingressos, mas nossos parceiros vieram e estamos conseguindo equilibrar as contas.

 

O instituto procurou a Vale para solicitar ajuda financeira depois da tragédia? Teve sucesso na negociação? 

Sempre estamos em conversação com parceiros, e com a Vale especialmente. Depois da tragédia a empresa tem dado apoio a várias atividades. Não posso dizer quanto, mas aumentou este ano o patrocínio (da mineradora). 

 

Seis galerias estão em manutenção em Inhotim, conforme aviso na entrada do museu. Há quanto tempo? Qual o motivo?

Todos os anos terão galerias em obras. O monitoramento é contínuo. Várias serão reabertas agora em outubro.

 

O que está sendo feito para manter Inhotim aberto?

Aumentamos a programação cultural. Quando há um show, por exemplo, do Alceu Valença, há uma exposição muito grande na mídia. Todos ficam sabendo que o museu está aberto e com programação cultural. Estamos sempre buscando novos patrocínios e formas de cobrir despesas e racionalizar gastos. Inhotim não fecha. É uma instituição sólida. Não existe a menor possibilidade de fechar. O público já recuperou bastante. Estamos próximos do fluxo normal, que é de 350 mil visitantes/ano.

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