WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Instituto Casa Roberto Marinho recebe a coleção modernista do jornalista

A mostra 'Moderno 10 – Destaques da Coleção' foi inaugurada no sábado, 28

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2018 | 06h00

RIO — Nos anos 1930, Roberto Marinho (1904-2003) era um jovem jornalista que se aproximou de artistas de sua geração, como Portinari (1903-1962), Pancetti (1902-1958) e Guignard (1896-1962) e, com olhar atento e já àquela época treinado, passou a adquirir suas obras. A partir dali, formou uma coleção significativa desses e de outros pintores modernistas brasileiros. Passados 15 anos de sua morte, a Coleção Roberto Marinho, usualmente emprestada para exposições com este foco, será aberta ao público no recém-criado Instituto Casa Roberto Marinho.

A mostra Moderno 10 – Destaques da Coleção foi inaugurada no sábado, 28. No bairro ainda bucólico do Cosme Velho, a meio quilômetro a pé da estação do trenzinho que leva ao alto do Corcovado – o Cristo Redentor paira sobre o imóvel –, a residência cor-de-rosa da família, em estilo neocolonial, foi adaptada para virar centro cultural. A casa foi ocupada pelos Marinhos de 1939, quando foi construída, sob encomenda para eles, emulando o estilo de um solar pernambucano do século 19, até a morte de sua segunda mulher, Lily Marinho (1921-2011). 

O piano continua lá, mas sem os porta-retratos com imagens do clã. Os sofás, poltronas, cortinados, abajures, tapeçarias e pratarias foram retirados para que o espaço abrigasse as obras dos tais dez modernos: além de Portinari, Pancetti e Guignard, são eles: Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Ismael Nery, Djanira, Di Cavalcanti, Milton DaCosta e Burle Marx. Parte dessa coleção já adornava as paredes quando os moradores estavam lá; outra estava na reserva técnica – o conjunto tem 1.473 itens. 

São obras que Marinho comprou diretamente dos pintores, a quem frequentava e aos quais considerava promissores. Ele anteviu o que a crítica consagraria nas décadas seguintes. Entusiasta, divulgava o trabalho de Pancetti nas festas que dava na casa do Cosme Velho, nas décadas seguintes aberta ao mais alto estrato da sociedade carioca, artistas, empresários, estrangeiros ilustres e presidentes da República. Mandava pigmentos para que Guignard não precisasse economizar nas cores de seus óleos. Visitava o ateliê de Portinari e acompanhava seu processo de criação. 

As lembranças do bilionário proprietário do grupo Globo são guardadas pelos filhos, Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho, e os nortearam na abertura do espaço cultural. Ele comprava as obras pela emoção que elas lhe provocavam, diz o texto do catálogo, assinado pelos três (eles não deram entrevista). “Frequentava bienais e salões, galerias e ateliês, mas também adquiria quadros e esculturas para ajudar um artista em dificuldade”, contam na apresentação. 

São mais de 1.200 m² de área expositiva. Di, Guignard e Portinari ganharam salas individuais. A intenção é que o instituto seja um centro de referência do modernismo e do abstracionismo informal. Não há qualquer referência ao dono da casa – a não ser na varanda do seu antigo quarto, hoje a sala destinada a Portinari. Os recursos para abri-la e mantê-la são da família, que divulgou que não está usando leis de incentivo.

O acervo foi formado durante 60 anos, dos anos 1930 aos 1980. Os artistas mais bem representados são Nery, com 70 obras, Pancetti, 29, e Di, 23. O preferido de Marinho? Um singelo Pancetti, de 1939, chamado Boneco: sobre o óleo, escreveu: “Toda vez que olho esse pequeno quaro de Pancetti, tenho a sensação de estar olhando para dentro de mim mesmo. O menino que pressinto dentro daquele boneco vive em algum encantado recanto de minha infância”.

O arquiteto Lauro Cavalcanti, à frente do instituto, lembra que Marinho, ao alargar sua coleção, contou com consultores. Mas não amealhou as obras como forma de investimento. “Ele teve um bom olhar para as obras e para escolher os consultores. O último artista que comprou foi o Jorge Guinle (pintor da geração 1980)”, conta Cavalcanti, ex-diretor do Paço Imperial. “O foco da coleção é nos modernos, assim como o da casa. Não é fácil vê-los expostos.”

Para a abertura, foram convidados artistas contemporâneos que se debruçam sobre temas como arquitetura e casa, entre eles, Anna Bella Geiger, Daniel Senise, José Bechara e Luiz Zerbini. Na escadaria para o segundo pavimento, antiga área privada, há um belo Frans Krajcberg. As esculturas ficaram no belíssimo jardim, de Burle Marx: Carlos Vergara, Bruno Giorgi, Ascanio MMM, Raul Mourão, Beth Jobim, Maria Martins. Os flamingos que o habitavam foram levados para uma fazenda (o fluxo de visitantes lhes seria estressante, então as aves foram substituídas por carpas).

Na frente da construção anexa, nova e voltada a projetos educativos, está a única obra produzida pelo próprio Roberto Marinho, uma escultura em bronze de 1978, criada a partir de aulas que ele teve com uma artista. “Tem rico que não sabe ser rico. Roberto Marinho sabia”, classifica Vergara. “Usufruiu da vida dele, adquiriu arte e agora essa riqueza está sendo dividida.”

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