Fundação Bienal de São Paulo
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Instalação visual ‘Swinguerra’ registra juventude em movimento

Filme faz imersão em grupos que dançam ritmos populares do Recife, como o brega funk

Thaís Ferraz, especial para O Estado

23 de agosto de 2019 | 03h00

Três grupos de dança da periferia do Recife ensaiam para se apresentar em um campeonato. O Extremo, embalado pelo ritmo da swingueira; o La Mafia, que aposta no brega-funk, e o Passinho do Maloka, com um estilo de dança popular no Instagram.

É este o cenário que Swinguerra, instalação visual dirigida pelo duo Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Rise), retrata. Fruto de quatro anos de pesquisa, a obra musical-documental mostra a força que ritmos populares exercem sobre uma juventude também em movimento.

O principal é a swingueira – variante do pagode criada em Salvador, na Bahia. Fenômeno de música e dança que se desenrola sobretudo nas periferias, a swingueira se tornou popular na virada dos anos 2000 e conta, hoje, com campeonatos anuais. 

De olho nos torneios, jovens de 15 a 25 anos ocupam quadras de escolas públicas três vezes por semana para ensaios exaustivos. A partir de um tema, e com a ajuda de coreógrafos, preparam apresentações que serão mostradas ao júri das premiações.

“Nós queríamos entender o que era a swingueira, o que fazia com que tantos jovens se encontrassem semanalmente para ensaiar coreografias de uma dança que não faz parte da indústria, que não é rentável”, conta a diretora Bárbara Wagner. “Percebemos que, entre cruzamentos de ritmos e tradições, esses dançarinos estão desenvolvendo uma forma artística muito sofisticada”, afirma. 

Wagner e de Burca produziram, nos últimos seis anos, ao menos dez grandes projetos. Entre eles, estão Terremoto Santo (2017), que aborda aspectos sociais e estéticos dos cultos evangélicos na região da Zona da Mata, e Rise (2018), premiado no Festival de Berlim.

“Nos últimos anos, temos trabalhado com performances artísticas para a câmera”, explica Wagner. “E a swingueira é isso: não é um teatro, não é um palco, mas eles dançam na frente dos jurados”, afirma. “O filme foi mais complexo que os anteriores, porque levamos até o fim a ideia da coreografia e todo o aparato técnico para a captação das performances foi pensado e coreografado para duas telas”.

Comissionada pela Fundação Bienal de São Paulo, a obra foi selecionada para representar o Brasil na 58.ª Bienal de Veneza. Lá, foi exibida em dois canais, como exige a arquitetura do Pavilhão. Burca destaca o formato proporcionava diferentes experiências. “A música era sincronizada, mas você via diferentes ângulos em cada tela”.

Outros ritmos

Swinguerra não compreende apenas o universo da swingueira. Dois outros ritmos populares também são retratados no filme.

A dançarina Clara Santos, à época das gravações parte do grupo Extremo, conta que o brega-funk, dançado pelo grupo La Mafia, se popularizou nos últimos anos. “A swingueira começou a cair e o brega-funk cresceu muito”, afirma. O ritmo, surgido sob a influência do funk do Rio de Janeiro e São Paulo, é comandado por MCs que levam dançarinos aos palcos.

Protagonista do vídeo, a dançarina Eduarda Lemos afirma que o passinho também ficou muito forte nos palcos. “Hoje é bem misturado, brega-funk e passinho”, conta. “E você vê crianças de 4 a 14 anos já dançando passinho, é uma dança que está muito na pele popular do Recife”. 

Manifestos

Clara Santos acredita que a instalação registra a realidade dos grupos. “São nossos ensaios, tudo aquilo é de verdade”, conta. “O filme mostra a realidade da periferia.”

Há bastante simbologia em algumas escolhas. As gravações dos ensaios, por exemplo, aconteceram em espaços cedidos pelo CAIC (Centro de Atenção Integral À Criança e Ao Adolescente). “O campo de batalha é a escola, e o direito ao conhecimento é um grito no filme”, afirma Wagner.

Na cena mais icônica do filme, os dançarinos se apresentam em formação militar, com uma bandeira de fundo, em um espaço aberto no Campo dos Guararapes, sede da formação do exército nacional, em 1648. “É uma exigência de participação no sentido de cidadania, da periferia, de negros, de transgêneros”, afirma Wagner. “Na entrada da cidade, há uma placa dizendo ‘a pátria nasceu aqui’. Nós gravamos lá e reivindicamos um outro Brasil”, diz a diretora. 

Para a dançarina Eduarda Lemos, Swinguerra ajuda a destacar as danças populares do Recife. “A nossa arte, que não é valorizada, começa a ser em um filme como esse”, afirma.

Exibições

Também selecionado para o Festival de Locarno, na Suíça, Swinguerra ganha agora exibições em São Paulo, como parte das programações do 30.º Festival de Curtas e da comemoração do aniversário de 65 anos do Parque do Ibirapuera. Confira as datas:

  • 24/8 - Sábado - CineSESC. R. Augusta, 2075, às 17h.     
  • 24/8 - Sábado - Pavilhão da Bienal. Parque do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº. Das 9h às 19h, em loop.  Bate-papo e aula de swingueira com artistas das 14h às 15h30. 
  • 25/8 - Domingo - Cine Olido. Av. São João, 473, às 17h.
  • 30/8 - Sexta-feira - Centro Cultural São Paulo. R. Vergueiro, 1000, às 15h. 

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