Inhotim: um jardim de obras de arte que não escapa da crise

Inhotim: um jardim de obras de arte que não escapa da crise

Empresário acalenta o sonho de ampliar o parque, mas teve que reduzir o ritmo porque a China perdeu apetite pelo minério; veja

AFP

04 de setembro de 2015 | 11h22

O milionário brasileiro Bernardo Paz dedicou sua vida a construir, no jardim de sua casa, um lugar único no mundo, onde imponentes obras de arte contemporânea emergem das entranhas da floresta tropical.

Mas Inhotim, uma mistura de jardim botânico, museu ao ar livre e escola com o tamanho de quase 300 campos de futebol em Minas Gerais, no coração da indústria de minério, não está livre da crise econômica.

Paz, empresário de 64 anos com um ar de hippie chique, fez fortuna com a siderurgia e, nos últimos oito anos, construiu este destino que, embora distante do eixo Rio-São Paulo, atrai todos os anos quase meio milhão de visitantes de todo o mundo.

Ele ainda acalenta o grande sonho de ampliar o parque, mas teve que reduzir o ritmo porque a China perdeu apetite pelo minério, de onde este empresário obtêm a renda que financia um quarto do orçamento de Inhotim. O preço do principal ingrediente do aço despencou em meados de 2014 e continuou caindo até beirar hoje 50 dólares a tonelada.

Em Inhotim há cinco lagos tingidos com microalgas verde esmeralda ou turquesa, várias palmeiras "pata de elefante" de folhas finíssimas que caem até o chão como longas cabeleiras. Há mais de 330 espécies de orquídeas, inclusive dezenas de asiáticas com raízes aéreas que se nutrem do ar. Também há plantações de cactus com deliciosos figos-da-índia e venenosas batatas-do-inferno. Há também um tamboril, uma árvore centenária que parece tocar as nuvens. Há também um viveiro didático de 25.000 metros quadrados, bibliotecas, salas de aula.

Percorrendo diferentes trilhas em meio às 4.200 espécies de plantas nativas e estrangeiras - muitas em vias de extinção -, há centenas de obras de arte de mais de 200 artistas do mundo, ao ar livre ou em imensas galerias que se fundem ou contrastam com a natureza.

"O mundo está muito complicado. A China, que comprava uma parte do produto, não está crescendo como antes (...) e por isso tive que parar um pouco o desenvolvimento rápido" de Inhotim, contou à AFP este elegante homem de cabelos brancos e olhos azuis.

Uma viagem à infância. "A gente chega a Inhotim estressado, cansado da estrada e 40 minutos depois, vira criança, não quer sair daqui; as pessoas querem ficar", conta Paz, enquanto fuma um cigarro atrás do outro.

Paz quase não sai destes mil hectares - 140 deles, jardins abertos ao público e outros 100 de área protegida da floresta atlântica e cerrado -, onde mora com a sexta mulher, na casa dos 30 anos, e dois de seus sete filhos. Ele se desloca de um lugar a outro em um carrinho de golfe, supervisionando pessoalmente cada detalhe.

De alguns lugares de seu imenso jardim, a 60 km de Belo Horizonte (sudeste), terceira cidade do país, é possível ver e escutar escavadeiras e tratores barulhentos que extraem o brilhante mineral de ferro.

Na pequena cidade mineira de Brumadinho, a poucos quilômetros de Inhotim, os moradores lamentam o fechamento das minas e o corte de milhares de empregos em outras jazidas.

Mas tanto no bar quanto na igreja, Paz - filho de uma amante das artes comunista e um engenheiro - é recebido como um herói. Em 2006, ele criou este local maravilhoso, que emprega 800 pessoas, incluindo um exército de 72 jardineiros, e desenvolve incontáveis programas educacionais para os moradores da região.

"O senhor Bernardo é uma pessoa excelente, um visionário", diz Antonio Lopes, de 43 anos, ex-funcionário do parque que tem uma filha de 12 anos estudando violino de graça em um curso financiado por Inhotim.

A harmonia brota desta mistura de natureza e arte, incentivando a introspecção.

"Desvio para o vermelho", de Cildo Meireles, por exemplo, convida o espectador a fazer uma viagem do íntimo ao violento.O visitante entra descalço em um lugar bem iluminado onde tudo é vermelho: o tapete, os móveis, os quadros, a máquina de escrever, a folha vazia dentro da máquina de escrever, a geladeira, a fruta e as garrafas quando se abre a geladeira. Dá vontade de sentar no sofá vermelho e tomar um campari.

Seguindo o barulho de uma torneira aberta, avança-se tateando na escuridão total de um quarto contíguo, com passos trôpegos e temerosos, até finalmente encontrar uma pia iluminada que jorra jatos de tinta vermelha sem parar.

Depois desta agressão carmim, é um alívio voltar ao verde.

No "Sonic Pavilion", do americano Doug Aitken, microfones instalados a 202 metros de profundidade, fazem chegar à superfície e em tempo real os sons da Terra.

Na obra "Linda do Rosário", dentro da galeria de Adriana Varejão - quinta mulher de Paz, cujas telas superaram o milhão e meio de dólares em leilões internacionais - um grande muro destruído com azulejos brancos choca o espectador com um interior não de tijolos, mas de órgãos humanos.

"Uma semente para o mundo". Paz gosta de refletir sobre como viveremos daqui a cem anos ("comeremos sem transgênicos, nem agrotóxicos"), arte contemporâneo ("Veio para instigar a curiosidade, criticar o passado, os dogmas, a religião") e seu amor próprio ("Ainda atraio mulheres bonitas!").

Mas seu tema favorito são seus grandes planos para Inhotim.

"Imagino isto em mil anos", diz, embora admita que a crise o fez "retroceder cinco".

Com a economia brasileira entrando em recessão, depois de quatro anos fracos, Paz está dando "em adoção" as galerias de arte a empresas. A meta é reduzir o montante que põe do próprio bolso em Inhotim a cada ano: 2,5 milhões de dólares de um orçamento total de US$ 11,7 milhões.

O primeiro hotel butique, que Paz espera inaugurar em 2016, com atraso, ainda está em obras.

Ele também tem planos de desenvolver os 700 hectares ainda não abertos ao público com 28 novas galerias de arte, mais hotéis, um anfiteatro aberto, um teatro fechado e luxuosas vilas para que outros possam viver como ele, trabalhando à distância, sem sair deste oásis de paz.

"Inhotim será uma semente para o mundo", mas "trabalhar para construir para os outros um lugar de prazer é um sacrifício, é um inferno", admite.

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