Ingleses desfilam sóbrios e práticos

Sem dispensar o 'salto alto', estilistas interpretam, na passarela, a crise atual

Flávia Guerra, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

27 de fevereiro de 2009 | 00h00

Com dias a menos, e mais sobriedade, terminou ontem a London Fashion Week 2009. Esta é uma edição mais que simbólica da semana de moda que sempre teve a fama de unir tradição e pioneirismo. A LFW comemora 25 anos em pleno clima de "não descemos do salto, mas apertamos o cinto". E, em tempos de economic crunch, o que se viu nas passarelas foi o resultado do que vem assombrando a cabeça dos ingleses já há alguns meses. Nessa fase, é melhor investir em bens duráveis. O seguro morreu de velho nesta edição da semana de moda que tem a tradição de ser a que mais aposta em novidades e ousadias entre as semanas europeias. Até mesmo a House of Holland, famosa por suas estampas gritantes, frufrus, bolas e cores (muitas!), encerrou praticamente a mostra com uma proposta literalmente "ton sur ton". O dégradé gráfico escolhido pelo estilista Henry Holland para dar o tom do inverno chegou em jogos de verde-limão, pink e laranja, que evoluíam para tons mais sóbrios até chegar ao verde-exército. Desta vez, nada de flores nem figuras. O grafismo aparece nas formas quadradas dos ombros, com generosas ombreiras, corte reto, sequinho, rente ao corpo, e vestido com pouquíssimo, ou quase nenhum, volume. Quem encerrou o show foi a queridinha da grife, a top Agyness Deyn, que os brasileiros puderam conferir na passarela da Ellus em janeiro. A semana, que perdeu um dia por conta dos calendários apertados das semanas de moda da Europa (Milão começou no mesmo dia em que Londres se encerrou), precisou ser repensada. A sempre diva Vivienne Westwood e a dupla anglo-brasileira Basso & Brooke tiveram de dividir o segundo dia de desfiles. A badalada estreia da Twenty8Twelve, marca criada pelas irmãs Sienna (que, para não faltar a seu debut, voou direto de Hollywood, ou melhor, do Kodak Theater e da noite do Oscar, para Londres) e Savannah Miller fechou o terceiro dia. E Mario Schwab teve de dividir as atenções do terceiro dia, segunda, com nomes de peso como Paul Smith, Issa e Giles. Outro destaque foi o novato, mas já não tanto, Erdem Moralioglu. Canadense, causou sensação na edição passada e foi apontado como o new talent do momento. Desta vez, fez bonito de novo e não decepcionou. A mulher idealizada pelo estilista não segue modas nem se deixa levar por frissons de momento. Está mais preocupada em combinar peças que traduzem otimismo, excentricidade e muitas cores. "Minha cliente tem muita personalidade e faz a própria moda, sempre atemporal."Seguindo a lógica da praticidade em tempos de crise, ponto para Erdem! Verdade seja dita. A LFW ganhou praticidade, mas perdeu também um pouco do glamour. Mas não todo. Que o diga Mario Schwab. Patrocinado pela Swarovski (que também emprestou suas peças a alguns looks da House of Holland), o estilista trouxe uma proposta de "vestidos para festas e coquetéis. Simples, mas com um quê de glamour. Glamourosos, mas sem perder a noção do real". O resultado foram peças que pediram óculos 3D para serem mais bem "apreciadas". Seguindo a inspiração do "crystal rock formation" (a formação do cristal), Schwab trouxe basicamente minivestidos que reproduziam as pedras de cristal. Ora brutos, ora lapidados, mas sempre contemporâneos e práticos de usar. Destaque também para Issa, a grife que sempre bota o bloco na rua, ou na passarela londrina. Em plena segunda de carnaval, a estilista brasileira trouxe o desejo tropical em estampas de zebras e cores cítricas como o cenoura, com direito a decotes generosos e muitas costas à mostra. Destaque para a mezzo-brasileira Alice Dellal, que esbanjou seu ar contemporâneo em um curtíssimo zebrado e literalmente causou na passarela. Com apenas 21 anos, Alice, filha da ex-modelo Andrea Dellal (casada com o incorporador inglês Guy Dellal), é um "must see" do cenário fashion inglês. Seja qual look ela desfile, não há um único fashionista que não se derreta para sua mistura de ousadia pós-punk Tropicália. Quem sabe na próxima São Paulo Fashion Week, além de Agyness, algum fashionista brasileiro não leve para nossa Bienal outro must da moda inglesa.

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