Índia: o velho e o novo

O veterano Salman Rushdie lidera boom indiano que inclui o jovem Aravind Adiga

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

Vinte anos após ter decretada sua sentença de morte (fatwa) pelo aiatolá Khomeini, que o acusou de blasfêmia contra o Islã pelo conteúdo de seu livro Os Versos Satânicos, o escritor Salman Rushdie, agora sir do Império Britânico, volta às livrarias com uma fábula, A Feiticeira de Florença (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 408 páginas, R$ 54), sobre o encontro de duas culturas, a de Florença dos Médici e a do império mughal sob o comando de Akbar, o Grande. Em síntese, a tese de Rushdie, revelada em entrevista ao Estado sobre o livro, é que os ideais renascentistas florentinos também floresceram na corte de Akbar, no século 16.Simultaneamente ao lançamento do livro de Rushdie, chegam às livrarias outros títulos de escritores indianos da geração posterior à de Rushdie, como Amitav Ghosh (Maré Voraz, pela Alfaguara), Vikram Chandra (Jogos Sagrados, Companhia das Letras), Thrity Umrigar (Um Lugar para Todos, Nova Fronteira) e o livro de estréia do caçula da turma, Aravind Adiga (O Tigre Branco, Nova Fronteira), caracterizando um boom literário indiano no mercado brasileiro.Adiga é o mais novo vencedor do Booker Prize, o que o aproxima ainda mais de Rushdie, ganhador do prêmio por Os Filhos da Meia-Noite, em 1981. Se Adiga busca um anti-herói na sociedade indiana emergente do terceiro milênio, agora às voltas com terroristas, Rushdie voltou ao século 16 para contar a história de dois mundos, o do imperador Akbar e o do italiano Agostino Vespucci (renomeado Niccolò), um navegador que a todos conquista com sua beleza, seu carisma e certa dose de magia. Poliglota, Vespucci inventa uma história que o torna parente distante do imperador filósofo, contando histórias como a da feiticeira Qara Köz, entre outras que cruzam realidade e ficção ao evocar figuras como Maquiavel e a rainha Elizabeth I. Tudo embalado pelo espírito de Calvino, Borges e García Márquez, tempero que não agradou a todos os gostos, mas aprovado com poucas restrições por escritores como Joyce Carol Oates. Ela classificou o livro de Rushdie de "uma estimulante mistura pós-moderna de novela histórica e realismo mágico".O projeto inicial de A Feiticeira de Florença está completando dez anos. Como ele se transformou a ponto de eleger a novela histórica como modelo? A intenção sempre foi mesmo a de mostrar as semelhanças entre culturas aparentemente díspares como a florentina da época do Renascimento e a do império mughal?Sempre tive em mente encontrar um meio de ligar a cultura florentina dos Médici com a Índia do império mughal, dois mundos que, de fato, estabeleceram contato um com o outro na época, isto é, século16. Como se tratava do auge de ambas as culturas, considerei a hipótese de confrontá-las, o que exigiu anos de pesquisa histórica e uma extensa bibliografia, insatisfatória até encontrar em Orlando Furioso a história da princesa indiana de que precisava, provavelmente a irmã perdida de Babur que foi para o Ocidente e se transformou na princesa de Ariosto.No livro há personagens reais com nomes trocados, como Niccolò Vespucci, também chamado de Mogor dell?Amore, e outros com o verdadeiro, como Maquiavel. Em certa medida, Niccolò, ou Agostino Vespucci, parece um alter ego seu, considerando que ele conta uma história fantástica apenas para fazer crer seu interlocutor que existem mais coisas em comum entre Oriente e Ocidente do que este imagina. Essa também é sua função como literato?Niccolò tem o mesmo projeto que eu tenho, o de tentar convencer alguém da veracidade de sua história, mas diria que o meu é mais modesto, uma tentativa de construir, como escritor indiano, uma ponte interna entre Oriente e Ocidente. Tentei achar conexões entre as duas culturas e cheguei à conclusão de que a verdade é até mais estranha que a ficção.

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