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IMS promove exposições de Madalena Schwartz, Mário Cravo Neto e Walter Firmo

Instituição é hoje a principal referência da fotografia no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 05h00

Com um acervo de 2,5 milhões de imagens registradas por mais de 300 fotógrafos entre os séculos 19 e 21, parece natural que o Instituto Moreira Salles (IMS) seja hoje a principal referência da área no País. E já começa a temporada, em fevereiro – ainda em plena pandemia – com a mostra Metamorfoses, de uma fotógrafa bem adiante de seu tempo, Madalena Schwartz (1923-1993). Ela teve sua obra (16 mil negativos em preto e branco e 450 cromos) adquirida pelo IMS em 1998, destacando-se uma série pioneira com retratos de travestis e transformistas feita nos anos 1970, reunidos no livro Crisálidas, que o instituto publicou em 2012. Sobre essa e as outras exposições do ano, o superintendente executivo Marcelo Araújo e o diretor artístico do Instituto Moreira Salles, João Fernandes, falaram com exclusividade ao Estadão.



Depois da mostra de Madalena Schwartz, que tem como curadores Samuel Titan Jr. e Gonzalo Aguiar, o IMS promove em março uma grande retrospectiva com mais de 300 obras do fotógrafo, escultor e cineasta baiano Mário Cravo Neto (1947-2009), imagens escolhidas pelo curador e crítico Luiz Camilo Osório, todas provenientes do acervo do artista, sob a guarda do IMS em regime de comodato. 

Outros fotógrafos vão ocupar a sede paulistana do instituto este ano, entre eles o carioca Walter Firmo (em julho), que fixou seu nome na fotografia brasileira como autor de marcantes retratos de músicos, como Caetano Veloso, Cartola, Chico Buarque e Pixinguinha – é dele a mais icônica de suas fotos. Ainda no segundo semestre, o premiado fotógrafo japonês Daido Moriyama, que completa 83 anos, volta a São Paulo. Ele tem no Japão um papel muito semelhante ao que Madalena Schwartz representou nos anos 1970, registrando a cena underground paulistana. A curadoria é de Thyago Nogueira.

Duas grandes escritoras serão homenageadas nesta temporada pelo IMS paulistano: em junho, será a vez da mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), que se tornou símbolo de um país marcado pela desigualdade social: negra e pobre, ainda assim ela conseguiu vencer todos os obstáculos e ficou internacionalmente conhecida, em 1960, ao publicar Quarto de Despejo, traduzido em vários países. A curadoria da mostra é do antropólogo Hélio Menezes e da historiadora Raquel Barreto.

Um mês depois, ainda como parte das comemorações do centenário de nascimento de Clarice Lispector (1920-1977), o instituto abre uma exposição multidisciplinar (Constelação Clarice) com curadoria do poeta carioca Eucanaã Ferraz e da romancista gaúcha Veronica Stigger. Todas as telas pintadas pela escritora serão exibidas na mostra, além do retrato que o pintor metafísico italiano Giorgio De Chirico fez dela nos anos 1940.



Fora de São Paulo ainda estão programadas mostras do fotógrafo de origem alemã Peter Scheier (1908-1979), no IMS Rio, com curadoria de Heloisa Espada, e Limercy Forlin (1921-1986), no IMS de Poços de Caldas, cujo acervo foi doado ao instituto por seus herdeiros em 2016. O curador e também pintor Teodoro Stein Carvalho Dias selecionou imagens produzidas por ele em seu estúdio entre 1958 e 1982.

O fato de duas escritoras integrarem a programação de 2021 não deve ser visto como um desvio de rota. Será, com certeza, difícil imaginar uma escritora capaz de transformar imagens em palavras como Carolina Maria de Jesus, como assinala o diretor artístico do IMS, João Fernandes. “Além disso, era ligada ao universo musical, compondo e desenhando os próprios figurinos do carnaval”, diz. Como se sabe, além de fotografia, o acervo musical do instituto é vasto – mais de 50 mil discos disponíveis em seu site, segundo o superintendente Marcelo Araújo, que conta com um orçamento generoso para programar com antecedência as exposições – R$ 50 milhões por ano. 

Isso possibilita, por exemplo, organizar uma retrospectiva como a do grande fotógrafo e cineasta norte-americano Gordon Parks (1912-2006) no próximo ano. Parks, pobre e negro como Carolina de Jesus, nasceu no Kansas e comprou sua primeira câmera numa loja de penhores. Via no instrumento uma arma contra a intolerância e a segregação racial. E subverteu padrões hollywoodianos ao dirigir, em 1971, Shaft, que tinha como protagonista um detetive negro, filme pioneiro no gênero blaxploitation.

Outros nomes anunciados pelo diretor artístico João Fernandes são os artistas conceituais Lothar Baumgarten, um alemão de Rheinsberg que foi discípulo de Josef Beuys e Helena Almeida (1934-2018), performer portuguesa de Lisboa que, no ano de sua morte, foi homenageada pela Tate Modern com uma retrospectiva em que se destaca uma de suas mais conhecidas obras, Pintura Habitada (1975), intervenção pictórica sobre uma fotografia em preto e branco que sintetiza sua meta de autorrepresentação. “Em contrapartida, estamos mandando para a Europa exposições concebidas e montadas aqui, como a da fotógrafa Cláudia Andujar, que passou pela Fundação Cartier e agora está na Trienal de Milão”, comemora Fernandes.

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