SERGIO LARRAIN / MAGNUM PHOTOS
SERGIO LARRAIN / MAGNUM PHOTOS

IMS Paulista mostra uma das produções mais intrigantes de Sérgio Larrain

Exposição 'Sérgio Larrain: Um Retângulo na Mão' seleciona 140 fotografias para narrar o percurso criativo do fotógrafo chileno

Simonetta Persichetti, Especial para O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2019 | 03h00
Atualizado 17 de junho de 2019 | 14h38

Sérgio Larrain, fotógrafo chileno (1931-2012), em poucos anos de atividade fotográfica construiu um legado imagético muito próximo de um legado poético. Em cada imagem, uma pequena história, uma pequena narrativa que nos convida a olhar. Filho de uma abastada família chilena, foi nos Estados Unidos enquanto estudava nos anos 1950 que começou a fotografar. A sua vontade sempre foi a de registrar, ou melhor, a de narrar a vida de seus conterrâneos, as crianças das ruas de Santiago, os pescadores da ilha de Chiloé, sua querida Valparaíso. Um olhar educado, mas que buscava liberdade de criar. Uma imagem livre, aparentemente despretensiosa, mas muito bem construída. A espera da imagem, mas também a surpresa do acaso, do encontro. Não era diferente quando saía pelo mundo fotografando. Uma busca incessante de se comunicar com e pela fotografia. 

São estes flagrantes, 140 fotografias, selecionadas de seu arquivo pela curadora Agnès Sire, diretora artística da Fundação Cartier-Bresson, que estão expostos no IMS (Instituto Moreira Salles) em São Paulo até 25 de agosto. Uma edição que narra o percurso criativo de Larrain. Ironicamente, a mostra recebeu o nome de Sérgio Larrain: Um Retângulo na Mão, nome de seu primeiro fotolivro. Irônico ao pensarmos na ideia dele acreditar que carregava um retângulo na mão, mas que nas suas fotografias é exatamente o contrário que encontramos, nos deparamos com a fuga do rigor técnico e achamos a liberdade criativa da linguagem.

Em 1958, durante uma viagem a Londres, conhece o fotógrafo francês Henry Cartier-Bresson, que, ao tomar conhecimento de suas fotografias, o convida a participar da Agência Magnum. O fotojornalismo, porém, é muito pequeno para Sérgio Larrain cumprir pautas. Como bom profissional, cumpre o que lhe pedem, mas nas suas fotografias sempre tem uma que escapa, que se “rebela”. Sua passagem pela Magnum dura pouco. Ele precisa se sentir solto, voltar ao seu Chile, retornar às suas ruas, seus passeios e devaneios. Mas não foi esta a única experiência de Larrain com o fotojornalismo. Na edição brasileira, a mostra ganhou uma sala com o material realizado pelo fotógrafo para a revista O Cruzeiro Internacional (versão espanhola) entre 1957-1960.

A pesquisa e a seleção das reportagens foi feita por Miguel Del Castillo, curador da biblioteca de fotografia do IMS Paulista, e Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS. Na época, a revista O Cruzeiro era uma das mais lidas do país e criou una versão internacional para concorrer com a lendária revista norte-americana Life. No total, são 12 reportagens com fotos e textos do próprio Larrain. Por este seu flerte com o fotojornalismo, muitos estudiosos tentam etiquetá-lo dentro desta estética, fato que é refutado pela própria curadora, e pelo cocurador Miguel Del Castillo: “Suas fotos resistem a classificações: não se enquadram totalmente no novo fotojornalismo promovido pela Life ou mesmo pela Magnum, tampouco nos critérios fechados da fotografia moderna. Com ênfase no ser humano, seu ‘estilo’ era marcado por composições nada óbvias, em que o chão se faz muito presente, os horizontes aparecem muitas vezes inclinados, e figuras surgem desfocadas em primeiro plano, como a observar a foto que acontece atrás de si”.

Sergio Larrain é um poeta da imagem, um espírito solto que registra aquilo que o encanta, em especial, o cotidiano das ruas. No fim da década de 1960, se afasta das cidades, da fotografia, entra em contato com as filosofias orientais, prefere viver recluso no povoado de Tulahuén. Suas fotografias, porém, o deixaram em contato com o mundo. Nelas encontramos o que nossa sociedade perdeu, a calma, o silêncio, mas acima de tudo, o poder da contemplação.

SÉRGIO LARRAIN

Terça a domingo e feriados, das 10h às 20h. Quinta, das 10h às 22h. IMS Paulista. Av Paulista, 2424. Gratuito

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