Luciano Carneiro/Instituto Moreira Salles
Luciano Carneiro/Instituto Moreira Salles

IMS lança livro sobre o cearense Luciano Carneiro, que transformou o fotojornalismo brasileiro

Fotógrafo retratou a Guerra da Coreia e acompanhou a entrada de Fidel Castro em Havana

Simonetta Persichetti, Especial para o Estado

21 de outubro de 2020 | 05h00

“Amigos, acabamos de enterrar um raio de sol!” – foi com essa frase que a escritora cearense Rachel de Queiroz se despediu do seu amigo, o fotojornalista Luciano Carneiro, nas páginas da revista O Cruzeiro. O ano, 1959. A idade, 33 anos. Muito cedo, para quem havia começado garoto, muito cedo para quem prometia ser – e foi – um importante fotojornalista brasileiro.

Nascido em Fortaleza em 1926, fez do jornalismo a sua linguagem para contar ao mundo o que via e mais: o que precisava e merecia ter visto. Iniciou no Correio do Ceará, aos 16 anos. Inquieto, também tirou brevê de piloto e foi estudar Direito. Foi um passo para reunir as duas paixões: o jornalismo e a aviação. Ironicamente, morreu num acidente aéreo próximo à cidade do Rio de Janeiro, quando retornava de um trabalho em Brasília: fotografar o primeiro baile de debutantes da nova capital, às vésperas da inauguração.

Criado na luz do Ceará, educou seu olhar para a potência das suas imagens, os contrastes, as formas, as fotos aéreas. Em 1949, a convite de Assis Chateaubriand, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a fazer parte da equipe fixa da revista O Cruzeiro, onde trabalhou entre 1948 e 1959. Iniciou como repórter de texto para, em seguida, passar para a fotografia. Foi correspondente escrevendo e fotografando, cobriu a Guerra da Coreia em 1950-1953, entrou na ex-União Soviética em 1957 e, em 1959, acompanhou a entrada de Fidel Castro em Havana.

A inovação em seu trabalho, talvez, foram as 18 matérias que escreveu e documentou com suas fotografias para a revista em 1956. Ele mesmo escolheu o título da coluna, “Do Arquivo de um Correspondente Estrangeiro”. Nos textos e nas imagens, fotos alheias às coberturas, fotos de rua de um olhar leve e nas quais expunha suas opiniões. A morte precoce o deixou bem guardado nas páginas da revista O Cruzeiro, muito tempo escondido. Em 2012, o Insituto Moreira Salles organizou uma exposição com 150 imagens que estavam sob a tutela da família de Luciano. 

Agora, o IMS lança o livro Luciano Carneiro: Fotojornalismo e Reportagem (1942-1959), uma parceria com a Fundação Demócrito Rocha e com apoio da Secretaria de Cultura do Ceará. A publicação é resultado de uma profunda pesquisa realizada por Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, nas quase 25 mil imagens arquivadas nos Diários Associados, em Minas Gerais. “É muito interessante perceber o esforço de representação e interpretação de culturas diversificadas nas páginas da revista”, relata Burgi.

O livro, além das fotos, traz também reprodução de páginas da revista, o que permite perceber como suas fotografias foram publicadas. A modernidade do seu olhar é impactante, e nos recorda as imagens de fotógrafos como W. Eugene Smith e Cartier-Bresson, que publicavam na revista Life e a quem Luciano Carneiro admirava. Há a influência, mas também uma originalidade: “sua estética era muito elaborada, seu olhar sofisticado”, relata o fotógrafo cearense Tiago Santana, autor de um texto sobre o fotógrafo no livro. “Pena que tenhamos demorado para conhecê-lo melhor. Com o livro, percebemos que temos muito ainda a aprender com Luciano Carneiro.” 

Com um time de fotógrafos como José Medeiros, Flávio Damm, Luiz Carlos Barreto, Henri Ballot e Eugênio Silva, ele transformou o fotojornalismo brasileiro, deixando de lado o “espetáculo” trazido por Jean Manzon para se voltar à uma fotografia mais jornalística e humanista. 

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