GABRIELA BILO / ESTADAO
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IMS abre hoje retrospectiva da fotógrafa Claudia Andujar

Ocupando dois andares do instituto, exposição reúne 300 imagens dos índios Yanomami, que ela conheceu em 1971

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2018 | 06h00

Hoje reduzidos a pouco mais de 24 mil indivíduos no Brasil, os índios Yanomami já enfrentaram todos os tipos de doença que o contato com os brancos transmitiu à tribo do Norte da Amazônia. Por denunciar as consequências do contínuo desrespeito à demarcação do território indígena dos Yanomami, a fotógrafa Claudia Andujar, hoje com 87 anos, foi expulsa pelo regime militar e impedida de voltar à região do interflúvio Orinoco-Amazonas em 1977. Mas não desistiu, criando um ano depois, com a ajuda do antropólogo Bruce Albert, a Comissão pela Criação do Parque Yanomami. Ainda hoje seu trabalho encontra resistência. O Facebook tirou do ar há poucos dias um vídeo seu por causa da nudez dos índios, que só voltou a circular graças ao protesto do Instituto Moreira Salles (IMS), que homenageia a fotógrafa, a partir de hoje, com a retrospectiva Claudia Andujar - A Luta Yanomami, mostra com 300 imagens da fotógrafa e ativista.

Em entrevista ao Estado, Claudia, acompanhada do missionário que a introduziu no universo Yanomami, Carlo Zacquini, lembra que esse primeiro contato se deu em 1971, mesmo ano em que foi decidida a construção da primeira usina nuclear brasileira. “Eu não falava a língua Yanomami e um amigo etnólogo me sugeriu que procurasse o Carlo em Boa Vista”, recorda. Logo se estabeleceu entre ela, o missionário e os Yanomami uma empatia que garantiu à fotógrafa registrar tanto as atividades cotidianas como os rituais xamânicos da tribo – amanhã, 16, o líder indígena Davi Kopenawa conduz um desses rituais no IMS, além de participar de uma conversa hoje, às 11 horas, com a fotógrafa e o curador da mostra, Thyago Nogueira.

Dividida em dois andares, a retrospectiva cobre diferentes períodos da atividade de Claudia Andujar no território Yanomami. No primeiro andar, estão as fotos produzidas entre 1971 e 1977, na região do Catrimani, em Roraima, graças a uma bolsa da Fundação Guggenheim. No segundo andar estão agrupadas imagens com uma abordagem mais política dessa atividade, quando a fotógrafa registrou as consequências dos planos desenvolvimentistas do governo para a Amazônia, entre os anos 1970 e 1980. Especialmente o garimpo e a abertura de estradas levaram para a comunidade indígena doenças e violência, até que a terra dos Yanomami fosse homologada, em 1992.

Nesse segundo andar está uma das séries mais conhecidas da fotógrafa, Marcados, apresentada na 27ª. Bienal de São Paulo. Nela, os Yanomami são identificados por números nos cadastros de saúde e vacinação, remetendo às fotos dos prisioneiros de campos nazistas. Claudia, filha de pai húngaro judeu, morto num deles, diz que só pensou 'a posteriori''nessa relação analógica.

Reorganizamos os arquivos e contextualizamos as imagens desses cadastros, resgatando ainda uma instalação histórica que ela fez em 1989, obra didática em que Claudia introduz o visitante ao mundo dos Yanomami”, conta o curador Thyago Nogueira, revelando o interesse do IMS em cuidar do arquivo da fotógrafa, que tem mais de 40 mil negativos.

Claudia ainda não decidiu o destino desse acervo, mas considera “importante” preservar o conjunto da obra, que tem documentos como as séries que realizou com o marido fotógrafo George Love (1937-1995) na Amazônia, em 1978, e seu trabalho para publicações como a revista Realidade, pioneira na publicação das fotos dos Yanomami. Não foi a primeira tribo fotografada por ela. Nos anos 1950, ela mostrou suas fotos de índios para o colega Edward Steichen, então diretor do MoMA, que a incentivou. Em 1959, fotografou os carajás, depois os bororos e os alegres xicrins. São, portanto, 60 anos de convívio dessa suíça de alma brasileira com os índios. 

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