Impure Company ''rouba'' sua dança pelo mundo afora

Hooman Sharif conversa com Alejandro Ahmed, do Cena 11, sobre inspiração e parceria em espetáculo que estréia amanhã

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

Das quatro oportunidades distintas, duas já foram realizadas no Sesc Santana, e duas ocorrem a partir de hoje, no Sesc Avenida Paulista. Na semana passada, Hooman Sharifi (Noruega/Irã) apresentou seu solo, We failed to hold this reality in mind (Falhamos em manter essa realidade na mente) e depois, os quatro bailarinos da companhia que dirige, a Impure Company, dançaram God exists, the mother is present, but they no longer care (Deus existe, a mãe está presente, mas eles não mais se importam). Pela quarta vez no Brasil (2001, 2003, 2006), Hooman Sharifi conversa hoje, às 19 horas, com Alejandro Ahmed, do Cena 11, sobre o projeto que ambos desenvolvem em colaboração com as suas companhias, e que é co-patrocinado pelo Sesc, e conta com co-produção do Festival Panorama de Dança. A Ação 01 do SIM - Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência estréia amanhã com o título de Cartas de Amor/No Project.Alejandro Ahmed e Hooman Sharifi, os diretores das duas companhias, falaram na terça-feira passada ao Estado sobre a residência que iniciaram em Florianópolis no dia 22 de setembro, e que produzirá esta Ação 01: Cartas de Amor/No Project. Segue um pequeno trecho daquela longa conversa de cerca de 3 horas. Quem tiver curiosidade na continuação dessa conversa não deve perder o bate-papo hoje, dia 15, com os dois, a partir das 19 h, no Sesc Avenida Paulista.Parece que há algo que diferencia o encontro de vocês. Alejandro Ahmed - Assisti ao solo do Hooman no Panorama de Dança Contemporânea de 2001, no Rio de Janeiro, e imediatamente reconheci, na sua antidança, vários pontos de convergência com as preocupações que movem o Cena 11. Na ocasião, ainda não sabia que trabalhávamos com metodologias distintas.Hooman Sharifi - Não conheço nenhum dos espetáculos do Cena 11. O que nos move não é nenhum acordo em torno de interesses estéticos comuns. Estou aqui justamente para entender melhor o que torna possível um encontro. É uma investigação sobre a amizade, mas também a possibilidade de encontrar uma voz que me faça as perguntas que não estão me fazendo.Como isso se revela no dia a dia?Ahmed - Olhe os dois nomes dos nossos projetos. Nós estamos dizendo sim, escolhemos a afirmação para título, e eles elegeram o não, com o No Project deles. Mas veja um exemplo prático: estamos fazendo exercícios com pedras e, para nós, o que interessa é evidenciar a co-autoria entre homem e pedra na questão do movimento. Hooman identifica, em um plano de importância, o significado da relação homem-pedra, e diz que fazemos da pedra outra coisa. Nós insistimos que a pedra continua sendo pedra. Além de discussões desse tipo, somos também dois tipos de existentes distintos. Ele pratica uma espécie de totalitarismo anarquista e eu, algo como um totalitarismo democrático. No Cena 11, a liberdade dos bailarinos busca convergência. Na Impure, parece que a liberdade é uma decisão de cada um.Sharifi - Essas são questões muito complexas e que muito me interessam. Eu me ocupo em clarear as relações de trabalho na Impure. Sou o líder, sou quem paga os salários, a voz mais alta, em quem os bailarinos mais prestam atenção. Mas também somos os melhores amigos. Há quem esteja há 12 anos junto, mas não o tempo todo, pois funcionamos de 6 a 8 meses do ano e, no resto do tempo, os bailarinos trabalham com outros coreógrafos, em outros sistemas, como free lancers, para sobreviver. É claro que essa circunstância modifica tudo entre nós, tanto nossos interesses estéticos quanto os modos de nos relacionarmos. Sou o único que vive os 12 meses do dinheiro da Impure, que vem do Arts Council da Noruega. Mas demorei três anos para entender que se não fosse assim, a companhia não poderia existir.Ao que o Cena 11 está dizendo sim?Ahmed - Estamos aprendendo estratégias de dizer sim como consentimento e nos perguntando sobre qual é o poder da vítima para chegar à nossa futura criação, Cartas de Amor ao Inimigo, que deve estrear em 2010 e inclui uma videodança, a ocupação de palcos não convencionais para que a dança possa ser vista de perto, e uma reflexão sobre qual é o papel da platéia. Vamos fazer workshop de platéia e audição de platéia. Vamos desenvolver metodologias próprias para isso.Ao que a Impure diz não?Sharifi - À não-originalidade, ao não-pertencimento, às formas de colaboração baseadas na economia e não na necessidade, à não-transparência da falência da política em tantos países, mas especialmente à não-ideologia. Não estamos banindo a ética, mas propondo que se busque pelos valores naquilo que está diante de nós. Para conseguir isso, é muito importante desenvolver métodos de trabalho. Mas dizemos sim à mobilidade, não à mobilidade do passaporte.Como vocês vêm o trabalho que estão desenvolvendo?Ahmed - Vejo o Cena 11 como um espaço de formação no qual buscamos desenvolver ferramentas para a auto-organização. Disponibilizar a informação para todos é central para que possamos não repetir o que já sabemos. Queremos quebrar as regras que vamos montando para continuar a avançar. Vejo também a importância política em manter uma companhia do tamanho do Cena 11 em um país como o Brasil, onde não há garantia alguma de sobrevivência para trabalhos como o nosso. Penso também na necessidade de abrir espaço para o bailarino produzir, mas me pergunto o que exatamente isso significa quando continua existindo alguém com a voz de comando.Sharifi - Há dois anos estou tentando abrir mais espaço para os bailarinos, buscando não estar todo o tempo presente, impondo um excesso de informação que talvez seja mais do meu interesse que do deles. Mas, quando me retiro, preciso aprender a negociar o espaço que passa a ser ocupado pelo outro. Para isso, me parece que se precisa descobrir algo fora da relação de envolvimento. Se você sabe onde está, você pode se mover. Por isso, os bailarinos precisam ter uma compreensão muito clara de cada imagem que estão produzindo no palco, bem como uma clareza do clichê da imagem do nosso grupo. E como vocês vêem o que está acontecendo aqui?Ahmed - São ampliações de estratégias e métodos. Temos idéias diferentes sobre coreografia, nossas guerrilhas começam em pontos diferentes, mas é a busca da compatibilidade possível que move esse projeto. Me interessa o que ele descarta, pois isso me ajuda a entender o que incluo.Sharifi - Tenho interesse em conhecer como se trabalha em outras economias e em investigar como se estabelecem as políticas de relacionamento. Voltar ao Brasil, por exemplo, é uma escolha nossa, pois poderíamos fazer uma outra turnê. Quando fomos a Kosovo, e me perguntaram a razão de estar lá, fui claro. Respondi que tinha ido para roubar. Isso mesmo, para roubar, porque era muito importante para mim que eles soubessem que tinham algo que eu não tinha e que esse algo me interessava. ServiçoSesc Avenida Paulista. Avenida Paulista, 119, Paraíso, telefone 3179-3700, metrô Brigadeiro. Hoje, às 19 horas. Grátis

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.