''Impunidade traz insegurança''

Para o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima, enquanto o assassino de Isabella não for punido de fato, o sentimento da sociedade será o de que "a peste" vai prevalecer, provocando comoçãoAs tragédias familiares batem fundo e tomam proporções incontroláveis, seja no âmbito externo seja no interno. Mas poucos poderiam imaginar o tamanho da repercussão da morte da pequena Isabella. O que causou esta reação? Como entender a obsessão diária de inúmeras pessoas em acompanhar cada passo deste assassinato? Por que tão poucos se focam no futuro dos dois irmãos da menina, Pietro, de 3 anos, e Cauã, de 1 ano? Estes sim, inocentes, terão que conviver com esta carga pesada até o fim de suas vidas. Para tentar encontrar respostas, procurei o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima, que me recebeu em seu consultório em São Paulo, entre um paciente e outro. Para Tenório, esta forte reação da sociedade vem da falta de justiça em vários campos da vida brasileira. A impunidade que se alastra pelo Brasil deixa cidadãos desamparados e inseguros. E remonta, ainda, aos mitos de obras da antiguidade: Édipo Rei, Antígona, Agamenon, Orestes, Electra, Medéia.Como explicar comoção tão grande com essa tragédia?A sua pergunta traz o princípio da resposta. É um acontecimento trágico, que desperta nas pessoas sentimentos intensos como angústia, medo, impulso vingativo, desejo de punição, ameaça emocional e curiosidade. Remonta à tragédia grega. A mais conhecida, justamente, é Édipo Rei, de Sófocles, do século 5º antes de Cristo, na qual Freud se baseou para construir sua teoria do Complexo de Édipo. Entre pais e filhos há tensão ambivalente: hostilidade e amor, impulsos violentos e amorosos. E o que são os pais se não o produto de duas famílias não consanguíneas?Por isso a repercussão? Esse evento carrega os ingredientes mais complexos da tragédia. A relação do pai com a filha e também o fato de a mulher ser a madrasta. Na vida cotidiana, quando um acontecimento transcende os elementos corriqueiros, ele assume um poder mítico. Por isso não compartilho da opinião de que foi bárbaro o julgamento e a reação da sociedade ou da mídia. Um segundo ponto é o medo e a angústia diante da impunidade. No Brasil, há muita morosidade nos processos jurídicos. O próprio início da tragédia de Édipo é a peste que cai sobre a cidade de Tebas, deixando a comunidade suplicante. Enquanto um assassino como o de Isabella está impune, o sentimento da população é o de que a peste vai prevalecer.Então é simbólico? Sim. Uma criança não foi protegida pelo pai em seu próprio ambiente familiar. E não foi, me parece, um ato impensado. Teria sido uma atitude momentânea, sim, mas seguida da tentativa de abafar a cena. Achei estranho ouvir vozes, aparentemente sensatas, dizendo que estamos julgando. O próprio presidente Lula disse que não devemos prejulgar. Quem não pode prejulgar é a Justiça. Nós, sim. É do jogo democrático. A sociedade, neste caso, ficou no lugar dos suplicantes da tragédia de Édipo.E se estivermos diante de outra injustiça como no caso da Escola Base? É diferente. Neste caso, existe o cadáver de uma criança. Até mesmo a situação de Portugal, o sumiço de Madeleine, não ganha tanta proporção porque eles não encontraram o corpo. Aliás, uma questão que ninguém levantou é que, mesmo que tenha sido outra pessoa o assassino, o pai, tendo a guarda, é o responsável. Só por isso ele teria de se explicar. Então, a justiça foi feita. Ainda não. Tanto a Polícia quanto o Ministério Público cumpriram seu papel investigando e denunciando. Mas temos de ficar atentos à tradição brasileira do uso de expediente. Criou-se no País, entre os acusados, uma forma de intimidar e desqualificar os métodos de investigação. No lugar de provar que é inocente, a pessoa desqualifica os aparelhos legais e jurídicos. Isso também está próximo da idéia da peste, já que impunidade transmite insegurança.O ciclo civilizatório estaria fora do eixo? Vivemos o fim de uma era? Há uma atmosfera muito propícia à desorganização dos grupos sociais. Em parte, isso é fruto dos desenvolvimentos liberais, dos direitos democráticos. Por outro lado, há o uso excessivo da mentira. Quando ela é muito óbvia, agride a boa-fé do cidadão. E a administração do presidente Bush, por exemplo, ressuscitou esse lado perigoso da sociedade. A partir do pós-Guerra Fria, o que se esperaria do país mais poderoso do mundo era uma relação mais consistente e harmônica do Ocidente em relação ao Oriente. No caso do Brasil, vejo que esse fenômeno se desenvolveu nos últimos anos numa erosão da credibilidade dos governos.Seria a democratização da insegurança? A grande conquista do Ocidente foi presumir a inocência de um acusado, pois isso protege o cidadão do livre-arbítrio da autoridade, dos regimes fascistas. Mas, ao mesmo tempo, existe uma usurpação desse direito. É um mal do século 20, seja pelo fascismo de Hitler, seja pelo stalinismo na Rússia Soviética. Exemplos de crueldade, em escalas jamais pensadas. Agora, essa situação se torna forte, também, no nível individual. Nas grandes cidades brasileiras, a situação é caótica. Acentuando a desigualdade, nasce o crime organizado e até uma espécie de associação entre políticos e crime. Ao mesmo tempo, há uma ideologia que diz que a criminalidade é uma expressão da pobreza. Não é. Caso contrário, teríamos os pobres mais cruéis do mundo.O que você acha do ser humano? O ser humano é um animal defeituoso, pior do que qualquer outro. A questão da agressão do animal está ligada a três fatores: fome, defesa e reprodução. No ser humano, que também é um animal, essas características se modificaram muito. Hoje os nossos predadores são bactérias, micróbios. E os vícios. Nossa energia, antes usada para sobreviver, acaba se transformando em agressividade, em crueldade.E como neutralizar isso? Reconhecendo esses elementos e trabalhando o sentimento de compaixão. Todos são sujeitos à crueldade, aos impulsos hostis. Mas, quanto mais eu tiver noção disso em mim, mais serei capaz de trabalhar isso no outro. O que vemos são muitas pessoas divididas em partes. O desafio é, mesmo com partes contraditórias, sermos responsáveis e assumirmos os nossos próprios atos.Você trata gente que não sente culpa? Difícil porque, em geral, pessoas com distúrbio nessa área, não vêm para a análise. Elas acham que se bastam. O ego tem elementos manipuladores, mas quando uma parte assume o todo...Como você explicaria o Brasil? Temos no País uma longa tradição de apatia associada ao cinismo, o que muitos chamam de malandragem. Do ponto de vista cultural, já fomos muito mais depressivos. E quando falo depressivo, é no sentido melancólico. Muitos associam isso à herança portuguesa, à herança da escravidão. Paralelamente, porém, há uma outra vertente, que se contrapõe a essa: a carnavalesca, ornamental. A dialética da malandragem. E os brasileiros, ciclotímicos ao extremo, estão sempre oscilando, sem meios termos, entre uma e outra...

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