Impetuosa, temperamental... e genial

Pianista argentina une destreza técnica com linguagem extremamente pessoal

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

Martha Argerich é uma mulher de poucos e bons amigos. Nos últimos anos, tem ignorado solenemente a correria e as convenções da indústria de clássicos. Não viaja o mundo dando concertos, não faz do estúdio sua segunda casa. Entre uma ou outra apresentação, marca ponto apenas uma vez por ano na Suíça, onde recebe amigos para uma série de concertos de música de câmara gravados ao vivo e lançados sob o selo Martha & Friends (EMI Classics). As interpretações são de altíssima qualidade, ponto culminante de uma carreira meteórica que hoje se dilui no simples prazer de fazer música em conjunto, no calor da hora.Impetuosa, temperamental, Martha surgiu no cenário no fim dos anos 50, a crítica se embananando com as palavras na busca de expressões que pudessem definir o fogo, a energia, de suas interpretações. Tornou-se fenômeno mundial quando gravou, em 1960, o Concerto nº 3 de Prokofiev, regência de Claudio Abbado. Como era possível assumir a pegada rítmica necessária, unindo clareza e delicadeza com velocidade e destreza técnica? A parceria com Abbado renderia ainda vários outros álbuns, que estão entre seus melhores, com obras como os concertos de Ravel, Liszt e Beethoven.A transição para a música de câmara se deu nos anos 80, à medida que ela começava a diminuir a quantidade de apresentações mundo afora. Martha não dá entrevista. Saber algo sobre ela, só perguntando a seus amigos. Olha só o fascínio que ela exerce: um de seus grandes amigos, o brasileiro Nelson Freire, também avesso a entrevistas, não se incomoda em falar longamente sobre a colega e o prazer de tocar com ela ''É quando a gente toca que colocamos o papo em dia'', diz. É possível encontrar nos catálogos gravações mais corretas ou intelectualmente concebidas. No entanto, se o que você quer é a energia, a excitação e a espontaneidade do fazer música, Martha Argerich é a opção.Serviço Pastores, Amantes e Sonhos. Hoje, 16 h, Suflê (2002), de Elena Rutman, Martha Argerich - Conversa Noturna (2002), de Georges Gachot; 18 h, Banquisa (2005), de Claude Barras, Nem Polícia, Nem Negros, Nem Brancos (2001), de Ursula Méier; 20 h, Meyers (2002), de Steven Hayes, Vento do Norte (2004), de Bettina Oberli. Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto (110 lug.). Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, Paraíso, tel. 3383-3402. Grátis (retirar ingresso 1 h antes). Até 22/6

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.