Impérios condenados à queda

Fundação, de Isaac Asimov, desvenda sociedade voltada para o domínio da tecnologia e da informação

Ronaldo Bressane, O Estadao de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 00h00

É inquietante voltar a um livro que você leu há 25 anos. Ainda mais um livro de ficção científica, sem falar no dado importante de que, quando foi lido pela primeira vez, o leitor tinha 13 anos. Uma verdadeira viagem no tempo: retorna-se ao futuro para tentar se lembrar de como era no passado, ao mesmo tempo que tenta lembrar de como era, neste passado, sua visão de futuro. A digressão é necessária para avaliar um romance como Fundação, de Isaac Asimov (1920-1992). Ficção científica é mais ou menos como heavy metal. Você gosta daquilo por um tempo, daí cresce, e começa a achar coisa de adolescente. Tanto é que ambos os gêneros não são muito levados a sério dentro de suas disciplinas - a literatura de imaginação e o rock?n?roll. Seus obcecados fãs também se encarregam de separar esses gêneros do resto do universo, o que contribui para lançá-los na vala comum do preconceito. Por essa chave, a obra de Isaac Asimov seria uma mistura de todos os álbuns de Motörhead, Black Sabbath e Iron Maiden. O finado escritor russo/norte-americano é uma lenda: ajudou a consolidar o gênero, criou alguns de seus maiores clássicos (a trilogia Fundação - Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação - e Eu, Robô entre eles), estabeleceu regras e uma gramática próprias, conquistou fãs de diversas gerações e ainda foi um dos mais prolíficos autores na área. E também em outras: entre seus mais de 500 livros, há histórias de mistério, enciclopédias, volumes de divulgação científica e até poesia. No espectro clássico da ficção científica anglo-saxã, somente Arthur C. Clarke e Ray Bradbury lhe fariam companhia. Essa produção toda talvez seja a culpada por algo que o leitor de 38 dá mais atenção que o de 13: a linguagem. Embora muito bem traduzida por Fábio Fernandes, especialista no gênero, a paisagem verbal asimoviana é pobre e frequentemente adensada por um palavrório científico. Os grandes voos da ficção científica nesse território são de Douglas Adams (O Mochileiro das Galáxias) e Philip K. Dick (O Homem Duplo), escritores sessentistas que temperaram o gênero com psicodelia, sarcasmo e cultura pop. Asimov privilegia a objetividade da ação, o desenho rápido na descrição, o tom ligeiro na psicologia das personagens. O forte é a estrutura e a ousadia na concepção: ele baseia seu livro em grandes acordes, em ritmo bem marcado. Na trilogia da Fundação, Asimov foi mais longe. Se o leitor de 13 ficava fascinado com as viagens no hiperespaço, o que intriga o leitor de 38 são as analogias políticas, os mergulhos na filosofia e as observações socioeconômicas.A Fundação é um centro de alta pesquisa criado em Terminus por um brilhante psicohistoriador. Estamos em 11988, e o Império Galáctico controla com mão de ferro a Via Láctea. A psicohistória é uma disciplina que domina a futurologia por intermédio da ultraminuciosa aplicação de algoritmos probabilísticos a comportamentos socioeconômicos. Seu mestre, Hari Seldon, prevê que em breve - coisa de mil anos - o Império será derrubado, e sobrevirá uma era medieval de 30 milênios. O imperador o acusa de traição. Seldon e seus colaboradores são exilados em Terminus, na periferia do Império, onde o psicohistoriador tem liberdade para criar a Fundação - uma universidade cujo objetivo aparente é compilar o conhecimento humano na Enciclopédia Galáctica. Sua missão porém é mais ambiciosa: substituir o Império.Nesse livro baseado em política, destrincha-se um mundo voltado ao domínio da tecnologia, da informação e do conhecimento. Seldon é o primeiro personagem de uma galeria de heróis da Fundação. O seguinte, Salvor Hardin, tem como lema "A violência é o último refúgio do incompetente" e usa a religião como método de dominação de planetas tecnologicamente atrasados. Hober Mallow, mais à frente, demonstrará mestria política pela imposição do livre mercado. Com eles, Asimov relaciona as forças do poder: o jeitinho (a forma malandra como Hardin e Mallow conduzem a crise, usando a cabeça para dominar reinos militarmente mais fortes), o misticismo (o fundamentalismo religioso, sempre apresentado como instrumento de poder, é desprezível para Asimov), o dinheiro (ganância e inveja como motores da humanidade), e, acima de tudo, a crença irrefreável no saber e na tecnologia. Dramaticamente, Fundação tem uma estrutura tão previsível quanto a psicohistória. Quase todos os capítulos são alicerçados sobre diálogos - neles a ação se desenrola, como comentário, crítica ou explanação de fatos ou argumentos pró e contra os dogmas científicos da Fundação. Asimov produz uma espécie de literatura de tese, mais interessada na argumentação cerebral, tornando passagens de Fundação curiosamente semelhantes a outro subgênero - a dramaturgia de tribunal. Não há personagens femininas, nem sensualidade, sequer se tangencia a ideia de sexo: a primeira mulher vai aparecer na página 191. Tudo é sério e severo demais. Ninguém relaxa. É meio chato viver em um universo em que o futuro está em jogo o tempo todo. Entretanto, o que interessava ao leitor de 13 - naves espaciais, desintegradores e escudos nucleares, descrições de planetas como Trantor, em que tudo é cultura e a natureza foi abolida - não é o que confere atualidade a Fundação. Isso tudo já foi superado pelo cinema e pelos videogames. O que não envelheceu foi a capacidade asimoviana em demonstrar a fatalidade dos impérios, quando se tornam gordos, gastões e gigantescos; e a agilidade das pequenas comunidades periféricas, quando detêm o conhecimento. Seu ouro é a transposição da história para milênios no futuro. Ronaldo Bressane, jornalista e escritor, é autor de, entre outros, Céu de Lúcifer (Azougue)

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