''''Imperador da ralé'''' fascina o autor

Paulo César Pinheiro fala do mito do Besouro Mangangá, que abordou em várias canções e sela sua estréia como dramaturgo

Entrevista com

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2008 | 00h00

O resultado das muitas glórias que a estréia de Paulo César Pinheiro no teatro conquistou, com críticas unânimes e platéias fascinadas, curiosamente decorre da inexperiência como dramaturgo. Quem observou isso foi uma tarimbada atriz que cruzou com ele numa sessão. ''''Ela me disse que se eu dominasse a técnica teatral não teria conseguido juntar numa só peça todos os elementos do teatro: drama, comédia, tragicomédia, música, pantomima, dança, cordel, canto, ritmo'''', conta Pinheiro.''''Foi intuição pura'''', diz ele, bastou ''''deixar o coração fluir''''. Acontece que Paulo César Pinheiro - um dos mais geniais letristas e compositores deste país e o mais inteirado e assíduo difusor da cultura afro-brasileira - sempre soube o quanto é importante que a nossa emoção sobreviva. De menino já nutria paixão pelo Besouro Mangangá (ou Cordão de Ouro), desde que leu Mar Morto, de Jorge Amado, com um capítulo inteiro dedicado ao personagem. Passou, então a pesquisar, escrever e guardar nos arquivos tudo o que aprendia sobre esse baiano.Certa vez, resolveu ir a Santo Amaro da Purificação, terra natal do Mangangá, para se aprofundar em sua história. Conheceu pessoas idosas que tinham convivido com ele, de quem ouviu narrações que ajudam a compreender a lenda. Besouro trabalhava transportando mercadorias num saveiro, se metia em política, era meio justiceiro e tinha um lado místico feiticeiro. ''''É El Cid do povo, o imperador da ralé. É o mito popular, encantado, não o herói dos filmes americanos. Isso atraía tanto as crianças quanto os mais velhos no Recôncavo Baiano e em Salvador'''', observa.Além da capoeira, outro elemento que mexia com o imaginário coletivo era a música. Besouro tocava violão, compôs sambas-de-roda, chulas. Dizem que ficava invisível diante da polícia. ''''Tem umas histórias na peça que falam desse lado do feitiço negro. Ele nunca aparece em cena, mas está presente nas conversas dos outros capoeiristas que falam dele'''', diz Pinheiro. Por ser o melhor de todos, imbatível na capoeira, Besouro morreu jovem, à traição, esfaqueado, justamente por isso. ''''É aquela história: sempre tem alguém pra desafiar, tomar a coroa, digamos, de quem é considerado o maior.''''Pinheiro fez sua primeira letra em que o Besouro era o personagem aos 16 anos, com música de Baden Powell, influenciado pelo novo parceiro que tinha voltado impregnado do que aprendera em sua estada na Bahia. É o clássico samba Lapinha, lançado por Elis Regina, cujo refrão veio de um dos temas que Mangangá criou falando dele próprio. Depois desta - que foi sua primeira canção gravada, em 1968 -, vieram outras com Baden, João Nogueira. Lapinha está na trilha da peça. As outras canções são inéditas e, por coincidência, 10 delas estavam entre as 14 que o compositor tinha preparado para o próximo CD, que grava este ano, cujo tema é a capoeira.A idéia inicial de Pinheiro era fazer um filme sobre o Besouro, até que aceitou a sugestão de uma sobrinha para uma peça musical. Com texto e canções prontas, o passo seguinte foi procurar quem dirigisse. Tinha de ser alguém da geração com quem conviveu nos anos 60. ''''Os diretores mais novos não entenderiam.'''' Acabou chegando a João das Neves. Proposta aceita, veio outro desafio: encontrar atores negros, que além de atuar soubessem cantar, tocar algum instrumento de percussão pelo menos e, o mais difícil, jogar capoeira. A direção musical, que ficou a cargo de Luciana Rabello, também requeria cuidados especiais. E, segundo o autor, ela resolveu bem algo complicado: fazer tudo simples, com os instrumentos típicos da capoeira. ''''Se sofisticasse ficava ruim.''''Besouro Cordão de Ouro é a primeira peça de Pinheiro como profissional. Em 1964, aos 15 anos, ele chegou a montar um monólogo musical de cunho político, Carta ao Povo, que teve a promissora carreira tesourada pela censura no ano do golpe militar. ''''Minha primeira aventura no teatro foi cortada na raiz. Como já fazia música, esqueci o teatro'''', diz o autor. Agora, ''''mordido pelo bicho'''', ele tem outra peça musical pronta para ser encenada este ano. Novamente o tema é negro e o personagem é ''''riquíssimo'''', Chico Rei. A direção já está entregue a João das Neves e no lugar da capoeira baiana entra a congada mineira.

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