Imobilizados por acreditar em editais

Apesar de todas as dificuldades que enfrenta, o setor foi brindado com criações originais e importantes atuações privadas

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2007 | 00h00

Mesmo sem avanços consistentes nas políticas públicas para a dança, mesmo sem a criação de circuitos universitários e de circuitos amadores, mesmo sem a existência de programas que estabilizem a produção fora do ritmo episódico promovido pelos editais, mesmo sem o apoio da classe à Cooperativa de Dança, este foi um ano recheado por espetáculos muito bons na cidade de São Paulo, e pontuado por algumas ações privadas que merecem destaque. Uma delas foi a de João Andreazzi que, com a verba recebida do 1º edital da Lei de Fomento, não agiu do modo habitual (produzir um espetáculo com seu grupo, a Cia. Corpos Nômades). Aplicou parte dos recursos na constituição de um espaço - o LUGAR - amplificando, assim, o alcance e a duração do dinheiro público que recebeu. Se sua atitude vier a contaminar outros profissionais, em breve a dança disporá de novos circuitos capazes de colaborar na promoção da sua autonomia.Outra dessas ações foi a do Sesc Avenida Paulista na área da dança, cuja fina coerência curatorial irrigou toda a temporada. Além disso, rompeu também com a nefasta camisa-de-força das apresentações relâmpago de dois ou três dias, que não têm a menor chance de formar platéias, e provou que a dança pode, sim, ser apresentada por um mínimo de três semanas consecutivas - comportamento, aliás, também sinalizado pela programação de dança do Centro Cultural São Paulo. Com relação ao Sesc, cabe torcer para que o prédio da Avenida Paulista, que permanece sendo chamado de Unidade Provisória, assuma a sua atual arquitetura como a de um ambiente que favorece o trabalho de qualidade que vem desenvolvendo.Foi lá, e também no Itaú Cultural, que surgiram duas propostas inovadoras, verdadeiros marcos. Em vez de continuar a somente veicular produtos artísticos prontos, as duas instituições ousaram apostar em processos - uma iniciativa com potencial para repaginar as discussões em curso sobre curadoria. Do lado do Itaú, foi Sonia Sobral, gerente de artes cênicas, quem convidou Cristian Duarte e Thelma Bonavita para lá mostrarem a sua nova pesquisa, sem conhecer de antemão o resultado dela, que recebeu o nome de Show: Sobre o Que a Gente Vê. E, no Sesc Avenida Paulista, foi Andrea Caruso Saturnino, programadora de dança, a inventora do genial projeto 14 X 32, que misturou dança, música e artes visuais de modo inusitado. De formas diferentes, mas sintonizadas em uma discussão em torno de processos de criação, as duas iniciativas abrem caminhos estruturalmente novos para a produção e para a difusão da dança.A lista dos espetáculos de excelência é grande. Assistimos a Encarnado (Lia Rodrigues), Breu (Grupo Corpo), pequenas frestas de ficção sobre realidade insistente (Cena 11), Falso Espetáculo (Elisa Ohtake, com Ricardo Oliveira e Emerson Menezes), Organizador de Carne (Sheila Ribeiro, com Josh J.), Confluir (Thembi Rosa), Um Corpo Que não Agüenta mais (Marta Soares, com Clara Gouvêa, Anderson Gouvêa, Carolina Callegaro e Manuel Fabrício), Relevo Inverso (Gicia Amorim), Clandestino (Angelo Madureira e Ana Catarina Vieira), Segredos Dançantes contra Brutalidade Surda (de Alejandro Ahmed/Cena 11, com Anderson Gonçalves, Philipe Janning e Volmir Cordeito), Still, sob o Estado das Coisas (Gustavo Ciríaco, com Francini Barros, Ignacio Aldunate e Milena Codeço), Disposições Transitórias ou Pequenas Mortes (Vera Sala), Necessário a Posteriori (Adriana Banana, com Jaqueline Gimenez e Cínthia Reyder/Patricia Werneck), Barraco (Carmen Jorge, com Leo Gomes e Ângelo Cruz).Dentre tantos ótimos espetáculos, cabe destacar um: Vapor, de e com Helena Bastos e Raul Rachou. Uma síntese tão concisa quanto precisa das formas de controle e poder, realizada por dois dos mais coerentes e consistentes artistas da dança contemporânea.Há que lamentar que Decalque (Leonardo Ramos), uma importante conquista coreográfica do ótimo elenco do Ballet de Londrina, tenha passado quase despercebido pela cidade. E saudar o sucesso de dois processos: tanto o trabalho dos últimos anos de Ana Teixeira, com o apoio de Mônica Mion, junto à Cia. 2 do Balé da Cidade de São Paulo, quanto o amadurecimento da pesquisa da Cia. Nova Dança 4, que acertou o seu passo com Experimentações Inevitáveis + Antropofágicas 3.Dos vários aniversários, vale lembrar o dos 30 anos de contribuição do Cisne Negro na formação de bailarinos e como espaço para coreógrafos brasileiros; o 10º ano da Omstrab (Fernando Lee), que apresentou seu repertório na Galeria Olido; e o 10º aniversário da Cia. Sandro Borelli, que o Sesc Consolação celebrou com o 2º Território da Dança, uma iniciativa louvável, que reuniu três obras do Ciclo Kafka de sua companhia com o seu trabalho de direção de movimento em Wotan, peça de Fabio Mazzoni. Foi uma importante oportunidade para dar mais visibilidade ao processo de criação de linguagem que Borelli vem competentemente consolidando.Fechando o ano com uma elegância impecável, tivemos, na Mostra Sesc de Artes, o programa histórico mostrado pela Trisha Brown Dance Company, uma aula preciosa sobre os prolegômenos da dança contemporânea.Face a um cenário como esse, há muito o que esperar de 2008. Mas, de nada adiantará somente esperar, se a classe da dança não conseguir se organizar politicamente. Sem isso, sua força de reivindicação não poderá ser plenamente exercida, e a atual situação, que é a de fabricação contínua de projetos para atender a todos os editais, será mantida. Muitos parecem não perceber que se encontram mantidos em um mesmo campo de extermínio, do qual alguns são temporariamente retirados, ao serem selecionados por algum dos editais, para serem, em seguida lá devolvidos, retornando à situação anterior de instabilidade. Somente a discussão política poderá trazer a clareza de que eles permanecem imobilizados pela esperança que cada um tem de ser a próxima bola da vez.AMANHÃ: RETROSPECTIVA DE TEATRO INFANTIL, POR DIB CARNEIRO NETO

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