Imagens naïf enriquecidas pelo toque da saudade

Pinacoteca expõe parte da produção do baiano Voltaire Fraga, feita de 1930 a 60

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Um resgate visual. Assim pode ser definida a exposição Voltaire Fraga - Abundante Cidade. Dessemelhante Bahia, com curadoria de Diógenes Moura, em comemoração ao mês da Consciência Negra.Fotógrafo baiano desconhecido por muitos, Voltaire Fraga (1912-2006) começou a fotografar nos anos 30. Encontramos em seus retratos e em suas imagens uma busca humanista que ressalta o cotidiano da cidade e das pessoas. Sua estética, muito comum nessas décadas - nós a encontraremos anos mais tarde nas fotografias de Pierre Verger, que chegou ao Brasil em 1946 -, desvela e revela o banal. Como não podia deixar de ser, é no sincretismo religioso, no mar, nos pescadores e trabalhadores braçais, nas ladeiras de Salvador que a fotografia de Voltaire Fraga se faz presente.Seu encontro com a fotografia se deu por acaso, como ele mesmo deixou escrito: ao passear pela cidade, viu numa vitrine uma câmara fotográfica VAG 9 x12. Foi o que bastou para que sentisse e se decidisse pela vida de fotógrafo. O ano era o de 1927. Três anos depois, enviou algumas fotografias para uma revista no Rio de Janeiro. Não precisou esperar muito para encontrar as mesmas fotografias publicadas nas páginas centrais da revista O Cruzeiro sob o título: As Fotografias da Bahia de Voltaire Fraga."Produzidas entre as décadas de 1930 e 1960, essas fotografias nunca esgotam os percursos que fizeram da Bahia um objeto de desejo para fotógrafos viajantes e outros não, desde o início da documentação oitocentista", escreve no catálogo o curador da mostra.E, assim como as primeiras imagens do século 19, as fotografias de Voltaire Fraga mais se assemelham ao trabalho de um amador - no sentido daquele que gosta do que faz -, como se ele mesmo ao fotografar estivesse descobrindo a Bahia. Registra o que vê com o olhar atento de quem anota. Caminha a esmo, encontra, registra e guarda. Imagens naïf que se enriqueceram pelo tempo, que adquiriram um tom de saudade, de tempo passado. Registros de uma Bahia idealizada. Não por isso menos interessante e instigante. Uma Bahia que se construiu à imagem e semelhança das inúmeras representações pictóricas que dela fizeram.Infelizmente, muitas das imagens se perderam durante um temporal que inundou a casa de Voltaire Fraga e destruiu quase 10 mil negativos. Sobraram poucos, 2 mil, que ele tratou e preservou até o fim de sua vida, em 2006. É parte desse acervo que a Pinacoteca nos mostra. Uma homenagem devida a um profissional que com olhos livres nos ajudou a construir nosso passado. ServiçoVoltaire Fraga. Pinacoteca. Praça da Luz, 2, tel. 3324 -1000. 10 h/18 h (fecha 2.ª). R$ 4 (sáb. grátis). Até 11/1

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