Imagens inéditas de Verger no Japão

País é o tema de fotos também de outros dois franceses, na Caixa Cultural

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2008 | 00h00

Muito se fala sobre Pierre Verger, vários dos seus trabalhos e imagens são conhecidos, mas sempre podemos ter boas surpresas. É o caso destas cem imagens feitas por ele no Japão na década de 30. Ainda inéditas, elas estão em exposição na Caixa Cultural. Foi no começo dos anos 30 que Pierre Verger começou a fotografar. Mais precisamente em 1932. A câmera servia como um diário de bordo, de viagem, um registro de algo que seu temperamento de viajante o levava a descobrir. As imagens eram depois vendidas ou veiculadas por jornais e agências noticiosas. Dessa forma, durante 14 anos viajou o mundo todo até chegar ao Brasil onde se instalou em 1946.Antes disso, porém, em 1934 ele chegou ao Japão. Uma viagem profissional a pedido do jornal France-Soir. Sua primeira experiência como fotógrafo, dois anos depois de descobrir a fotografia. São essas as imagens, com curadoria de Alex Baradel, da Fundação Pierre Verger, que podemos conhecer agora como uma homenagem à comemoração do centenário da Imigração Japonesa no Brasil.Nesse momento, Pierre Verger ainda não tinha interesse nos aspectos religiosos ou culturais das sociedades africanas ou afro-americanas. Era um olhar livre, solto, de quem quer conhecer de quem quer saber e apreender o que é o Japão, numa época em que não era comum nem fácil ir para o outro lado do mundo.Ainda inexperiente (fotografava havia apenas dois anos) seu olhar é rápido, busca cobrir tudo, sem muita unidade, sem muito sentido, embora já possa entrever nestas primeiras fotografias as temáticas que mais tarde se tornariam a marca de seus ensaios: ''Nestas imagens encontramos um olhar de viajante com pressa, já que ficou apenas quatro semanas no Japão. Ele dirigia sua câmara para o que lhe parecia esteticamente interessante ou engraçado. Mas já vamos encontrar imagens de mercados, barcos, marinheiros, cenas de rua, etc.'', nos conta por telefone o curador da mostra. Mais raras são as imagens de gueixas que, ao que parece, posaram para o fotógrafo. Parece, porque ele pouco deixou escrito sobre esta viagem, salvo raras cartas aos amigos onde se percebe pela sua escrita frenética a agitação em que se encontrava. Provavelmente foi exatamente nesta viagem que ele optou por se tornar definitivamente um fotógrafo.Sua ida ao Japão se deu por acaso. Recém-chegado de uma viagem à Polinésia, estava mostrando suas fotos (possivelmente as primeiras de sua vida) a um editor em Paris. O diretor do jornal France-Soir ao ver as imagens o convidou a acompanhar um jornalista que daria a volta ao mundo. Sorte dele, já que a maioria dos fotógrafos profissionais estava empenhada. Azar, azar dos outros. Assim, ''como um Julio Verne às avessas'', como explica Baradel, Verger viajou para os Estados Unidos, o Japão, a China, e mais rapidamente a Índia e o canal de Suez.Alguns estudiosos e pesquisadores gostam de definir Pierre Verger como um antropólogo da imagem. Definição discutível, já que o próprio nunca teorizou sobre suas próprias imagens, nunca teve um olhar científico sobre o que fotografava: ''Suas fotografias são sua visão poética das coisas. Ele era uma pessoa extremamente livre, que não aceitava etiquetas. Era um poeta do cotidiano'', confirma Baradel, ao discursar sobre o legado de Verger. E complementa: ''Tenho dúvidas em aceitá-lo como antropólogo. Aliás, ainda preciso definir o que é um olhar antropológico.''E, realmente, nestas suas primeiras imagens, o que podemos encontrar é a descoberta do novo, do choque de cultural, a européia de Pierre Verger e a oriental que conheceu. Sem um olhar definido, não sabemos se também foi um pedido do jornal, suas imagens alternam a lata sociedade japonesa, com os locais miseráveis, fotos posadas, flagrantes roubados. Das vitrines das lojas aos mercados de peixes. Como escreve ao seu amigo: ''Estou com os olhos cheios e espero ser capaz de colocar tudo isso no filme.''Ele conseguiu. E podemos ver neste seu início como fotógrafo seu olhar atento e exato, sua compreensão do que é narrar uma história por meio de imagens.DESPREZ E DESCAMPSQuase 60 anos depois, dois fotógrafos, também franceses, apresentam suas imagens de um Japão contemporâneo em comparação ao Japão de Verger.São 100 imagens, 50 coloridas de Desprez e 50 P&B de Descamps. Imagens que nos trazem uma outra visão do Japão, talvez com um conhecimento maior do que seja o país visto a partir da grande quantidade de informações a que temos acesso há muitos anos. Mesmo assim, imagens que, apesar da distância do tempo, se aproximam muito do mesmo e tradicional olhar de Verger. São olhares que vagam, que buscam. Inseridos na estética do documental contemporâneo, que cada vez mais se distancia do jornalismo e se aproxima de uma estética própria de cada autor, os dois fotógrafos, cada qual à sua maneira, nos contam um pouco do Japão.Nas séries de Bertrand Desprez, uma estética muito próxima do cinema. Muitas vezes suas fotografias lembram fotogramas cinematográficos e nelas encontramos a poesia da descoberta: do homem que conversa com uma árvore para encontrar a si próprio, chamada pelo autor de Aoba, nome, aliás, da árvore. Já na série As Quatro Estações inspiradas num conto japonês, ele mostra o passar do tempo por meio da adolescência.O passar do tempo é também a preocupação de Bernard Descamps. Seu olhar mais jornalístico e aventureiro talvez se aproxime mais do olhar do Verger. Vamos encontrar as descobertas de um viajante que durante três anos resolveu explorar o Japão e as diferenças de luminosidade. Ao olhar suas fotografias, vemos em Descamps o mesmo olhar de rua, de andante que tanto fez a fama da escola francesa de fotografia. Sem se importar em narrar uma história ou em desvendar mistérios, ele se preocupa em fragmentar o tempo e nos mostrar pedaços desses momentos que ele retirou durante suas caminhas por Tóquio, Kyoto, Osaka, Fuji, Atama ou Nara. No meio da confusão das cidades modernas, que, de alguma forma, acabam por se tornar parecidas com todas as cidades perdendo algo de sua personalidade, seu olhar busca exatamente essa tradição que sobrevive, que permanece e se apresenta a um olhar mais atento.Serviço O Japão de Pierre Verger - Anos 30 e o Japão de Descamps e Desprez - Anos 90. Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, tel. 3321-4400. 3.ª a dom., 9 h às 21 h. Grátis. Até 25/5

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.