Imagens do front, por Capa e Gerda

Exposições em NY apresentam as principais coberturas de guerra feitas pelo casal de fotógrafos que virou referência no setor

Tonica Chagas, Nova York, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

Por volta de 1933, depois de presos por participar de protestos contra o nazismo e o anti-semitismo, o húngaro André Friedmann e a alemã Gerda Pohorylle emigraram para Paris, onde se conheceram e mudaram seus nomes para Robert Capa (1913- 1954) e Gerda Taro (1910-1937). De lá, unidos pelo amor, por princípios políticos e pela profissão, os dois jovens partiram juntos, em 1936, para cobrir a luta - perdida depois de três anos e 500 mil mortos - dos republicanos espanhóis contra as tropas do general Franco. Na violência do episódio, ele criou fama e o padrão seguido ainda hoje no fotojornalismo da frente de batalha. Ela, que quase sempre é lembrada apenas como namorada dele ou heroína comunista, foi a primeira fotógrafa a morrer no front.O legado deles, produzido com uma Leica e uma Rolleiflex nas linhas de fogo da primeira metade do século 20, é revisto em Nova York na exposição This Is War! Robert Capa at Work e na primeira retrospectiva do trabalho de Gerda Taro, que o International Center of Photography (ICP) exibe até 6 de janeiro, acompanhadas por mais duas mostras sobre a Guerra Civil Espanhola (leia nesta página). ''''O melhor trabalho de Capa nos deu algumas das mais inesquecíveis imagens dos principais conflitos do século 20'''', diz Willis Hartshorn, diretor do ICP. ''''E o trabalho de Gerda não é só marcante dentro da fotografia de guerra daquele período, mas porque exemplifica a mudança de papéis das mulheres da época.''''Em Paris, ainda com seu nome de registro, o fotógrafo já trabalhava para jornais e revistas cobrindo movimentos políticos. Quando Gerda o conheceu, ela passou a gerenciar o trabalho dele e também começou a fotografar. Para vender mais, os dois decidiram trabalhar como se ambos fossem um freelancer americano chamado Robert Capa.Defensores das causas esquerdistas, eles partiram para Barcelona assim que começou a guerra na Espanha. Fotografavam lado a lado, muitas vezes registrando a mesma cena. As fotos de cada um feitas nesse período são distinguíveis pela diferença na proporção dos negativos, os dela no formato quadrado da Rollei e os dele no retangular da Leica. Fotos e relatos da guerra assinados pelos dois juntos eram publicados por revistas européias de renome como a Vu, francesa, e a suíça Züricher Illustrierte.Em Cerro Muriano, perto de Córdoba, no dia 5 de setembro de 1936, Capa, com apenas 22 anos, fez uma de suas fotos mais famosas, a de um miliciano caindo ao ser atingido por um tiro fatal. A imagem, símbolo da Espanha republicana, já provocou muitas discussões a respeito de sua veracidade. Em This Is War!, são vistas todas as imagens registradas por Capa naquele dia, entre elas várias do mesmo miliciano antes e depois de ser morto.O casal regressou a Paris no fim daquele ano, mas voltou à Espanha em fevereiro de 1937. Nessa segunda viagem, ele ficou apenas até o fim do mês. É difícil definir a autoria das fotos feitas pelos dois naquelas semanas porque, além de creditar seus trabalhos como ''''Capa & Taro'''', ambos trabalharam com câmeras Leica. Quando ficou sozinha, Gerda começou uma carreira independente na imprensa esquerdista francesa e, a partir de março, suas fotorreportagens na revista Regards e no jornal Ce Soir foram publicadas com o crédito ''''Photo Taro''''.Em meio aos bombardeios, o olhar de Gerda focalizou a feminilidade e coragem de espanholas de salto alto em sessões de treinamento de tiro ou trocando sorrisos com milicianos. Buscando angulações diferentes de câmera, ela registrou a despreocupação inocente de meninos brincando de soldado e a alegria de marinheiros tocando sanfona e gaita de fole num barco de guerra. Um de seus trabalhos mais impressionantes foi fotografar vítimas civis num hospital e necrotério de Valência, depois que a cidade foi bombardeada.A Guerra Civil Espanhola foi a primeira e última grande cobertura feita por Gerda. Em julho, acompanhou por duas semanas a resistência dos republicanos na defesa de Brunete, próxima a Madri. No dia 25, quando a posição deles caiu, a fotógrafa se viu no meio de uma retirada às pressas e tentou escapar num carro de feridos. O veículo foi atingido por um tanque e ela foi atirada para fora. Morreu no dia seguinte, quatro dias antes de completar 27 anos. Seu corpo foi levado para Paris, onde a homenagearam como mártir antifascista.Capa morreu em 25 de maio de 1954, ao pisar numa mina quando fotografava manobras dos franceses no delta do Rio Vermelho. Estava perto o suficiente para fazer boas imagens, mas não para continuar a fazê-las.

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