Imagens do feiticeiro Pierre Verger

Livro reúne 47 flagrantes realizados pelo artista francês, que registrou o Brasil sob um olhar antropológico

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2009 | 00h00

Jorge Amado gostava de lembrar um comentário que ouviu de Mãe Senhora, do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá: "Cuidado com Pierre Verger, ele é feiticeiro, tem poderes." Uma curiosa observação, uma vez que o fotógrafo francês Verger (1902-1996) não passava de um homem tímido, contemplativo, afeito a pesquisas. O feitiço, no entanto, materializava-se quando ele mirava a lente de sua máquina fotográfica, produzindo imagens que atravessam o tempo. Como as que figuram no livro Fotografias Para não Esquecer, da Terra Virgem Editora, que será lançado hoje, na Pinacoteca.O evento ocorre durante a abertura da exposição À Procura de Um Olhar - Fotógrafos Franceses e Brasileiros Revelam o Brasil, coletiva que é uma produção da Pinacoteca em parceria com a Cultures France para celebração do Ano da França no Brasil. A curadoria é de Diógenes Moura, que também selecionou as 47 imagens, datadas entre 1946 e 1973, que figuram no livro. São registros feitos no Pará, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco, no meio da rua, "retratos de uma simplicidade comovente, onde a ausência de gestos os torna silenciosamente elegantes", observa Moura.Segundo o pesquisador, tais registros de cenas da vida cotidiana e das manifestações entre arte e religiosidade no Brasil apontam não apenas para a questão da "beleza do olhar". "Mostram, também e muito profundamente, um caminho que nos leva para questões antropológicas e sociais, de história e memória."Depois que descobriu a Bahia em 1946, atraído por Jubiabá, de Jorge Amado, Pierre Verger instalou-se em Salvador, onde desenvolveu um raro senso de espaço, buscando flagrantes que, embora discretos em relação ao jogo de luz, revelavam uma história. "Imagens como essas do livro nos oferecem uma possibilidade libertária", escreve Moura, no prefácio da obra. "Cada uma de suas imagens é uma só."Moura exemplifica com uma foto obtida no carnaval de 1950, na capital baiana: encostada na fachada de um prédio, uma figura fuma, rosto mascarado, observada por um garoto sorridente. Homem ou mulher, não se pode precisar, apesar do traje feminino. "Se nem Freud, nem Shakespeare, nem Balzac, nem Goethe, nem ninguém conseguiu vencer o mito da androginia, por que Verger iria fazê-lo?" De fato, importa é o resgate de um instante repentino e único.

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