'Imagens Cintilantes' choca ao eleger George Lucas o maior artista vivo

Ensaísta Camile Paglia diz que a sobrevivência da arte está em jogo e que a era digital deixa todos cegos

Entrevista com

Camile Paglia

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 03h00

Já em seu livro de estreia, Personas Sexuais (1990), a ensaísta e professora norte-americana Camile Paglia, de 67 anos, provocava com sua visão particular da história da arte e da sexualidade em um só volume. Agora, com Imagens Cintilantes, ela critica os criadores contemporâneos, elege o cineasta George Lucas o maior artista vivo e, à moda dos breviários católicos de imagens devocionais, elege 29 artistas num cânone ainda mais polêmico, que ignora nomes fundamentais da história da arte. Em entrevista ao Caderno 2, ela justifica sua seleção e a exclusão da figura do Cristo - tão presente na arte ocidental - dessa história. Paglia prefere destacar a hoje obscura polonesa Tamara de Lempicka (1898-1980), artista bissexual déco com leve inclinação para o cubismo light.

Artistas fundamentais do passado, como Giotto e Rembrandt, não são sequer mencionados em seu livro Imagens Cintilantes, assim como contemporâneos reconhecidos como Anselm Kiefer e Marina Abramovic. Como a senhora chegou a essa seleção?

O livro pretende atingir um público amplo, pessoas que não compram livros de arte ou seguem tendências contemporâneas. Eu, particularmente, estou interessada em atingir aqueles que consideram os artistas sonhadores, pouco pragmáticos ou parasitas preguiçosos, visão muito comum nos EUA. Não considerei Giotto por ser uma figura transicional. A Maestà de Duccio, contudo, aparece na lista final do livro. Marina Abramovic é brevemente mencionada como uma das muitas artistas performáticas emergentes nos anos 1970, mas Yoko Ono a precedeu em muitas ideias e práticas. Respeito o trabalho de Abramovic de 40 anos atrás, mas considero sua obra repetitiva, datada e pretensiosa. A promoção de uma artista menor como ela, com sua história de grotesco masoquismo, justifica a razão de tantas pessoas detestarem arte contemporânea. Quanto a Anselm Kiefer, ele é um artista sério, compromissado. Contudo, suas cores são monótonas, sua visão de mundo é limitada, ancorada em suas reflexões sobre a Alemanha depois dos horrores do nazismo. Kiefer pertence ao período do pós-guerra marcado pela angústia existencial de Esperando Godot, de Beckett, peça central para Susan Sontag e Michel Foucault, mas não para mim, que ataco esse niilismo chic desde os tempos de colégio. Nego que o testemunho de Kiefer, enraizado na culpa alemã, contenha verdades universais.

Ao se referir a críticos como Kenneth Clark, Ernst Gombrich e H.W. Janson, seu livro evoca um tempo dominado pela procura de um cânone. A senhora se identifica com eles?

A História da Arte, de Gombrich, que meus pais provavelmente compraram por meio do Clube do Livro, foi uma das minhas influências primárias. Admiro Gombrich, tanto como Janson e Clark, pela habilidade de analisar assuntos complexos de maneira clara, concisa, concedendo importância aos ciclos históricos, o que é negado pelos pós-modernos. Os debates sobre o cânone se tornaram absurdamente politizados. Acho que é obrigação dos críticos e professores identificar as obras mais relevantes produzidas em todos os séculos. Contudo, não são os críticos que criam o cânone, mas os próprios artistas, que estabelecem a linhagem de influências através dos séculos. O crítico meramente descobre o cânone herdado pelos artistas maiores, dão nova forma e transmitem para as próximas gerações. Eu me identifico fortemente com as escolas alemã e inglesa do século 19, que são historicistas. Detesto a atual crítica literária e artística com seu foco estreito, jargão elitista e cinismo barato. Gombrich, Janson e Clark reconhecem o poder da grande arte, que eles não vandalizam com jogos tolos de desconstrução.

Depois de Break, Blow, Burn, um estudo sobre 43 melhores poemas de língua inglesa, a senhora publica este Imagens Cintilantes com 29 ensaios sobre arte e seus artistas favoritos. Pretende seguir os passos de seu mentor Harold Bloom quando faz escolhas como essas?

A cronologia está invertida: foi Bloom que me seguiu. Meu primeiro livro, Personas Sexuais, publicado em 1990, é um apanhado da arte ocidental que cobre da pré-história aos tempos modernos. Bloom não publicou nada tão variado em conteúdo até seu Cânone Ocidental, que é de 1994. Break, Blow, Burn, produto de muitas décadas dentro de uma sala de aula, não tem nada a ver com Harold Bloom. Existe uma indústria de antologias poéticas nos EUA que dominou o mercado editorial por mais de 60 anos, até aparecer Break, Blow, Burn, projeto de seis anos idealizado como um volume magrinho para protestar contra os volumes grossos, pesados e caros que tornaram o estudo da poesia uma tarefa enfadonha para milhões de estudantes. Os Melhores Poemas da Língua Inglesa de Bloom, publicado em 2004, é um desses calhamaços, com 1.008 páginas. Embora Bloom e eu concordemos sobre os poemas pré-modernos, nossos julgamentos sobre a poesia contemporânea são diametralmente opostos. Por exemplo, eu adoro a poesia vernacular, beat, influenciada pelo jazz, que Bloom desdenha. De modo semelhante, ele superestima John Ashbery, cuja poesia pseudo filosófica considero elitista. Finalmente, Bloom foi diretor da Yale Graduate School onde estudei, mas jamais meu mentor. Nunca tive aulas com ele e nem mesmo o conhecia. Bloom ouviu rumores de que eu preparava uma dissertação que mais tarde viria a ser Personas Sexuais e me chamou para conversar. Ele disse: “Minha querida, sou a única pessoa que pode orientar essa dissertação!” E estava certo, pois nenhum professor do departamento de Inglês tinha algum interesse em estudos sobre sexo ou psicologia. 

Por que a senhora escolheu o cineasta Georges Lucas como o artista vivo mais importante? Considera que ele terá, no futuro, a importância que Leonardo da Vinci teve para o Renascimento italiano?

Não há artista vivo em qualquer campo, incluindo o literário, que tenha tido tão profundo impacto na imaginação de milhões. Em Guerra nas Estrelas, Lucas criou um universo mitológico que obcecou gerações de jovens e inspirou uma vasta indústria de produtos e jogos. Foi justamente o êxito comercial de Lucas que prejudicou seu status artístico. Pioneiro da tecnologia digital, Lucas tem enorme influência na vida contemporânea. A sofisticada área de animação computadorizada deve tudo a ele. Seria difícil comparar qualquer artista a Da Vinci, que viveu num explosivo momento da história, quando a arte e a ciência estavam em expansão. Contudo, Da Vinci e Lucas dividem essa ambição de explorar a fronteira entre arte e tecnologia.

Mas as primeiras linhas de Imagens Cintilantes exploram as consequências negativas da revolução digital. A senhora diz que estamos perdendo a habilidade de pensar de forma analítica justamente por causa dela...

Eu adoro a web e fui uma das primeiras a publicar nela como cofundadora do Salon.com, em 1995. A rede, então, era desqualificada pela imprensa. Um proeminente jornalista político do Boston Globe chegou a dizer que eu estava perdendo tempo escrevendo para a rede, que jamais seria uma rival séria dos jornais. Ocorreu justamente o oposto com ela, tornando-se de tal forma dominante que levou a uma crise jornais como o The New York Times. Também adoro meu iPhone. Não consigo imaginar minha vida sem ele. Contudo, os cérebros e circuitos neurológicos do jovens, assim como os dos profissionais de classe média que usam computadores o dia todo, estão sendo invadidos e transformados sem que eles entendam como. O olho sofre com anúncios piscando na rede. Para se defender, o cérebro fecha avenidas inteiras de observação e intuição. A experiência digital é chamada interativa, mas o que eu vejo como professora é uma crescente passividade dos jovens, bombardeados com os estímulos caóticos de seus aparelhos digitais. Pior: eles se tornam tão dependentes da comunicação textual e correio eletrônico que estão perdendo a linguagem do corpo.

Não há uma única menção à figura do Cristo, tão representada na história da arte ocidental, embora a senhora escreva sobre as relações entre arte e religião no começo de seu livro. Por quê?

Em Personas Sexuais, demonstrei o nascimento da arte na religião pré-histórica e argumentei que a arte jamais perdeu essa sua aura religiosa. Em Imagens Cintilantes, mostro que a espiritualidade, surpreendentemente, animou até artistas abstratos como Mondrian e Pollock. Embora seja ateia, tenho enorme respeito pela visão metafísica do sublime na religião. Ideologias políticas como o marxismo, que não enxergam nada no mundo além da sociedade, cegam muitos intelectuais contemporâneos para a amplitude do universo. O romantismo radical de Rousseau e Wordsworth se opôs à injustiça social, mas também louvou os poderes elementares da natureza. Por que, então, meu interesse na religião me obrigaria a mencionar Cristo, Jeová, Buda, Zeus ou Xangô? A Crucificação de Cimabue estava em minha primeira lista de Imagens Cintilantes, mas eliminei. No lugar, uso o trabalho final de Donatello, sua aterrorizante Maria Madalena, cujo rosto masculino e corpo nos fazem lembrar as xilogravuras góticas do Cristo torturado.

IMAGENS CINTILANTES

Tradução: Roberto Leal Ferreira

Editora: Apicuri(224 págs.,R$ 49)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.