Ilustradores assumem o papel autoral

Editoras apostam no desenhista como escritor e valorizam projetos sofisticados

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

17 de fevereiro de 2009 | 00h00

Primeiro de uma série de publicações temáticas, o catálogo da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB)sobre literatura infantil e juvenil traça o perfil de 40 ilustradores brasileiros e estrangeiros de diferentes gerações. Os trabalhos apresentam não só o estilo pessoal desses artistas como refletem a evolução da ilustração de livros no Brasil nos últimos 40 anos, desde que Ziraldo desenhou, em 1969, o hoje clássico Flicts. O ilustrador Odilon Moraes, autor de A Princesinha Medrosa (leia texto ao lado), lembra que o colega carioca revolucionou o vocabulário gráfico da época, destacando o papel autônomo das imagens que, nos anos 1980, obrigariam a crítica a prestar atenção na ilustração como linguagem independente, "adotando novas abordagens de leitura".Nos anos 1990, ainda segundo Moraes, se deu finalmente o encontro entre uma "jovem e criativa geração de artistas" com esses consagrados ilustradores. Incentivados a experimentar, eles encontraram editores dispostos a apostar em novos projetos gráficos que perseguiam não só uma revolução formal, mas autoral. Recentemente, as editoras perceberam o potencial do ilustrador-autor, bancando projetos gráficos até então impensáveis para o público infantil, como o do multimpremiado ilustrador, escritor, designer e educador paulistano Fernando Vilela, nascido em 1973. Há três anos, a Cosac Naify, que em pouco mais de dez anos de existência acumulou 200 livros em seu catálogo infanto-juvenil, apostou num projeto ousado, Lampião e Lancelote, que acabou rendendo ao autor dois prêmios Jabuti em 2007, além de um prêmio internacional (o Bologna Ragazzi).É o tipo de livro que justifica o conceito "contrato de comunicação" de Charaudeau anteriormente citado, por exigir um olhar culto do leitor, considerando as múltiplas referências do autor. É o caso também de Odilon Moraes, que coordena com Augusto Massi para a mesma Cosac Naify a coleção Dedinho de Prosa, dedicada a formar jovens com clássicos ilustrados da literatura brasileira e estrangeira, como O Aprendiz de Feiticeiro de Goethe (ilustrado por Nelson Cruz) e O Homem Que Sabia Javanês, de Lima Barreto, com desenhos do próprio Odilon. "Há quem pense que, por ter imagens, um livro é necessariamente para crianças, mas não é o caso da obra de Lima Barreto" - a história de um migrante pobre que se dá bem na vida por cair nas graças de um barão. "Eu nunca penso nas crianças quando ilustro livros infantis", admite Odilon, pai de um menino de três anos. "Isso me bloquearia", justifica.A coleção Dedinho de Prosa traz ainda outros grandes autores, entre eles Machado de Assis. Outra editora, a Companhia das Letras, impulsionada pelo sucesso editorial de livros em quadrinhos que contam a história do Brasil (como D. João Carioca, ilustrado pelo cartunista Spacca), acaba de criar um selo especialmente para os grandes clássicos da literatura brasileira (Jorge Amado, entre eles), seguindo o exemplo de editoras como a Agir, que tem a série Grandes Clássicos em Graphic Novel. Tanto interesse tem justificativa: as encomendas de livros por parte do governo representam cerca de 25% de tudo o que é vendido no País. E as vendas de livros movimentam cerca de R$ 3 bilhões por ano, respondendo o segmento didático e paradidático pela metade desse total.

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