Identidade do País traduzida na arte

Com cerca de 400 obras criadas entre o século 18 e 20, De Valentim a Valentim apresenta a produção escultórica no Brasil

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

19 Março 2009 | 00h00

Terra de grandes escultores, o Brasil parece ser um país onde a história da escultura permanece relegada a um segundo plano. Pelo menos até agora, já que a abertura da mostra De Valentim a Valentim, que reúne cerca de 400 obras criadas por diversos artistas entre os séculos 18 e 20, contribui para reduzir esse curioso contrassenso, mostrando que há, para além da luminosa produção de mestres como Mestre Valentim e Rubem Valentim (respectivamente responsáveis pelo início e encerramento da exposição), Rodolpho Bernardelli e Brecheret, Krajcberg e Stockinger, vasta rede de autores de qualidade e uma complexa trama de questões que merecem ser contempladas para que se ter visão mais detalhada dessa ampla trajetória. O grande número de obras expostas no Museu Afro Brasil - respeitando um estilo que já é marca de Emanoel Araújo, diretor do museu e cocurador da exposição, com a pesquisadora Mayra Laudanna - num primeiro momento atordoa o espectador, para que pouco a pouco se sedimentem os ecos desses mais de dois séculos de criação e se identifiquem os principais elos condutores e núcleos organizadores dessa leitura proposta. De certa forma, a exposição começa pelo fim. Quem quiser uma apreensão cronológica dessa história deve seguir até o fundo do espaço expositivo, onde ficam as obras de Mestre Valentim, figura emblemática da arte brasileira, que parte do barroco para tornar-se o escultor inaugural do neoclassicismo no Brasil, com trabalhos que pontuam todo o desenvolvimento urbano do Rio. Em seguida, num grande fluxo contínuo, o espectador pode vislumbrar um conjunto amplo de peças, muitas de pequeno porte, de autoria de artistas formados por Rodolpho Bernardelli na Escola Imperial de Belas Artes, ele próprio representado por um núcleo importante de obras, como a bela Moema. Diretor da academia por um quarto de século, Bernardelli é figura incontornável desse processo. Em seguida há um segmento de peso dedicado aos artistas oriundos de São Paulo, em sua maioria imigrantes italianos, para encerrar-se com os mestres mais modernos: Brennand, Krajcberg, Stockinger, bem como Rubem Valentim, um dos poucos a trabalharem um repertório não-figurativo, baseado nos símbolos do candomblé. A interrupção é estratégica, mas não pontua uma visão interrompida da trajetória da escultura do Brasil. Araújo planeja realizar em 2010 uma segunda edição da mostra, contemplando a vertente mais construtiva e expressiva dessa produção, iniciando com a obra de Maria Martins e vindo até a criação contemporânea. A exposição atual, que será aberta hoje, daqui a dois meses vai ser complementada com a edição de um alentado livro. Dentre as várias frentes trabalhadas, destacam-se desde os temas clássicos da escultura (não podemos esquecer o peso incontornável da formação acadêmica) bem como seus usos mais tradicionais (a arte tumular e os monumentos). O indianismo e a representação do negro se fazem presentes com grande intensidade, destacando também a abordagem antropológica, esforço para evidenciar a importância da busca da identidade nacional ao longo desse vasto período. Serviço De Valentim a Valentim, A Escultura Brasileira - Século XVIII ao XX. Museu Afro Brasil. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Parque do Ibirapuera, 5579-0593. 10 h/17 h (fecha 2.ª). Grátis. Até 19/7

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