Humor e irreverência em Curitiba

Farsa reúne quatro comédias curtas e Henfil, Já mergulha na obra do cartunista

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2008 | 00h00

É sempre muito difícil escolher o que ver numa vasta programação teatral. Difunde-se a idéia de que o público prefere comédias ou peças com atores consagrados, mas talvez a questão seja de referência: corre-se atrás do conhecido, do que parece oferecer menos risco. Afinal, em teatro, uma má escolha pode resultar em torturante experiência. De saída, promete ser bom um espetáculo que une quatro deliciosas comédias curtas de autores como Cervantes (Os Faladores), Molière (O Médico do Saltador), Chekhov (O Urso) e Martins Pena (Os Ciúmes de Um Pedestre). Mas a primeira resistência surge quando se lê num trecho da sinopse: "O histrionismo, o exagero e a fisicalidade exacerbada - características das montagens farsescas - marcam a ação de ritmo vertiginoso." Será que isso vai se traduzir no palco em esgares faciais, correrias, interpretações caricatas e humor grosseiro?Pois não é o que ocorre em Farsa, que reúne essas quatro comédias, traz tal sinopse, e é um dos 21 espetáculos da mostra oficial do 17º Festival de Teatro de Curitiba. Não por acaso, embora apresentado no espaçoso Teatro da Reitoria, de cerca de 700 lugares, teve lotação esgotada e fará uma sessão extra além das duas previstas. O mérito é grande se considerarmos que o festival oferece 1.067 apresentações de 283 espetáculos entre mostra oficial e paralela, sem contar eventos especiais. Farsa tem direção de Luiz Arthur Nunes, gaúcho radicado no Rio, e um elenco formado em parte por atores que oferecem ?referência? para o público por seu trabalho na TV: Luciana Braga, Bianca Byington, Cláudia Ohana, Sérgio Marrone, Marcos Breda, Wanderley Gomes e Mário Borges. O espectador poderia até decepcionar-se, pois é quase impossível reconhecê-los em alguns personagens, sob bigodes postiços, maquiagens, perucas. Por outro lado, todos têm atuações impecáveis e na harmonia alcançada em cena dá para reconhecer o toque unificador de um bom diretor. A sinopse deixa de assustar sem se tornar falsa. O histrionismo está presente, assim como a tal fisicalidade exacerbada. Ela aparece, por exemplo, nas transformações de Marcos Breda que, na pele do criado Sganarello, na peça de Molière, se faz passar por um médico e depois inventa um irmão gêmeo para o mesmo médico. O encontro entre os gêmeos, na verdade, o mesmo criado trapalhão, rende ótimas soluções, surpresas, gargalhadas. O ?corpo que fala? expressa ainda a ira do russo Sminorf (Marone), o fazendeiro rude que dá título à peça de Chekhov e também a fúria do capitão-do-mato (Mario Borges, indicado para o Prêmio Shell por essa peça) que se vê traído pela esposa que trancara em casa na farsa de Martins Pena. Mas se há muito trabalho corporal, em todo o elenco, o que não se vê é a facilidade do gesto óbvio ou da movimentação confusa ou frouxa. Tudo é rigorosamente marcado para que o humor brote das situações e, fisicamente, da quebra de expectativas, na surpresa causada entre o que se espera e o que se vê.Certamente, o grande desafio na montagem dessas peças aparentemente fáceis - daí subirem ao palco com freqüência - é manter um sabor de época sem fazer montagem reverente demais ou, no extremo oposto, confundir farsa com achincalhe. O grupo parece ter feito a escolha precisa entre os momentos em que se podem levar a sério os sentimentos e atitudes dos personagens daqueles em que um certo distanciamento, um olhar crítico sobre algo que ficou datado ou ingênuo demais, se torna necessário. Há um trânsito constante entre ser verdadeiro ou ?piscar o olho? para a platéia, mas com rédea curta. Os atores nem se levam tão a sério a ponto de não poder brincar, nem são tão irreverentes que não possam voltar à seriedade. Ganha o público que ri à vontade e entra em contato com obras curtas de autores de grande fôlego. Farsa já viajou de Norte a Sul do País, em maio fará temporada em Campinas e, talvez, em junho na cidade de São Paulo.Três atores vestidos de preto, André Coelho, Gabriel Gorosito e Moa Leal, um banco, raros elementos cênicos. O despojamento parece ser a marca de Henfil, Já, espetáculo curitibano que integra a mostra paralela. Na primeira cena, os atores tentam fazer uma expressão de indignação. Esse parece ser o impulso que move a criação da montagem, voltar à obra do cartunista Henfil em busca de um tempo em que a crítica social repercutia, em que a indignação e capacidade de agir contra as injustiças davam a medida de valor dos homens. Talvez para resgatar tais princípios.Num espetáculo que é quase jogral, apoiado sobretudo nas palavras - retiradas da obra do artista -, a diretora construiu uma variada partitura corporal, bem executada pelos atores. Há bons momentos, como o da interrupção de uma leitura para criticar a trilha sonora como elemento estimulante de emoção rasa. Mas, apesar da verdade e do óbvio comprometimento dos atores com o tema, sente-se falta de um elo mais firmemente delineado entre a visita à obra de Henfil e sua repercussão nas inquietações dos jovens de hoje, no palco e na platéia. A repórter viajou a convite da organização do festival

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