Homenagens com arte e invenção

Amelia al Ballo, de Menotti, e Le Villi, de Puccini, lembram um ano de morte do primeiro e 150 anos do nascimento do segundo

Crítica Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

A vivacidade da encenação de Livia Sabag, a inventividade de suas soluções para essa história simples de traição e futilidade, é o principal atrativo da montagem de Amelia al Ballo, de Gian-Carlo Menotti, que estreou domingo com Le Villi, de Giacomo Puccini. É imaginosa a dupla homenagem a um ano de morte de um e aos 150 anos de nascimento do outro, ao trazer a primeira ópera desses dois compositores cuja linguagem tem muito em comum.As marcações - realçadas pela iluminação de Maneco Quinderê - são sempre divertidas, seja na ária em que o Amante conta como eles se conheceram; ou quando Amelia e seus dois homens se perguntam, afinal, o que está certo e errado. Quanto à entrada do coro é um espetáculo à parte, ao reunir ícones do século 20 em hilariante cumplicidade. Com esse tipo de abordagem cênica, Livia enfatiza inteligentemente o caráter de versão moderna dos antigos estereótipos cômicos italianos que Menotti quis dar às figuras de sua história.O timbre generoso e a desenvoltura cênica de Martin Mühle fazem do Amante a melhor presença em cena. É muito bom o seu desempenho em "Fu di notte", que ele canta com todos os clichês gestuais da grande ária romântica. Também Leonardo Neiva está muito bem como o Marido. Quanto à Amelia de Claudia Ricitelli, o timbre um tanto seco e a voz pequena não a beneficiam nos recitativos, em que não a ajudou a rumorosa condução orquestral de Juliano Suzuki. Mas a musicalidade de Ricitelli é indiscutível, e disso deu provas na sua romança "Vola intanto l?ora insonne".No elenco, além da classe de Sylvia Tessuto em breve aparição como a Amiga, estiveram bem Carlos Eduardo Marcos como o Chefe de Polícia e Marilu Figueiredo e Lydia Schäfer como as duas criadas. No conjunto, uma agradável encenação de um autor do século 20 que merecia ser mais conhecido.A influência de Verdi e de seu professor Ponchielli, inevitáveis num primeiro trabalho de operista, e a atenção a determinados moldes afrancesados - a presença de Bizet na música do balé, por exemplo - tornam Le Villi ainda mais fascinante, pelos momentos em que se vê aflorar os elementos típicos do idioma pucciniano: a romança de Anna, partes do dueto de amor, o lamento de Roberto. Trazer, neste Ano Puccini, a sua primeira ópera, tão raramente encenada, oferece ao público uma oportunidade preciosa de conhecê-lo melhor.Porém, a idéia de João Malatian de fazer com que a ação de Le Villi se passe na imaginação de Anna que, provavelmente enlouquecida pelo abandono, imagina, em seus delírios, a vingança contra o namorado infiel, é discutível na medida em que rouba à ação do libreto seu caráter fantástico - elemento fundamental na lenda de origem germânica que está na base da história. Isso posto, a montagem é funcional e convincente, valorizada por boas interpretações de Mirna Rubim (Anna), Douglas Hahn (Guglielmo) e pela regência precisa de Jamil Maluf.O timbre bonito e a facilidade com que ele se comporta em cena fazem de Eric Herrero um tenor promissor. O que se pergunta é se é cauteloso um cantor lírico enfrentar tão cedo um papel spinto como o de Roberto. A rigor, não foi má a sua leitura do lamento mas foi uma passagem em que ele teve de forçar perigosamente seu instrumento. ServiçoLe Villi e Amelia al Ballo. Teatro Municipal (1.580 lug.). Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, Centro, 3397-0327. 5.ª e sáb., 20h30. R$20/R$ 40

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