Homenagem ao humanista mineiro Hélio Pellegrino

Na porta do consultório de um psicanalista, em Copacabana, havia uma placa onde se lia: "Só um louco se analisa com Hélio Pellegrino." Lenda ou não, essa história resume o que Hélio Pellegrino (1924-1988) foi para a política, a psicanálise e a poesia brasileira: "Um vulcão caótico." Esse humanista, que ignorava a norma tanto dentro do consultório como pela vida afora, é homenageado pela Fundação Casa Rui Barbosa (FCRB), no Rio, guardiã do seu acervo desde 1992.Os psicanalistas Carlos Alberto Barreto, João Batista Ferreira e Maria Rita Kehl participam de mesa-redonda sobre a vida e a obra do intelectual mineiro. O evento é gratuito e ocorre no auditório da FCRB, às 18 h de hoje (tel.: 21 3289-4669).Pellegrino não foi psicanalista ortodoxo. Tinha forte formação cristã, que o fazia confundir confissão com análise. Não seria de espantar se ele falasse mais do que o analisando. A psicanálise não era outra coisa senão o encontro com o outro. Em 1973, foi um dos fundadores da Clínica Social de Psicanálise, instituição pioneira - e polêmica - de atendimento gratuito. Ortodoxia não combinava com o coração desmesurado do psicanalista, característica ressaltada pelos amigos. Hélio Pellegrino formava o grupo dos quatro mineiros, os quatro "cavalheiros de um íntimo apocalipse", com Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. (Sabino o transformou no Mauro Lombardi, personagem do romance O Encontro Marcado, de 1956). Pellegrino mostrou na prática que a mediocridade se traveste de pretenso equilíbrio.A oratória arrebatada, ele colocou a serviço da oposição à ditadura militar. Chamado de "homem-comício", foi um dos líderes da comissão dos 100 mil, eleita depois da passeata de mesmo nome. Foi até Brasília conversar com Costa e Silva, que se sentiu afrontado quando Pellegrino respondeu ironicamente por que se dizia o representante da oposição: "Porque fui eleito por eleição direta, presidente." Nelson Rodrigues, apesar do reacionarismo, foi grande amigo de Hélio e dizia que ele tinha "a tendência da ópera". Hélio Pellegrino, 20 anos após sua morte, é um petardo contra a indiferença.

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

29 de outubro de 2008 | 00h00

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