Hollywood fez a festa da transição

De um lado, medo do terror e da crise econômica; de outro, euforia por Obama e crença no glamour

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2009 | 00h00

Menos festas e botox, mais aparatos de segurança - a 81.ª cerimônia de entrega do Oscar, que ocorreu ontem no Kodak Theatre, em Los Angeles, refletiu o momento de transição em que vivem hoje os Estados Unidos. De um lado, a crise econômica mundial, enfrentada pelo novo presidente, Barack Obama, que obrigou uma drástica redução nos investimentos na grande festa do cinema. De outro, o infindável medo do terrorismo, herança do governo Bush, que obrigou a polícia a utilizar um aparato nunca visto no tapete vermelho. E, em meio a tantos espinhos, estrelas do porte de Leonardo DiCaprio e Meryl Streep, com a missão de manter o inabalável glamour.Na cerimônia de ontem, em que a formalidade combateu a ostentação de anos passados, Hollywood mostrou ter apertado o cinto mas manteve o nariz empinado. "A situação é parecida com a grande crise econômica de 1929", disse o especialista em moda Michael O?Connor, em entrevista a uma emissora de TV de Los Angeles. "As pessoas procuram nos famosos uma imagem a imitar e Hollywood tem essa missão." É o que explica também, no seu entender, a aposta em vestidos que lembravam a estética dos anos 1950, baseada nas cores preta e branca.Se a crise atual não é tão acirrada como a recessão de 80 anos atrás, a precaução foi evidente - as estrelas desfilaram normalmente no tapete vermelho, descendo de enormes limusines com roupas de gala de grifes famosas e exibindo jóias caras. Todos sabiam, no entanto, que a noite não seria tão longa como nos bons tempos, pois as tradicionais festas pós-Oscar foram mais singelas e menos numerosas neste ano.A mais badalada de todas, por exemplo, a promovida pela revista Vanity Fair, que reúne a maior quantidade de estatuetas douradas recém conquistadas, sofreu uma ligeira modificação, transformando-se neste ano em um encontro "realmente íntimo" (sinônimo de redução de convites). Mas o que deixou boquiabertos os especialistas em fofoca foi um pequeno detalhe do comunicado divulgado pelos organizadores: admitir que seria reutilizada parte da decoração de anos passados. Foi o mesmo que anunciar o fim do mundo. Quem salvou a pátria foi Elton John, que não tirou uma pluma de sua tradicional festa beneficente, arrecadando cerca de US$ 3 milhões para instituições que cuidam de crianças aidéticas.O sinal amarelo, na verdade, estava aceso desde janeiro quando, depois da cerimônia do Globo de Ouro, apenas três festas de arromba foram realizadas naquela noite - habitualmente são, ao menos, dez. Outro indicador foi a redução dos investimentos dos estúdios no lobby por seus filmes.Basta o exemplo do longa mais indicado, O Curioso Caso de Benjamin Button: foram gastos cerca de US$ 10 milhões em sua promoção durante o processo de votação, quando a quantia nunca se posicionava abaixo dos US$ 15 milhões.Na guerra das cifras baixas, até a rede ABC, que transmite a cerimônia para os Estados Unidos e o resto do mundo, descobriu-se abandonada por velhos amigos. Como a General Motors, que, nos últimos dez anos, investiu US$ 105 milhões na transmissão da cerimônia e agora, afundada em uma crise terrível, retirou seu patrocínio. Foi acompanhada pela L?Oreal e pela marca de sabonete Dove. Os cartões American Express ficaram, mas garantiram apenas uma inserção comercial, segundo dados coletados pelo jornal Los Angeles Times.Com isso, a ABC foi obrigada não apenas a reduzir seus preços (do antigo US$ 1,7 milhão por inserção, bateu o martelo até para propostas de US$ 1,4 milhão) como também a quebrar uma regra, abrindo espaço para os estúdios anunciarem seus próximos lançamentos, o que antes não acontecia. Mesmo assim, a transmissão do show deve ter gerado US$ 68 milhões, cifra 16% menor que a do ano passado, que foi de US$ 81 milhões.Dessa forma, nunca o aceno de DiCaprio e o sorriso de Meryl foram tão importantes. Eles e os demais astros receberam a missão de manter Hollywood como a cidade dos sonhos em meio a bancos fechando e o desemprego aumentando. Tornaram-se tão importantes a ponto de a polícia de Los Angeles reforçar uma segurança que já era exemplar.Assim, além de vários quarteirões fechados ao redor do Kodak Theatre, do uso de helicópteros e de soldados armados no terraço dos edifícios ao redor (estratégia habitualmente utilizada), foi instalada ainda uma máquina, conhecida como Coral, própria para situações-limite. Com um design que lembra o simpático robô de Wall-E e capaz de detectar a variação térmica de qualquer pessoa ou objeto, ela é apta em descobrir a aproximação de qualquer homem-bomba ou portadores de explosivo plástico. Instalada no ponto de chegada das estrelas, a Coral permitiu que Hollywood, mesmo alquebrada, mantivesse sua integridade.

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