Histórias verídicas falam de perda, sofrimento e superação

Recomeços, livro organizado pela jornalista Lina de Albuquerque, reúne 26 depoimentos de gente famosa e de anônimos

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

Dorina de Gouvêa Nowill se acostumou com o abuso de diminutivos que grande parte das pessoas faz uso ao se dirigir a ela. E sempre achou tudo isso muito desagradável. Quando era presidente da União Mundial dos Cegos viajava constantemente e, num dos voos, uma comissária insistia em oferecer-lhe um "chazinho", um "cafezinho", uma "bolachinha". Qual foi a surpresa da moça quando a senhora que completará 90 anos no próximo dia 28 pediu um uísque - duplo.Histórias verídicas de sofrimento, e de uma cética superação a princípio, foram reunidas no livro Recomeços, cujo lançamento ocorre hoje na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis, organizado por Lina de Albuquerque. A jornalista, que perdeu pai, mãe, seu único irmão e um amigo da família em um acidente de carro em 1996, afirma na apresentação do livro que o pouco que lhe restou foram certezas na vida, entre elas a de que jamais encontraria explicação para a tragédia. Por isso, a amargura não encontrou espaço dentro do seu peito: o trabalho foi uma ferramenta imprescindível para a superação do trauma, segundo a jornalista que teve passagens por alguns jornais, entre eles o Estado, e foi convidada a ser editora de reportagem da Marie Claire quatro meses depois da tragédia.Há um ano e meio, quando o editor Luís Colombini a chamou para um almoço, a fim de conversar a respeito da compilação, Lina já foi disposta a recusar o convite. Tudo aquilo soava superficial e autoajuda demais, gênero do qual sempre procurou manter distância. "Mas o Luís estava tão animado com o projeto e me fez um convite tão sincero, que acabei quebrando esse preconceito. Um amigo meu, que já leu o livro, me acalmou dizendo que Recomeços não é de autoajuda, mas sim de alto ajuda, com L mesmo", diverte-se.Vinte e seis personagens famosos e anônimos concederam entrevistas a Lina, que transcreveu em primeira pessoa cada depoimento. À exceção de outro jornalista, José Hamilton Ribeiro, que se prontificou a escrever sobre a perda de sua perna esquerda na cobertura da Guerra do Vietnã. Alguns nomes cogitados, como por exemplo, Danuza Leão e Washington Olivetto, se recusaram a participar, respectivamente, por acreditar ter esgotado o assunto da morte do filho e não se sentir à vontade para voltar a falar sobre seu sequestro de 53 dias. "Entendo e respeito a opção pelo silêncio. Cada um sabe a dor que tem", diz Lina.A jornalista não se tornou mais ou menos religiosa após sua tragédia familiar, ainda que acredite em Deus. Não procurou resvalar sobre o tema, mas por coincidência estão no livro Mãe Carmen, filha da Mãe Menininha do Gantois, herdeira do terreiro de candomblé mais famoso da Bahia, Lama Michel, presidente dos conselhos da Fundação Lama Gangchen, e Maria Rita Pontes, sobrinha e sucessora de Irmã Dulce. ServiçoRecomeços. De Lina de Albuquerque. Editoras Saraiva e Versar. 160 págs. R$ 29. Livraria Saraiva - Shopping Higienópolis. Avenida Higienópolis, 618, loja 315, telefone3662-3060. Hoje, às 19h30

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