História real inspira o monólogo La Douleur

Solo com Dominique Blanc traduz vivência da escritora Marguerite Duras

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Na noite de quarta-feira, na mesma hora em que Patrice Chéreau subiu ao palco do Teatro Anchieta, em São Paulo, entrava em cena, no Theatro São Pedro de Porto Alegre, a atriz Dominique Blanc para apresentar o solo La Douleur, dirigido a "quatro olhares" por ele e Thierry Thieû Niang. Hoje à noite, será a vez de ela subir ao palco do Anchieta, enquanto Chéreau atuará no festival gaúcho. Na verdade, Dominique já estará em cena na entrada do público. "É um tempo longo, mas é uma ideia muito bela: uma mulher que espera ao lado do telefone. É uma imagem dramática, na minha opinião, muito forte", comenta Dominique em entrevista exclusiva ao Estado na manhã seguinte de sua primeira apresentação no Brasil.

Leia a entrevista na íntegra

O solo A Dor tem como texto-base um diário escrito por Marguerite Duras em 1945. Os campos de concentração começam a ser esvaziados e ela espera notícias do marido Robert (Antelme). Não é ficção, ocorreu com a escritora. Sempre ao seu lado está o amigo D. (o escritor Dionys Mascolo, um segundo marido). No palco, apenas uma mesa e cadeiras. Com poucos movimentos, uma interpretação de impressionante intensidade e nenhum exibicionismo, Dominique nos leva a "ver" imagens como a estação D"Orsay apinhada de mulheres no fim da guerra. Simpática, recebe a reportagem, mas não permite fotos, nem da entrevista, nem do espetáculo.

Há interferências no texto original? Por exemplo, há um momento em que você se dirige ao público e deseja a mesma dor a quem estiver "enojado" com o que ouve. Soa bem agressivo. Por que essa opção?

Isso foi escrito por Marguerite Duras, é inacreditável, parece endereçado à uma plateia. Não há interferências. Nós misturamos o texto La Douleur, escrito em 1945 e editado em 1985, com trechos dos Cadernos de Guerra, que foi publicado não faz muito tempo, foi elaborado a partir do diário e é muito mais violento. Por exemplo, o que ela fala contra De Gaulle e a Direita francesa é terrível, muito mais agressivo. Dali retiramos esse trecho que dirigimos ao público. Eu peguei o diário na mão. São dois cadernos escolares com anotações em uma escrita regular e calma para contar algo tão caótico e horrível.

Há uma sutil opção pelo distanciamento. Você fala em primeira pessoa, mas não é Duras. Por quê?

Não seria interessante interpretar Marguerite Duras, cair na imitação. E eu iria me apoiar na escritora que conhecemos hoje ou na mulher de 30 anos que escreve o diário? De qualquer forma seria uma redução. Uma mulher espera, durante a Guerra, em Paris, seu marido que é um resistente e está num campo de concentração. Isso retratado num texto magnífico torna-se espera mítica, universal. Compreensível em qualquer lugar.

Muito intensa, sua atuação parece ser meticulosamente elaborada para não provocar piedade. Por quê?

Penso que o patético seria menos interessante nessa situação. Explorar o pathos não seria bom. Quero transmitir a dor dessa espera, mas para isso não preciso mostrar sofrimento dessa forma (faz expressão de vítima).

Gostaria que falasse um pouco sobre sua parceria com Chéreau. Não há o risco de se repetir ao trabalhar muito com um mesmo diretor?

Comecei a fazer teatro com Chéreau, na montagem de Peer Gynt, em 1981, na qual eu tinha um papel pequeno. Fiz outras coisas fora e, mais tarde, quando ele era já diretor do Théâtre Amandiers, em Nanterre, atuei com ele em Les Paravents, de Jean Genet, num papel bem maior. Fizemos dois filmes, A Rainha Margot e Ceux Qui M"aiment Prendront le Train e, depois, ele me dirigiu no papel central de Phedra, de Racine. Aí fizemos juntos a leitura dramática de La Douleur e, depois, ele e Thierry dirigiram esse texto. Ou seja, foram algumas atuações, não é exclusividade, que considero perigosa, porque pode cair na rotina.

Qual é o papel de cada um, Chéreau e Thierry, na direção de La Douleur?

São dois olhares. Às vezes eu ensaiava só com Thierry, outras só com Chéreau e também nós três juntos. A qualidade do olhar não é a mesma, a sensibilidade muda. É uma parceria original que resultou muito bem.

Numa entrevista à imprensa francesa você diz que estava em plena crise quando iniciou os ensaios de La Douleur, mas não explicita. Poderia falar qual era a sua insatisfação?

O métier de atriz é magnífico, mas também difícil. Sou exigente com minhas escolhas. Recebemos convites para trabalhos que não são muito bons, mas também com os quais se pode ganhar dinheiro, há muitas tentações no caminho dos artistas. Assim, há momentos em que nos sentimos muito frágeis, vulneráveis, e depois de Phedra isso me aconteceu. Finda a temporada e a turnê, de repente... O deserto. Eu não encontrei ninguém para trabalhar e me senti muito só. Eu tinha começado com Chéreau, que me viu debutar, e então pensei que a única pessoa que teria um olhar sobre o meu caminho seria ele, e fui procurá-lo.

A repórter viajou a convite da organização do festival

Trecho De "La Douleur" (A Dor), De Marguerite Duras

"Alguma novidade? - Nenhuma." Já não me perguntam mais como vai, já não me dizem bom dia. Dizem: "Alguma novidade?" Eu digo: "Nenhuma." Vou me sentar ao lado do telefone, no sofá. Eu fico em silêncio. D. está inquieto. Quando não está me olhando, tem um ar preocupado. Há oito dias já, ele mente. Eu digo a D.: "Me diga alguma coisa." Ele não me fala mais que estou maluca, que não tenho o direito de deixar todo o mundo doente.

Agora ele diz apenas: "Não há nenhuma razão para que ele também não volte." Ele sorri, está magro também, todo seu rosto se estica quando ele sorri, Sem a presença de D., me parece que eu não poderia aguentar. Ele vem todos os dias, às vezes duas vezes por dia. Ele fica lá. Ele acende a luz da sala de visitas, já faz uma hora que ele está lá, devem ser nove horas da noite, ainda não se jantou.

Eu fito um ponto fixo além da janela negra. D. olha para mim. Então eu olho para ele. Ele me sorri, mas não é de verdade. Na semana passada ele ainda se aproximava de mim, me pegava a mão, me dizia: "Robert virá, eu juro." Agora sei que ele se pergunta se não seria melhor deixar de manter a esperança.

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