História do vento, por Shyamalan

Ele é o arauto da revanche da natureza que o cineasta mostra em Fim dos Tempos, sua nova leitura do Apocalipse

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

No dossiê de imprensa de Fim dos Tempos, M. Night Shyamalan conta que foi seu filme mais fácil de fazer. A idéia lhe veio quando dirigia seu carro por uma estrada no interior de New Jersey. Ele olhava os verdes campos, as árvores que se balançavam suavemente ao sabor do vento e lhe ocorreu o que poderia ser o início de um pesadelo - e se a natureza reagisse contra o homem, que nas últimas décadas tem submetido o planeta a uma vertiginosa escalada de degradação, a tal ponto que cientistas, não mais Nostradamus, apontam para o apocalipse próximo? ''Naquele momento, instantaneamente, pipocou na minha cabeça toda a estrutura da história de O Fim dos Tempos e os personagens se apresentaram de forma muito clara. Foi uma sensação muito boa, porque os filmes ficam sempre mais acessíveis quando a estrutura é o fator predominante.'' Veja o trailer de ''Fim dos Tempos'' Ao mesmo tempo, foi complicado porque a Fox, parceira no projeto, deu plena liberdade ao diretor e, pelo que Shyamalan deixa subentendido, não existe experiência mais aterradora em Hollywood, onde costuma haver um grande controle. Começa de forma banal. Um dia no parque, em Nova York. As pessoas passeiam, correm ou simplesmente se sentam para ver o tempo passar. A primeira imagem é a desse homem que passa com um cão bem próximo à câmera. Mas esse cão já está alerta e passa para o espectador, de cara, a sensação de algo iminente. O cinema de M. Night Shyamalan constrói-se por meio de sinais que apontam para tragédias que estão sempre rondando seus personagens. Foi assim em O Sexto Sentido, Corpo Fechado, Sinais, A Vila e A Dama na Água. Inesperadamente, tudo pára e a parada é crucial em Fim dos Tempos, porque vai corresponder ao momento em que o homem - a humanidade - abre mão do mais básico dos instintos, o de sobrevivência, que nos tem feito avançar ao longo do tempo.Privadas do instinto de sobrevivência, as pessoas matam-se. De todas as formas. Não matam o outro, mas realizam o movimento interno, de acabar com elas mesmas. Um longo e lento suicídio coletivo - já não é o que vem ocorrendo, nesta verdadeira guerra contra o meio ambiente? Logo, Fim dos Tempos corta para a sala de aula em que o professor Mark Wahlberg tenta motivar seus alunos por meio de uma pergunta - as abelhas estão desaparecendo. O que eles acham que está acontecendo? Surgem várias hipóteses, mas, como diz o professor, a ciência vai produzir alguma razão para constar nos livros, mas no fim será somente uma teoria. Não seremos capazes de admitir que existem forças em ação, além de nossa compreensão.É o tema (um dos...) de Fim dos Tempos - o irracional que irrompe na vida das pessoas. Face à suspeita de um ataque terrorista - mas quem faria uma coisa dessas? -, o professor e sua mulher abandonam a cidade grande e iniciam o caminho de volta para casa. Embora estejam em crise, vai-lhes ser confiada a guarda de uma menina. Um homem, uma mulher e uma criança. A sagrada família - on the road, pois Fim dos Tempos é um filme de estrada, como esta (a nossa pobre) humanidade meio sem rumo no limiar do 3º milênio. Fim dos Tempos assemelha-se a um daqueles filmes sobre paranóia dos anos 50, quando, de repente, o mundo, tal como o conhecemos, deixa de fazer sentido. É um tema, ou um conceito, cada vez mais expresso no mundo pós-11 de Setembro, como o próprio M. Night Shyamalan não cessa de nos lembrar em seus filmes.As conclusões, como certos diálogos de Fim dos Tempos, parecem banais. Diante da morte iminente, o marido confessa que comprou um xarope de tosse para poder ir atrás do balcão com a atendente da farmácia, a mulher diz que comeu um doce com um colega e o caso virou ''atração fatal''. Essa banalidade é só aparente, porque, na verdade, Shyamalan, em Fim dos Tempos, está tratando do estado do mundo. Ele assume um discurso ''ambientalista'' que as pessoas não estão querendo ouvir. E, desta vez, não existe a reviravolta imprevista no final, que torna seus filmes eletrizantes. Talvez Fim dos Tempos seja autoral demais, e anticlimático, pois o diretor nunca foi tão pedagógico. Vale lembra o que dizia o mais moderno dos cineastas - Roberto Rossellini defendia que o cinema se tornasse cada vez mais pedagógico. Fim dos Tempos é estranho. Seu grande personagem não é o professor, nem sua mulher, sugestivamente chamada de Alma. É o vento, como arauto da revanche da natureza. Com o vento, vem o som. Tudo muito sofisticado, mas, para quem espera sangue - e violência -, mais do que desconcertante, poderá ser decepcionante.ServiçoFim dos Tempos (The Happening, EUA-Índia/2008, 96 min.). Suspense. Dir. M. Night Shyamalan. 16 anos. Cotação: Regular

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