Hiam Abbass, a mãe síria tem a cara da Palestina

Atriz de Lemon Tree e Paradise Now foi decisiva na construção da personagem

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 Março 2009 | 00h00

Hiam quem? Hiam Abbass, como o próprio Richard Jenkins - um grande coadjuvante que agora brilha num papel principal -, é uma atriz palestina que tem dado uma valiosa contribuição a filmes de peso. A Noiva Síria, Lemon Tree, Paradise Now, Free Zone. Foram quatro sucessos de crítica e, por que não dizer?, de público nos cinemas brasileiros, claro que num registro mais restrito, sem concorrer com os blockbusters de Hollywood. Mas Hiam, antes de fazer a mãe síria no independente O Visitante, participou de obras identificadas com o mainstream de Hollywood. Num conversa por telefone de Paris, onde mora, ela conta que assessorou Alejandro González Iñárritu na seleção e preparação do elenco marroquino de Babel. "De repente, tinha 40 pessoas pelas quais era responsável naquele set gigantesco. Alejandro encarregou-me principalmente das crianças." O caso de Munique, de Steven Spielberg, foi um pouco diferente. "Além de um pequeno papel, dei assessoria técnica. Como os atores que faziam os palestinos vinham de múltiplas procendências, fiquei o tempo todo no set ajudando a resolver os problemas de sotaques ou detalhes da cultura e do compartamento que são distantes para um diretor norte-americano." Seu passaporte é israelense, mas Hiam é palestina. É otimista, mas está mais preocupada do que nunca. "Sempre vivi e convivi numa das regiões mais turbulentas do mundo, mas a última guerra em Gaza me atingiu de uma maneira muito forte. Tento sempre não ceder ao ódio, que só aumenta a violência, mas as imagens da chacina de crianças pelo Exército israelense foram intoleráveis. Muita gente diz que a culpa é dos próprios palestinos, que as usam como escudos, mas aquela também é a nossa terra." Hiam conta como é seu processo de seleção de papéis. "Interesso-me pelas histórias, pelo roteiro, mas os encontros são sempre fundamentais. Em geral, são diretores com quem quero trabalhar (Spielberg, Iñárritu, Tom McCarthy, Amos Gitai. etc.), mas também são filmes que ajudam, e me ajudam a entender o mundo em que vivo." Uma atriz engajada? Sem dúvida, mas sua bandeira é a do humano. Ela estava em casa, em Paris, quando seu agente lhe telefonou para dizer que Tom McCarthy queria encontrá-la. "Ele escreveu parte do roteiro na França. Me explicou como era a personagem, a mãe desse jovem sírio que é preso e, depois, expulso dos EUA. Conversávamos muito e eu percebia que, mais do que me seduzir para o papel, ele queria que eu lhe desse os elementos para compreender a mentalidade e os costumes das mulheres da região." A personagem é uma mulher comum e, ao mesmo tempo, extraordinária. Não é imune aos preconceitos - sua primeira reação é de estranhamento, ao descobrir que a namorada do filho é negra. Sua beleza madura desestabiliza o viúvo Richard Jenkins. O repórter conta a declaração de amor de Jenkins e faz suas as palavras do ator. "Vocês me lisonjeiam. Vou entender isso como um cumprimento a todas nós, mulheres palestinas."

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