Heróis com amnésia já revelam uma tendência no romance atual

Desmemoriados surgem como metáfora de uma cultura politicamente aviltada e hipnotizada pela mídia

Joyce Carol Oates, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Assim como o futuro, a amnésia tornou-se um tema literário superpovoado. Rara na vida, a amnésia prolifera na literatura e nos filmes contemporâneos mais elaborados (como o engenhoso Amnésia, de Christopher Nolan). O atrativo de despertar, não para a torrente usual de memórias e associações, mas para uma tábula rasa de possibilidades infinitas é evidente, em especial numa época política/cultural degradada: a amnésia é "uma metáfora flutuante", como diz Jonathan Lethem em The Vintage Book of Amnesia (Vintage Books).Esta coisa que se poderia chamar de fantasia amnésica tem atrativos irresistíveis, tanto para o escritor como para o leitor, pois ela parece reproduzir a aventura misteriosa e sedutora do texto ainda-não escrito/ainda-não lido. Nenhuma mente real pode ser uma tábula rasa, mas o texto ainda-desconhecido imita esse vazio, provocando antecipação e ansiedade. O leitor se identifica com a condição de não-saber e deve voluntariamente suspender a "descrença" na antecipação do que virá. Fora do vazio catastrófico, há um mundo inteiro a ser construído onde nada estará fora de lugar ou será não intencional, e o mistério inicial de quem, onde, por que será explicado.Diferentemente dos amnésicos em vida, cujas fugas do olvido patológico podem ter sido provocadas por derrames, tumores cerebrais, alcoolismo, desnutrição, trauma severo na cabeça, os amnésicos literários e cinematográficos geralmente sofreram traumas psicológicos, a serem revelados em flash-backs; ou, se eles sofreram danos cerebrais verdadeiros, esses danos provavelmente serão superados por um esforço de vontade. Protagonistas de romances amnésicos não são tão incapacitados por suas deficiências neurológicas quanto capacitados por elas para embarcar em buscas heróicas de recuperação da identidade, ou, melhor ainda, de esquecimento de novas identidades. A busca amnésica geralmente prefigura um renascimento radical. O amnésico empreende uma viagem espiritual no mundo e na alma. Pelas estratégias da arte, o que poderia ser uma deficiência neurológica cruel torna-se um tipo perverso de experiência visionária. O herói amnésico de livros como The Raw Shark Texts (Cannongate), de Steven Hall, e Remainder (Vintage), de Tom McCarthy, foi expelido de um não-ser ordinário para a vida, diferentemente do resto de nós, num tempo presente radicalmente reduzido em que o mundo precisa ser ansiosamente vasculhado atrás de pistas. A busca do amnésico lembra a busca de inspiração pelo artista; o artista precisa estar alerta para "mensagens" por baixo da desordem aparente do mundo, deixando-se ficar aberto à disponibilidade, ou ao acaso.Tanto The Raw Shark Texts como Remainder são romances que buscam atingir um público de massa que levam seus narradores amnésicos em buscas imaginárias de identidade: na fantasia alucinante de Hall, que parece um cozido preparado por uma equipe de estudantes universitários ligados em mídia juntando pedaços de Alice no País das Maravilhas, e The Hunting of the Snark, Tubarão, Matrix, Amnésia, Harry Potter, Jaruki Murakami, Paul Auster e Stephen King, além de Carl Jung triunfante; na parábola corrosiva pós-existencial de McCarthy, menos. Em The Raw Shark Texts, imagens e tipografia são uma parte essencial do texto, que inclui um flipbook de 38 páginas de um turbarão se aproximando, cuja forma caricatural é formada por palavras minúsculas ("lembranças e pesares e desejos e tristezas e alegrias e sonhos"). No mais cerebral e teórico Remainder, de McCarthy, o protagonista amnésico sem nome torna-se fatalmente obcecado com encenar "reencenações" - uma tendência documentarista na arte contemporânea. The Raw Shark Texts não termina com um texto mas com uma imagem clichê: Ingrid Bergman e Humphrey Bogart num momento terno em Casablanca (1942), como que sugerindo que, embora os tubarões devoradores de memória sejam abundantes nas profundezas da consciência humana, as noções mais superficiais de "amor romântico" prevalecerão. Na cena final de Remainder, o protagonista amnésico tornou-se um "reencenador" de sua própria vida e (iminente) morte.The Raw Shark Texts é essencialmente uma novela gráfica em prosa na qual o narrador amnésico deve juntar as peças de seu passado enquanto foge de um predador surreal, um tubarão que o persegue, mesmo em terra seca, tentando devorar suas memórias. Mas o romance é também agradavelmente literário: Hall homenageia escritores que admira, incluindo Borges, Murakami, Italo Calvino, Paul Auster, Raymond Carver e Chuck Palahniuk; ele batizou o lado feminino de seu protagonista amnésico de "Scout" em homenagem à criança narradora de To Kill a Mockingbird (O Sol É para Todos), de Harper Lee; e ao batizar um vilão monstruoso dos tempos vitorianos de Mycroft Ward, Hall parece estar aludindo a Mycroft Holmes, o irmão mais velho, genial e obeso do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle. Hall insere o adjetivo slipstream (literalmente, um turbilhão de hélice) num turbilhão de itálicos apagados na esteira do tubarão devorador de memórias para sugerir um parentesco com a ficção slipstream anglo-americana de ponta, uma espécie de ficção científica literária ou ficção surreal; o termo tem sido aplicado à obra de escritores como Angela Carter, Haruki Murakami e William Burroughs, entre outros. Por trás do tubarão saqueador está Moby Dick de Melville, outra devoradora de memórias humanas; e Hall recria, no clímax de seu longo romance, as linhas de enredo e o clímax de Tubarão, de Peter Benchley.A influência do filme Amnésia é mais evidente nas primeiras seções de The Raw Shark Texts, em que o amnésico, cuja carta de motorista lhe diz que ele é "Eric Sanderson", recebe cartas do "Primeiro Eric Sanderson" do mesmo modo que o protagonista amnésico do filme Amnésia de Christopher Nolan escreve mensagens para si mesmo. Mas enquanto essa ação desesperada parece plausível em Amnésia, ela envereda para os excessos da história em quadrinho em The Raw Shark Texts.O psiquiatra de Eric Sanderson, Dr. Randle, no qual as cartas do "Primeiro Eric Sanderson" previnem para não confiar, lhe diz que ele está sofrendo de "amnésia dissociativa" e teve dez outros episódios dela desde a morte de sua namorada muitos anos atrás. O amnésico de Hall é uma pessoa tolhida, aparentemente assexuada, apesar de sua recordação de ter "feito sexo" com uma mulher chamada Clio Aames, que o Dr. Randle lhe diz que era sua namorada, três anos antes, na véspera da morte de Clio. Seu relacionamento com a rude Clio é a de uma criança mal-educada com uma irmã mais velha repressora, ou uma mãe, que o insulta constantemente para provocá-lo. Apesar de ter morrido, Clio volta para seu amante amnésico na forma da misteriosa Scout, que é enviada por uma organização chamada "Comitê de Exploração do Não-Espaço" para guiá-lo em sua empreitada para combater o tubarão da memória e descobrir quem ele próprio é. Meu arquétipo junguiano favorito de Hall é seu "guia animal" - um velho "gatão cor de gengibre", maravilhosamente rabugento, chamado Ian, que acompanha seu dono ao Orpheus, sobrevive a um ataque de tubarão, e é visto pela última vez se dirigindo para a praia num barco inflável.The Raw Shark Texts é a mais bem-intencionada das fantasias soturnas: uma em que gatos velhos rabugentos em pequeninos barcos infláveis no mar conseguirão chegar são e salvos à praia, seja qual for o destino de seus donos. (Pois Eric Sanderson possivelmente se afogou, como uma notícia de jornal parece sugerir, e as centenas de páginas que enfrentamos sobre seu relato foram apenas a passagem relâmpago de sua vida diante de seus olhos.) Hall escreveu uma parábola endereçada àqueles leitores, especialmente em idade universitária, que podem se sentir ao mesmo tempo definidos e possuídos pela tecnologia eletrônica que governa suas vidas e tem se tornado cada vez mais um repositório de "memória." Depois dos furores joviais e pueris de The Raw Shark Texts, causa um certo alívio pegar o minimalista e corrosivamente irônico Remainder. No livro se diz que o narrador amnésico de McCarthy, de 30 anos, foi um analista de pesquisa de mercado em sua vida pré-amnésica, mas pouco se avança sobre o seu emprego e, embora ele recupere aos poucos uma parte da memória no curso de uma terapia pós-trauma, nada é falado sobre sua família ou seus antecedentes. Isso porque Remainder não é um romance psicologicamente intimista sobre uma pessoa, mas uma alegoria do Homem Comum contemporâneo cujos antecedentes pessoais, e sua própria personalidade, são irrelevantes para sua história. O que o amnésico perdeu foi seu senso de autonomia, autenticidade, self; uma psicoterapia árdua pode "reorientar" os circuitos danificados do cérebro, mas o homem afligido se tornou algo próximo de um robô. O misterioso acidente que causou sua amnésia também resultou em um acordo financeiro fantástico de 8,5 milhões de libras. Pois Remainder é uma variante daquele conto de fada cruel em que a realização dos desejos mais fantásticos logo se torna mortal. Aos poucos, o leitor começa a ver que a figura amnésica de McCarthy é um "remainder" (resto, resíduo) - algo que foi deixado para trás, na expressão de Jean-Paul Sartre, algo que está "atrapalhando" (ver o episódio crucial de A Náusea aparentemente uma influência para McCarthy). O mundo fragmentado e depressivamente banal que ele laboriosamente reconstrói de uma sensação fugaz de déjà vu é um mero resíduo de um mundo anteriormente vital, vívido. Diferentemente de The Raw Shark Texts, que é escrito segundo uma fórmula de ação-aventura, Remainder freqüentemente avança com uma lentidão enlouquecedora, como que evocando para o leitor algo do mal-estar e do tédio do narrador, que é incapaz de sentir um genuíno interesse por uma mulher com quem se envolveu casualmente, ou, aliás, por ninguém ou nada. Dissociado do mundo, o amnésico se torna um voyeur maravilhado, enquanto observa outras pessoas. Remainder é tão lento e aparentemente desnorteado em seus capítulos iniciais que os leitores podem se sentir desestimulados de prosseguir, um risco para um escritor inclinado a ser fiel ao tédio emburrecedor de sua vida de Homem Comum. Por fim, o amnésico é sacudido de seu torpor por uma experiência súbita de déjà vu: "O mais significativo de toda minha vida." Adequadamente, a visão de déjà vu é desencadeada pela mais banal das imagens, uma rachadura sinuosa numa parede rebocada de banheiro, trazendo consigo uma torrente de memórias: a recordação vívida de uma visão de uma janela de apartamento em outra cidade, mas nenhuma recordação de que cidade era, ou quando e o porquê ele estava lá. Esse fragmento de memória "mais significativo" é tão poderoso que o amnésico entra num estado como semelhante ao transe análogo, embora de maneira positiva, à famosa cena de A Náusea de Sartre em que o desiludido historiador francês Roquetin experimenta, olhando as raízes entrelaçadas de um castanheiro, "a chave da Existência, a chave das minhas Náuseas, da minha própria vida..., este absurdo fundamental". No resto do romance de McCarthy, que coincide com o resto da vida do narrador, ele fica obcecado por encenar "reencenações" de incidentes, com fantástica atenção a detalhes, na qual, como um cineasta ensandecido, ele gasta quantias exorbitantes de dinheiro de seu acordo pagando pessoas para atuarem para ele. No início, as reencenações são cenas ordinárias da vida pré-amnésia do amnésico, sem nenhum significado para ninguém salvo ele, fragmentos de memórias banais que requerem dezenas de assistentes engajados em atos rotineiros e repetidos sem significado: "Porque eu gostava do processo, gostava do senso de padrão." O fato de as reencenações serem tão colossalmente tediosas, tão isentas de valores estéticos, sugere o pathos da condição de amnésico. Sua vida é tão vazia de significado que ele só consegue experimentar uma "autenticidade" forjada; seu distúrbio neurológico - ou sua condição de Homem Comum, numa cultura politicamente aviltada e hipnotizada pela mídia - o impediu de experimentar a vida em primeira mão. Ele se tornou um artista performático sem nenhum interesse por arte ou por preservar suas laboriosas reconstruções em filme; ele não tem nenhum interesse em partilhar sua "visão" com outra pessoa. Remainder entra num modo de voltagem mais alta, quentin-tarrantinesca, quando o amnésico perde o interesse em reencenar suas próprias memórias e decide reencenar cenas de violência, reproduzindo sua dependência cultural da violência como arte e como entretenimento. Aqui, McCarthy é claramente devedor àquele inventivo romance britânico do século 20, Crash (1973), de J.G. Ballard, em que um narrador chamado James Ballard fica envolvido com um médico chamado Robert Vaughn, cuja obsessão erótica é a reencenação de acidentes de carros.Numa cena, que é uma espécie de reencenação da famosa cena de O Estrangeiro, de Camus, no qual um Meursault entorpecido pelo calor e a luz do sol baleia e mata um árabe sem razão aparente, o entorpecido narrador de McCarthy, armado com uma espingarda carregada da encenação de assalto a banco, atira e mata um ator-assistente quando a reencenação sai errada: "Essencialmente, eram os movimentos, as posições e o zumbido que me fizeram fazê-lo - mais nada." Como seus antecessores heróis-existencialistas, Meursault e Roquetin, o herói, ou anti-herói, sem nome de McCarthy, atinge uma visão mística final que o deixa "realmente feliz" - exceto que ele está louco, e provocou a própria morte iminente.

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