Hermeto e as lições de um mestre

Em bate-papo com músicos, ele faz um apelo: ''A gente tem de se mexer mais''

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

O trocadilho pode ser infame, mas é fato que, quando a coisa vai mal, Hermeto Pascoal não precisa botar a boca no trombone: há uns bons anos, o instrumento ressoa constantemente dentro do seu ouvido, vez ou outra variando os acordes. "Ele faz assim, ó: póoom, póm, póm, póm, póoom", solfeja. "Sempre chego perto da Aline (sua mulher e parceira musical, Aline Morena) para ver se ela consegue escutar também." Seu neurologista já teve a chance de perguntar a Hermeto, em mais de uma ocasião, se o som do trombone o incomoda. A resposta é sempre a mesma: "Digo a ele que se não é possível diagnosticar qualquer malefício, quero mais que o trombone continue tocando no meu ouvido. Ele não me atrapalha. E eu não quero calma."E, então, é revelada mais uma fonte de inspiração de um dos grandes mestres da música brasileira. Não que alguma vez Hermeto tenha desejado manter segredo de suas artimanhas artísticas - quiçá "arteiras". Se o dom é inerente ao indivíduo, que do talo saia algum sumo. "A gente tem de se mexer mais. Deus deixou tudo isso para nós nos esforçarmos mais. Se você modifica um acorde aqui, já transformou a música em outra e, assim, jamais vai se cansar. Se não há desafio, vem o desânimo e aí dá aquela coisa de estresse", ensina.As palavras invariavelmente sábias ditas pelo jovem de quase 73 anos que, se não desconstroem, ao menos incentivam inverter o método da técnica tradicional, foram ouvidas atentamente pelo baterista Percio Sapia, pela flautista e saxofonista Débora de Aquino, pelo saxofonista Tico d?Godoy e pela pianista Janete D?Alonso, na tarde da última terça-feira. Também amantes e compositores da boa música, o quarteto (além do baixista Henrique Pereira, que não pôde comparecer ao encontro) integra o Buchanan?s Forever, projeto criado em parceria entre a Escola Clam, a Rádio Eldorado e a marca de uísque patrocinadora, a fim de dar visibilidade aos novos e promissores nomes da cena musical. Desde janeiro, os músicos têm a oportunidade de se aproximar dos convidados do programa Sala do Professor Buchanan?s (que ocorre mensalmente, há três anos, no Bourbon Street e é transmitido ao vivo pela Eldorado, no 92,9 FM) e, em alguns casos, trocar experiências com eles.A reportagem do Estado acompanhou o encontro, que antecedeu a aula-show do autor do Calendário do Som no Bourbon Street na noite de anteontem, e nada mais justo do que seguir à risca os conselhos do mestre: "Vamos espalhar pra todo mundo que a música está em todas as coisas. A questão é despertar para isso." A começar por nossa voz. Quando tinha uns 7, 8 anos, Hermeto lembra de ter interrompido a conversa de sua mãe com uma comadre, porque estava muito claro para ele que elas não estavam falando, mas sim cantando. "Levei uma bronca da minha mãe porque ela achava que eu estava falando besteira. Eu posso provar que o nosso falar é o nosso cantar", garante. Logo em seguida, cumpre o prometido e associa o canto-fala às artes plásticas. "Quando falamos, duas notas saem de nossa voz. A primeira é intencional e a segunda é como um pingo de tinta, que involuntariamente cai do pincel sobre uma tela. O que você faz com ele? Reaproveita de alguma forma, cria uma nova cor, faz um novo desenho."Uma fala do ex-presidente Fernando Collor de Mello - "querer pensar positivo atrai bons fluidos" - talvez seja o melhor e mais divertido exemplo do que Hermeto chama de Som da Aura. Cada sílaba, fortemente acentuada pelo atual senador, traduziu-se em música contida no álbum Festa dos Deuses, de 1992. Hermeto prevê, inclusive, o uso do método nos demais gêneros da arte, como o teatro e o cinema, em que as trilhas serão feitas com o canto-fala. Fica aqui o pedido de uma parceria entre Zé Celso e Hermeto.O pouco poder de visão do alagoano continua estimulando improvisos criativos e novas composições. Bem se lembra do único show que fez ao lado de Elis Regina no festival de Montreux, em 1979: uma garrafa inteira de uísque dividida entre os dois e uma apresentação impecável, baseada em acordes inesperados saídos ora das teclas do piano de Hermeto, ora do timbre dramático de Elis. "Ela sabia ouvir e esperava o meu improviso para depois entrar na música."Após muita dor de cabeça com contratos de prazo indeterminado de dezenas gravadoras um tanto usurpadoras, Hermeto encerra o bate-papo com a notícia de que, muito em breve, o repertório de seus 25 discos estarão à disposição em seu site para download. "Precisamos disso para aprendermos juntos."

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