Herança viva, longe da academia

É flagrante o descaso de intelectuais brasileiros com pesquisa sobre a riqueza estética e iconográfica da cerâmica nacional

Rogério Cezar de Cerqueira Leite, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

A cerâmica é um ponto de inflexão do processo civilizador, tão importante quanto o foi a pedra lascada. Em primeiro lugar porque pedra e madeira, quando foram usados nos primórdios da civilização, o foram apenas como alterações de sua forma externa, enquanto que a cerâmica foi uma transformação da matéria, de lama e terra, em material sólido, indistinguível, sob um aspecto primitivo, da pedra. Além do mais, devido a sua plasticidade, foi desde o início necessário adicionar à argila materiais antiplásticos para produzir os artefatos desejados, o que podemos entender como o nascimento da engenharia. A segunda razão para considerar o advento da cerâmica como o acontecimento técnico culminante, desencadeador da civilização, é a função social edificante dos objetos assim produzidos. Enquanto a pedra lascada servia antes à caça e à guerra, ou seja, a ações violentas, a cerâmica prestou-se à manutenção e cocção de alimentos, atividades pacíficas, agregadoras. Talvez como consequência mesmo destas duas características tenha a cerâmica também adquirido tantas outras atribuições. Há uma certa magia na transformação da lama em pedra, o que poderia estar na raiz das inúmeras manifestações míticas e historiográficas inscritas em cerâmicas em praticamente todas as culturas. E não foi também da lama que Jeová, deus semita-cristão, fez o homem, do mesmo material de que é feita a cerâmica? Assim sendo é de espantar e de lamentar a quase total indiferença do mundo acadêmico nacional em relação à cerâmica pré-colombiana brasileira.Verifica-se que as mais antigas culturas ceramistas das Américas não se encontram nem no México dos Olmecas e de Tlatilco, nem no Peru de Cupismique e Chavin ou no Equador de Valdívia, mas no Brasil, em Tapeirinha, em Pedra Pintada. Tapeirinha, com suas peças de 5.600 a.C, não somente é anterior a qualquer outra cerâmica americana como também o é àquelas da Europa, incluída a Grécia. Somente no Japão (Cultura Jomon, 10 a 12 mil anos a. C.) e no norte da África a cerâmica é anterior à brasileira, sendo aquela famosa de Starcevo (Balkans) tão somente contemporânea à de Tapeirinha.Também do ponto de vista estético poucos, em todo o mundo antigo, são os exemplos de cerâmicas tão originais e harmoniosas quanto aquelas urnas para exumação secundária; ou tão elaboradas e expressivas quanto os vasos sustentados por cariátides da cultura tapajoara. Pois bem, tanto quanto a importância histórica como quanto à riqueza estética e iconográfica, a cerâmica brasileira se revela pelo menos tão atraente quanto qualquer outra do mundo para a exploração acadêmica. Não obstante, a universidade e a academia nacionais pouco ou nada de seus esforços dedicam a esta herança, a este passado insigne. Tenho à minha frente, como comprovação inquestionável desta deficiência, um volume da série Technology and Innovation in Ancient Societies, da Sociedade Smithsonian, que versa sobre o "Advento da Cerâmica". O excelente capítulo sobre a cerâmica brasileira primordial, escrito pela pesquisadora americana Ana C. Roosevelt, cita, dentre 33 artigos técnicos, apenas dois boletins do Museu Paraense (Goeldi).Parece-nos que arqueólogos brasileiros se ocupam mais da antiguidade grega e romana do que daquela de seu País. Para apreciar as requintadas cerâmicas marajoara e tapajoara têm os brasileiros que recorrer aos museus europeus e americanos, contrariamente ao que acontece com o povo peruano, por exemplo, que dispõe de imensa amostragem da cerâmica de seu país, centenas de milhares, em dezenas de museus espalhados por todo o seu território. É de indagar-se, se a falta de autoestima que caracteriza o brasileiro não seria exacerbada por tanta omissão dos intelectuais nas universidades e academias brasileiras em relação ao seu próprio patrimônio cultural. Rogério Cezar de Cerqueira Leite é professor emérito da Unicamp, presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Laboratório Síncrotron, Centro de Bioetanol, Centro de Biologia Molecular, Centro de Nanotecnologia) e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo

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