Herança perniciosa do veneno da escravidão

Luta pela dominação está no centro de O Mundo Conhecido

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

A história da humanidade apresenta-se como insistentes tentativas de dominação de um homem sobre o outro. Esse é o mote de O Mundo Conhecido, título do romance do norte-americano Edward P. Jones lançado pela José Olympio (tradução de Fábio Fernandes, 404 págs., R$ 45). Prêmio Pulitzer de 2004, a obra trata de negros que escravizam negros em Manchester County, Virgínia, antes de a Guerra Civil Americana (1861-1865) explodir. Feita de idas e vindas cronológicas, a narrativa tem como elo Henry Townsend, fazendeiro negro, sapateiro e ex-escravo.

 

Leia trechos dos livros

O Mundo Conhecido se inicia com a morte do protagonista, dono de 33 escravos, que adota como mentor William Robins, um dos brancos mais poderosos do Sul dos EUA. Mas, com o fim de Townsend, não termina uma era. Revela-se um universo em ruínas, cujo legado é a nódoa da escravidão depositada no coração dos homens e transmitida de geração a geração.

No livro, Jones entende o tempo como uma sequência contínua, e dependente, de elementos. "As trajetórias dos personagens são uma linha, formada pelo passado, presente e futuro", diz ele em entrevista por e-mail ao Estado. "Para informar o leitor da melhor maneira, é permitido selecionar naquela linha determinados fatos afastados temporalmente, mas conectados por algum motivo."

À época do lançamento de O Mundo Conhecido nos Estados Unidos, a crítica afirmou que o romance mostrava como a escravidão envenena o espírito humano pela raiz e corrompe todas as boas intenções - a ponto de repercutir no presente. O ficcionista concorda: existira mesmo uma herança perniciosa .

Edward P. Jones, de 49 anos, teve uma infância pobre. Dedicou O Mundo Conhecido ao irmão e à mãe, uma mulher iletrada, que lavou prato para sustentar a família e que "poderia ter feito muito mais em um mundo melhor". Segundo o escritor, o progresso real é privilégio de uma minoria. "Pessoas ainda são assassinadas e condenadas em razão da cor da sua pele." Para ele, o conflito entre dominadores e dominados segue ardendo em brasa.

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