Hebe, uma gracinha de octogenária

A apresentadora completa 80 anos amanhã, mas, na gravação de seu programa, demonstra uma agilidade de garota

Flávia Tavares, O Estadao de S.Paulo

06 Março 2009 | 00h00

Hebe Camargo chega aos estúdios do Complexo Anhanguera, onde são produzidos os programas do SBT, por volta do meio-dia - uma hora antes da gravação de seu show começar. Ela desce da Mercedes-Benz preta com toda sua loirice já armada e escovada e o sorriso espremido entre os dentes e estampado no rosto. Distribui beijinhos e comentários do tipo "mas que olhinho azul mais lindinho" para sua equipe e desaparece agilmente a caminho do camarim. Destreza que poderia impressionar em uma mulher que fará 80 anos amanhã. Mas que, por algum motivo, combina com ela. Com mais de cinco décadas como apresentadora de TV, Hebe diz ainda sentir um friozinho na espinha antes de entrar no palco. Pode até ser um clichê, mas ela fala como se fosse a primeira veterana a admitir isso na história. Como faz com todos os clichês que desfila em seu programa, alguns dos quais ajudou a criar. Ou vai dizer que você nunca apertou os lábios para imitar a loira e soltar um "Que graccciiinnnhhhaaa!"? Já maquiada - ela faz questão de cílios postiços e detesta batom vermelho, revela o maquiador Eduardo -, Hebe recebe a reportagem no camarim para confessar, entre outras coisas, que passou férias e carnaval sozinha. Não gostou. "Sempre brinco com esse assunto de namorado, mas a verdade é que faz muita falta ter um companheiro que te queira bem", diz, num tom abaixo do usual. Viúva desde 2000, quando morreu seu segundo marido, Lélio Ravagnani, ela não tem netos. O filho Marcello não se casou. "Eu a-do-ra-ria ter uma netinha. Já imaginou ela com todas as minhas joias?", esparrama-se. Revela também que adoraria ter um programa infantil. "As crianças me adoram e fazem festa quando me encontram. Vai ver pensam que eu sou a Xuxa." Ela atribui sua longevidade no ar à autenticidade com que trata público e convidados. De fato, fica difícil identificar se, nos bastidores, Hebe age como se tivesse meia dúzia de câmeras apontadas para ela ou se, diante das câmeras, age como se não tivesse nenhuma. Sua persona foi muito bem construída como a da mulher rica, até perua, mas simples, pé no chão. As joias que ostenta não a distanciam da dona de casa e, ao mesmo tempo, mantêm a apresentadora próxima das altas rodas. A plateia de senhoras que lotava o estúdio na segunda-feira puxou um Parabéns para Você no intervalo, mas a loira vai celebrar mesmo seu aniversário na Disney, com 80 convidados que vão de Lucília Diniz a Tom Cavalcante. Descendo de um elevador prateado no palco, de salto alto, calça legging e uma saída de praia que converteu em figurino, Hebe leva suas fãs aos berros de "Linda, linda!" na abertura do programa. No canto, a animadora quase não tem trabalho para empolgar a mulherada. A apresentadora abre sua performance com um "editorial" sobre corrupção. Antes da gravação, ela havia pedido aos cinegrafistas que captassem imagens de uma reportagem da revista Veja de 25 de fevereiro, sobre o PMDB. "Pior é que ela vai falar desse assunto mesmo, não tem jeito", suspira a produtora. Muito criticada por sua proximidade com Paulo Maluf, Hebe agora só fala de política de forma mais genérica. Pede transporte público, educação, honestidade. E algumas mulheres na plateia acenam positivamente com a cabeça, como se estivessem ganhando a voz que normalmente não têm. Seus convidados daquela tarde - o programa vai ao ar às 20 h - são o pagodeiro Alexandre Pires e o sertanejo Eduardo Costa, novo sucesso nas rádios populares. Quando é a vez de Costa cantar, claro que ele faz de tudo para agradar a madrinha de tantos iniciantes e vai a toda hora beijar sua mão e cantar olhando em seus olhos. Mas Hebe o dirige com a autoridade de quem sabe tudo de programas de auditório e aponta para o público como quem diz: "Agrade a elas, não a mim!" Ele obedece. Num próximo momento, entram no palco novos contratados do SBT, que lançaram seus programas ao longo desta semana. A modelo Isabella Fiorentino se derrete toda em elogios para a loira. A novata Lígia Mendes também. Aquela rasgação de seda se estende por longos minutos, mas é tudo parte do script de visitar a Hebe. Só o cenário que anda diferente. Seu famoso sofá está agora viajando o Brasil, ladeado por um totem de papelão da apresentadora, colhendo ainda mais elogios para ela. O quadro seguinte tem feito enorme sucesso entre as telespectadoras e voltou ao ar a pedido da comandante, apesar do gosto extremamente duvidoso. É o "Jornal da Hebe", em que ela divide uma bancada com Celso Portiolli para anunciar notícias bizarras sobre vibradores, homens que quebram dezenas de melancias com a cabeça, e por aí vai. Mas, indagada sobre o atual nível da programação da TV brasileira, justifica suas escolhas. "A televisão está muito vulgarizada mesmo. As novelas imitam demais a vida, não há necessidade de levar tanta violência às histórias. Realmente, não evoluímos, não, nós andamos para trás." O programa acaba e ela manda seus beijinhos para a plateia, junto com as flores vermelhas que sempre distribui. Sai correndo do palco, porque anda com a agenda lotada. Atualmente, Hebe, que começou a carreira como cantora, tem se dedicado à gravação de um novo CD, produzido por Guto Graça Mello. Sem revelar muito do repertório, garante que são músicas "lindíssimas" e anuncia o próximo passo. Ela quer fazer um DVD. "Para isso, terei que voltar a fazer shows. Vou amar voltar a Porto Alegre, ao Rio, a Belo Horizonte", empolga-se. É a tal vitalidade que combina com a loira. Ela fala da idade com humor. "Agora que a imprensa inteira está atrás de mim, fico pensando ?será que eles estão fazendo isso porque acham que vou morrer e querem ficar com arquivo? Será que é arquivo morto??" Está mais para o contrário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.